UM PORTUGUÊS MOÇAMBICANO EM EMERGÊNCIA!


Do ponto de vista linguístico, Moçambique é um país heterogéneo, isto é, há várias línguas que coexistem neste mesmo espaço. Por um lado, existe um grupo de línguas autóctones (de raiz bantu), por outro, existe o português e outras línguas estrangeiras. Num total de mais de vinte línguas, maioritariamente do grupo bantu, o português é falado por cerca de 39,6% de moçambicanos (de acordo com Censo de 1997), foi adoptado como língua oficial (utilizada na administração e no ensino) e é, maioritariamente, adquirido como língua segunda (L2), tendo assim como modelo o português europeu.
Perante este cenário, percebe-se que o português está a interiorizar-se no contexto sócio-cultural de Moçambique, podendo afirmar-se que está a sofrer um processo de nativização. Facto que pode ser justificado numa perspectiva linguístico-cultural defendida por GOMES & CAVACAS (2004: 115) ao afirmar que, a língua permite a construção de uma visão do mundo, mas não fica presa a ela. Se descobre novas culturas, aceita e por vezes absorve novas visões do mundo.
Portanto, este facto (nativisação de uma língua europeia) é recorrente em diversos, se não todos, países africanos. E, como uma ilustração desta influência das culturas africanas sobre as línguas europeias, pode-se destacar o facto de não ser adequado o adágio português segundo o qual “mãe há só uma”, pois, a estrutura familiar que permite a poligamia, faz com que a criança cresça muitas vezes com duas ou mais mulheres que assumem papeis maternos e que ela trata como mães.
Portanto, analisando esta nativização do ponto vista lexical, diríamos que, tal como afirmam GOMES & CAVACAS (2004: 24), as palavras entram na língua por adopção, pelos falantes, não por imposição. Os mesmos autores acrescentam que, a língua e, logo o léxico não tem realmente um dono, e sim construtores e utentes que através dos tempos, tem descoberto maneira de encontrar expressão, palavras, para as suas necessidades e de transformar o uso que faz dessas palavras no seu significado.
Há que ressaltar que ainda que, por vezes, este processo de adopção de alterações lexicais é longo. No caso de Moçambique, o mesmo data de até antes da independência do pais (em 1975), tal como afirma Gregório Firmino numa dissertação em que aborda “ a situação do português no contexto multilingue de Moçambique”

Mesmo antes da independência, o português falado em Moçambique incluía traços típicos largamente propagados, ou seja, os chamados moçambicanismos, usados até pelos colonos portugueses. Tais moçambicanismos podem ser exemplificados com elementos lexicais, como machimbombo (o equivalente na forma europeia a autocarro, também usada em Moçambique), maningue (equivalente a muito), quinhenta (cinquenta centavos, na forma europeia, também usada em Moçambique). (p. 14)
Neste contexto, após a independência, assistiu-se ao recurso cada vez mais frequente a inovações lexicais em Moçambique, sobretudo no que tange à empréstimos à línguas autóctones (para designar, por exemplo, realidades sócio-culturais inerentes a Moçambique), neologismos morfológicos e outras formas de inovações lexicais.
Este facto intensificou-se devido, essencialmente, à saída massiva de colonos, que reduziu significativamente a possibilidade de exposição dos aprendentes da língua portuguesa à norma europeia, considerando que estes constituíam um mecanismo de aprendizagem e reforço do padrão linguístico.
No momento actual, há sinais que induzem a conclusão de ter-se vindo a desenvolver uma variante moçambicana do português com algumas características específicas, como por exemplo, um léxico próprio de, pelo menos, 1700 palavras. (SOUSA: 2009).
Mas, sendo a língua oficial do país o português de norma europeia, este português moçambicanizado vive essencialmente no domínio da oralidade. (ibidem)
Assim, surge-nos a questão:
De que maneira ocorrem as alterações lexicais em Moçambique?
