quarta-feira, 13 de março de 2024

A Influência do Rap na Produção Literária Moçambicana Pós-2000: diagnóstico de [possíveis] interfaces discursivas[1]

1.      Considerações iniciais

A partir da segunda década do século XXI, regista-se, no mercado livresco moçambicano, a publicação de várias obras de autores moçambicanos jovens, muitos deles estreantes embora já tivessem publicado textos em antologias e periódicos nacionais e estrangeiros.

Tal geração de escritores, nascida entre os anos 80 e 90, publica os seus primeiros livros neste período caracterizado por uma massificação de editoras independentes, de associações e festivais literários, de periódicos electrónicos (sites, blogs, vlogs, revistas, fanzines, etc.) que, estando à margem dos canais “oficiais”, marcam a pauta literária deste tempo tal como acentua a Professora Fátima Mendonça em texto publicado no jornal O País, dia 05 de Setembro de 2017, nos seguintes termos:

São uma geração das novas tecnologias, aberta a um mundo em que as fronteiras se tornam porosas, que conscientemente aproveita as vantagens dos caminhos abertos pela Internet, no Facebook, nos blogs em todo esse aparato tecnológico que integra soluções culturais para o nosso presente e que no caso de países como Moçambique em que existe uma hipertrofia dos grandes centros urbanos, permite colmatar as assimetrias existentes.

Do ponto de vista de periodização literária, pouco ou nada se pode dissertar a este respeito, mas, como fenómeno social e literário, há que registar algumas interseções quer sociais, quer biográficas e, até certo ponto, de natureza estilístico-discursiva entre estes autores.

Diante de tantos aspectos em comum, regista-se o facto de, independentemente das suas origens (Norte, Centro ou Sul de Moçambique), muitos deles serem entusiastas do movimento de cultura urbana _ hip-hop _ sendo que alguns deles foram fazedores de uma das manifestações artísticas deste movimento: o rap.

A este respeito cabe fazer menção à constatação da Professora Ana Mafalda Leite em “Poéticas Ecléticas, Moçambicanas Poéticas do Século XXI”, Pinheiro & Leite (2018, p. 77), ao referir que “a desarticulação das utopias [no fazer poético desta geração] é organizada numa espécie de exterioridade observadora, narrativo-confessional, eclética, às vezes orquestrada pelos sons do rap e da poesia musical”. A despeito do que a autora diz a respeito da tendência temático-ideológica desta geração de autores, a nós cabe o valor da assunção da presença do rap neste exercício, ainda que, neste caso, seja numa perspectiva rítmica e, quiçá, cénica.

Neste contexto, considerando a incipiente circulação do livro que grassa em Moçambique e o facto de muitos deles terem tido acesso à leitura de autores nacionais (e não só) na juventude e por via dos manuais escolares, há razões para cogitar a possibilidade de haver relações interdiscursivas e estilísticas na abordagem literária deste grupo de autores com o movimento Hip-Hop (Rap) se tomarmos como verdadeira a assunção de que todo discurso é um diálogo com outras vozes e perspectivas presentes na cultura”, Bakhtin (2006). De facto, se todos, senão boa parte deles, tiveram o que chamaríamos de acesso tardio ao livro, num contexto em que recebiam do rap todo manancial de referências temático-ideológicas (e até estilísticas) de onde viria a conclusão bastante comum em leituras críticas dos textos desta geração (?) em que comumente se lê:

A obra deste autor faz-me pensar na obra de Eduardo White e de José Craveirinha que, passando pela metaficção literária, são autores cuja temática se centrou na busca de identidade ou de formação de uma consciência nacionalista, a partir da poesia lírica, sem, necessariamente, serem autores de poesia panfletária. Jona Laisse (2020)[2]

 

Uma poesia narrativa, herdeira em termos temáticos, de uma vertente craveirínhica pelo seu cariz de denúncia, e incisivo pendor crítico. Curiosamente quase toda a poesia de Faife se rege por uma figura retórica, muito usada pelo autor de Xigubo, a hipálage. Leite (2019)[3]

 É por esta ordem de ideias que surge a presente reflexão sobre a Influência do Rap na Produção Literária Moçambicana Pós-2000, alicerçada no intento de diagnosticar nexos de influência discursiva do Rap na produção literária moçambicana pós-2000.