Pode-se dizer que, as alterações lexicais no português em Moçambique realizam-se por meio de procedimentos morfológicos da língua portuguesa (derivação __ por prefixação e sufixação __ e composição) com morfemas gramaticais ou lexicais tanto do português assim como das línguas autóctones.
Onde, na derivação por prefixação, dentre vários prefixos registáveis podemos ter o prefixo des-, que pode combinar-se a verbos, substantivos, adjectivos, advérbios (entretanto > desentretanto) e pronome indefinido(ninguém> desningueizado). PETTER (2008: 109)
Porém, há que referir que estas alterações resultam da criação literária. Segundo LABAN (1999: 87) apud PETTER (2008: 109), os de uso popular são os seguintes: desacontecer, desarascador, desarrascar, desconseguido, desconseguir, desimportar, desimportar-se, desimpossado, etc.
Na derivação por sufixação, o sufixo que de nós merece especial destaque é o –ar, que na língua popular produz formas verbais derivadas de termos conhecidos do português padrão, como: candongar (vender a preços acima dos do mercado); confusionar; teimosar; televisionar; depressar; intervencionar; pacientar; sonecar; etc.
No caso de termos como: confusionar, televisionar, intervencionar, FIRMINO, p.17 diz haver uma sobre-generalização de um padrão que pode ser reconhecido na língua, tal como no par «adição/adicionar». Os nomes que terminam em «-ão» podem ser verbalizados através da substituição desta terminação por «-ionar».
No entanto, há ainda que ressaltar o facto de, o mesmo sufixo -ar poder, também, formar derivados de termos de diversa origem:
a) Africana:
Ø  belecar __ conduzir crianças às costas;
Ø  djecar __ ir a uma festa sem ser convidado;
Ø  gwevar (‘adquirir para revenda’), etc.
b) Inglesa:
Ø  djobar __ trabalhar do inglês job, “emprego, trabalho”;
Ø  kilar __ matar, do ingles kill/ to kill ‘matar”
Ø  djimar, gimar __ fazer ginástica; fazer exercício (do inglês gym, abreviatura de gymnastics, “ginástica”;
No referente à composição, podemos ter expressões sintácticas lexicalizadas que, segundo VILLALVA: 2008, “trata-se de um processo de perda de composicionalidade” e, na língua portuguesa (norma europeia) afecta expressões sintácticas como: brincos de princesa, pés de galinha ou velho mundo. No contexto moçambicano este processo pode ser notável em: beijo-de-mulata (planta medicinal usada no tratamento de várias enfermidades), colchão-de-noiva (tipo de bolo rectangular sempre presente nos casamentos). Temos também palavras que surgem através do processo de reanálise que, na óptica de MATEUS et al: 2005, é um processo de formação de palavras que consiste na reintegração de uma estrutura sintáctica como uma palavra. Como pode-se observar, por exemplo, em espera-pouco (espécie de arma de manejo manual), mata-bicho (pequeno almoço), mata-peixe (planta da família das leguminosas), etc. E, este tipo de composto é constituído obrigatoriamente por uma forma verbal flexionada na terceira pessoa o singular do presente do indicativo e seguida de uma forma nominal ou, muito raramente, adjectival.
Por outro lado, tal como afirma Gonçalves (2003), observa-se que estas alterações lexicais subjazem numa “sistematicidade na introdução dos empréstimos, que correspondem a lacunas lexicais do português europeu (PE), devidas à falta de referência a realidades específicas de Moçambique (relativas à cultura, fauna e flora, principalmente).”
De entre vários exemplos da introdução destes empréstimos, podemos destacar:
a) Dumba-nengue, que literalmente significa ‘confie nas suas pernas’, uma expressão usada em referência a um tipo de mercado informal. A palavra é uma combinação de «ku-dumba», ‘confiar’ e «nengue», ‘pé/perna’. Indica o facto de que os mercados informais são ilegais e, por isso, os vendedores têm que fugir constantemente da Polícia, confiando nas suas pernas.
b) Tchova-xitaduma, que literalmente significa ‘vá empurrando, que vai pegar’, usada em referência a um tipo de carroça que é empurrada por um homem. A palavra é uma combinação de «ku-tchova», ‘empurrar’, e «ku-duma», ‘o pegar de um motor’.
De acordo com FIRMINO (em “a situação do português no contexto multilingue de Moçambique.” P, 21), a língua portuguesa é usada em Moçambique com a manipulação de estratégias retóricas distintivas, por meio dos quais os actores sociais concebem e interpretam os significados referenciais e sociais.
Destas estratégias retóricas podemos destacar:
a) O uso da palavra cabrito, que invoca o conceito de corrupção, já que, como no adágio popular se assume que «o cabrito come onde está amarrado», isto é, come o capim que se encontra à sua volta, também o corrupto tira partido das oportunidades que se lhe oferecem onde estiver, como, por exemplo, no seu posto de trabalho. Assim a palavra cabrito acaba por ter o significado de corrupto, de onde se poderá formar o verbo cabritar e o substantivo cabritagem.
b) O uso da epíteto xiconhoca, introduzido em Moçambique como nome de uma personagem construída numa série de caricaturas muito divulgadas, representando os comportamentos depreciados na sociedade moçambicana. O «Xiconhoca» era suposto ser «o inimigo do povo», cujos valores morais e políticos o colocavam à margem do resto da sociedade.
Assim, o «xiconhoca» é alguém visto como sendo prejudicial à sociedade, que, por meio de manobras perniciosas, tenta satisfazer as suas ambições egoístas.
Portanto, em linhas gerais diríamos que, o português em Moçambique tem, seguramente, um vasto leque de léxico que é único deste país, o que o torna cada vez mais distinto do português adoptado como padrão em Moçambique (Português europeu). Estas alterações são devidas, sobretudo, a um fenómeno que terá ocorrido aquando da “chegada” desta língua, que, embora servindo como instrumento de aculturação, a mesma não penetrou no íntimo do povo moçambicano __ a cultura__ porém, há que assumir que esta goza, socialmente, de algum prestígio. E, considerando a relação de influência existente entre a língua e a cultura de um indivíduo/povo, pode-se cogitar a hipótese de, a cultura (de cariz múltiplo) que caracteriza o povo moçambicano tenha se feito mais presente na realização que os falantes fazem da língua portuguesa em Moçambique. Querendo, no entanto, comungar da mesma ideia defendida por Mia Couto apud GOMES & CAVACAS (2004: 116) segundo a qual:
“enquanto nos países anglófonos e francófonos existe mais este estatuto de língua europeia como grande dama intocável, a qual tem de ser respeitada, em Moçambique (…) isso não acontece tanto assim: as pessoas namoram de uma maneira promíscua com a língua (…) e trouxeram para o português as contribuições várias destas várias culturas. Isto é, o português naturaliza-se, suja a gramática toda com cor das novas terras, tem outros falares e outros pensares”
Além desta perspectiva, pode-se, também, considerar o facto de esta língua constituir uma L2 na grande maioria de falantes em Moçambique e, tendo em conta que esta é, normalmente, aprendida num contexto escolar com suas limitações no que se refere ao domínio da “norma padrão”, é predizível que haja, alguma sobregeneralização de regras morfológicas existentes na língua portuguesa, o que, obviamente, culmina na criação de um conjunto de vocábulos que não estando previstos na “norma padrão”, tornam-se, por um lado estranhos a ela e, por outro, ao serem difundidos (de diversas formas, como os media, por exemplo), tornam-se usuais e característicos de um português moçambicano que, gradualmente, vai emergindo.
Fora da influência recíproca entre a LP e a cultura moçambicana, do contacto entre línguas e da sobregeneralização das regras de formação de palavras na língua portuguesa, o outro fenómeno que contribui para a emergência deste português falado à maneira moçambicana, é a postura dos fazedores da literatura que, tal como afirma SOUSA (2009:129), “procedem à subversão da língua portuguesa, no seu esforço de construírem uma identidade literária moçambicana, sem, no entanto, prejudicarem a percepção dos enunciados.”

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