Nesta ordem de ideias e por via de uma amostragem combinada (estratificada e de julgamento), seleccionamos 14 escritores num universo de mais 50[4], nomeadamente: (1) Albert Dalela (https://rectasletras.blogspot.com/2023/02/caminhos-da-interdiscursividade_10.html?m=1); (2) Alerto Bia (https://rectasletras.blogspot.com/2023/03/caminhos-da-interdiscursividade.html?m=1); (3) Álvaro Taruma (https://rectasletras.blogspot.com/2023/01/caminhos-da-interdiscursividade.html?m=1); (4) Daúde Amade (https://rectasletras.blogspot.com/2023/04/caminhos-da-interdiscursividade_6.html?m=1); (5) Deusa d’Africa (https://rectasletras.blogspot.com/2023/02/caminhos-da-interdiscursividade.html?m=1); (6)Ernestino Maute (https://rectasletras.blogspot.com/2023/03/caminhos-da-interdiscursividade_23.html?m=1); (7) Fernando Absalão (https://rectasletras.blogspot.com/2023/04/caminhos-da-interdiscursividade.html?m=1); (8) Jaime Munguambe (https://rectasletras.blogspot.com/2023/02/caminhos-da-interdiscursividade_18.html?m=1); (9) Japone Arijuane (https://rectasletras.blogspot.com/2023/02/caminhos-da-interdiscursividade_8.html?m=1) (10) Matilde Chabana (https://rectasletras.blogspot.com/2023/04/caminhos-da-interdiscursividade_22.html?m=1); (11) Mélio Tinga (https://rectasletras.blogspot.com/2023/02/caminhos-da-interdiscursividade_25.html?m=1); (12) Nelson Lineu( https://rectasletras.blogspot.com/2023/04/caminhos-da-interdiscursividade_77.html?m=1); (13) Otildo Guido (https://rectasletras.blogspot.com/2023/04/caminhos-da-interdiscursividade_7.html?m=1); (14) Zaiby Manasse (https://rectasletras.blogspot.com/2023/03/caminhos-da-interdiscursividade.html?m=1).

Q1: Quando e como começou a escutar rap?

Objectivo: Obter o marco temporal e espacial em que o entrevistado entrou em contacto com o género musical.

Q2: Que rappers tem escutado?

Objectivo: Situar o universo de preferências do entrevistado.

Q3: Faça um top 5 de rappers da sua preferência e justifique as suas escolhas.

Objectivo: Compreender a razão por detrás das preferências do entrevistado.

Q4: Já escreveu/gravou algum material neste género?

Objectivo: Compreender o nível de envolvimento do entrevistado com o género musical.

Q5: Quando e como começou a escrever textos literários?

Objectivo: Obter o marco temporal e espacial em que o entrevistado entrou em contacto com a literatura.

Q6: A escrita é, por excelência, um exercício de memória. Muitas vezes o escritor dialoga com as suas vivências. Tal pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente. Já sentiu que, em algum momento, estivesse a dialogar com o universo rap na sua produção literária?

Objectivo: Extrair, do entrevistado, ilações sobre a forma como ele concebe o seu labor criativo do ponto de vista temático-ideológico.

Q7: Acha que o facto de escutar rap contribua para a sua produção literária? Se sim, de que forma?

Objectivo: Extrair, do entrevistado, ilações sobre a forma como ele concebe o seu labor criativo do ponto de vista estilístico.

Q8: Que paralelos pode traçar acerca do rap e da literatura produzida actualmente em Moçambique?

Objectivo: Permitir que o entrevistado faça uma intropecção sobre questões estilísticas e temático-ideológicas que emanam materialidades discursivas com as quais convive.

Diagnóstico de possíveis influências estilísticas e/ou temático-ideológicas

Para o diagnóstico a que nos propusemos no domínio do presente estudo, recorremos a três critérios, nomeadamente: (1) grau de incidência dos nexos discursivos em função das preferências dos escritores relativamente a um rapper específico (Cf. G1); (2) grau de incidência dos nexos discursivos em função das preferências do estilo rítmico e temático-ideológico do Rap (Cf. G2); e (3) grau de incidência dos nexos discursivos em função do país de origem dos produtos verbais escutados (Cf. G3).

Com a aplicação destes critérios, foi possível encontrar intersecções nas respostas fornecidas pelos entrevistados e, a partir disso, extrair padrões de leitura que possam nortear pesquisas posteriores.

Os gráficos abaixo são indicadores destes padrões. Com a aplicação do primeiro critério, nota-se, por exemplo, 92.80% de incidência relativamente à menção do rapper Azagaia no imaginário discursivo dos escritores entrevistados.

No domínio do segundo critério, nota-se que o universo de referências dos escritores entrevistados incide no Underground, na ordem de 74% dos escritores entrevistados.

Relativamente ao último critério, é evidente que Moçambique e Portugal representam os expoentes geográficos do universo de referências destes escritores, consubstanciando 39% e 30%, respectivamente.

1. Critério: grau de incidência dos nexos discursivos em função das preferências dos escritores relativamente a um rapper específico

2.      Critério: grau de incidência dos nexos discursivos em função das preferências do estilo rítmico e temático-ideológico do Rap

1.1.1.      Critério: grau de incidência dos nexos discursivos em função do país de origem dos produtos verbais escutados


1.      Considerações finais

Com base nos dados extraídos, podemos inferir que há uma evidente influência do hip-hop no imaginário literário e, sobretudo, pessoal dos escritores entrevistados, cabendo, no entanto, a verificação material dessa hipótese à análise das suas obras. Sendo oriundos de contextos sociais e geográficos diversos, os autores partilham as mesmas vicissitudes na relação com o rap, tendo a infância e a adolescência como o marco temporal desse convívio.

Do ponto de vista de representações cognitivas do mundo, este facto não pode ser ignorado, se considerarmos que a literatura é um espaço de ficcionalização dessas representações. Por via disso, é inevitável que o Rap tenha tido uma influência nesse sentido.

Embora os escritores divirjam relativamente à assunção da influência do rap no seu exercício, tal não pode servir de base para conclusões a respeito da influência do rap na sua produção literária específica. Esse exercício consistirá na leitura e análise dos seus textos, com base em algumas pistas identificadas no presente estudo. Por isso, esta abordagem exploratória dá-nos (outros) horizontes de leitura dos textos produzidos por esta nova geração de autores e abre espaço para novas pesquisas que possam incidir nas seguintes perspectivas:

1.      Análise da influência das motivações estéticas e temático-ideológicas do rap na produção literária desta “geração”;

2.      Avaliação da influência de um rapper num certo grupo de autores;

3.      Estudo de relações estético-temáticas entre um rapper e uma geração de autores que consomem a sua música e o tem como modelo estético;

4.      Análise de técnicas de enunciação típicas do rap e que são usadas na escrita literária;

5.      Falseamento de leituras anteriores que defendem uma eventual influência da poesia de combate na geração actual de escritores;

Aspectos a considerar:

1.      A concepção do autor sobre as suas perspectivas estéticas ou temático-ideológicas não podem servir de base para análise, senão os rappers que ele escuta com frequência;

2.      Não só os rappers mencionados pelo autor devem servir de base para análises dialógicas com o rap; em razão da instabilidade que emana este fluxo dialógico e a forma instantânea com que os dados foram recolhidos;

Limitações:

1.      Indisponibilidade de algumas obras desta geração de escritores devido à fraca circulação do livro em Moçambique;

2.      Falta de regularidade na publicação de livros devido a dificuldades editorias, o que dificulta o seguimento dos traços identitários dos autores.


[1] Excerto de um artigo científico. A partilha nesta plataforma visa a divulgação e o debate de ideias em contextos não académicos.

[2] Em Jornal O Pais, 11 de Setembro de 2020

[3] Em Pinheiro, V. R. & Leite, A. M. (2018). Cânone(s) e Invisibilidades Literárias em Angola e Moçambique. João Pessoa: Editora UFPB;

[4] Atente-se ao facto de não termos tido nenhuma estatística nesse sentido, daí que este número surge por via de uma estimativa aleatória decorrente do contacto (virtual e presencial) que privamos que estes escritores.

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