COMO SE EXPRESSAR NUMA NARRATIVA?


Olá! Quero acreditar que esteja tudo bem convosco…
Aqui estou eu mais uma vez, para partilhar os pensamentozinhos que têm sido manchetes na minha cabeça doida de pedra. O que me traz hoje é um assunto que me tem inquietado bastante. Refiro-me ao modo de expressão numa narrativa…Não quero, de forma alguma, estar aqui a ostentar um intelectualismo forjado e nem quero dar uma espécie de colóquio acerca de matérias literárias porque sei que muita gente bem informada acerca do assunto o faz muito excelentemente pelo mundo afora. Não quero com isso estar aqui manifestar uma espécie de modéstia exacerbada porque estou ciente de que “modéstia de mais chega a ser vaidade”! Se o fiz, conto com a vossa tolerância, de igual modo o faço em relação aos deslizes com que possivelmente deparar-se-ão durante a leitura destas curtas linhas.
__ Curtas linhas?
Oh! Desculpem-me. Realmente há coisas que transportamos no gene e que são mais fortes que nós…Em Moçambique, nós levantamo-nos sempre com um ar humilde, anunciamo-nos com modos tímidos e dizemos «já estou ultrapassado, tenho pouca coisa a dizer, no entanto, vou tentar dizer qualquer coisinha…»[1] E depois disso, meu carro, passam horas e horas ouvindo a mesma pessoa que prometeu dizer pouco…e, como se não bastasse ainda termina o discurso dizendo “eh…Portanto…era SÓ isto que eu tinha a dizer…muito obrigado por…” enfim, são coisas da terra.
O facto é que, uma narrativa pode apresentar várias modalidades de discurso. O discurso do narrador, mais próximo da ficção narrada, no qual encontramos a narração e a descrição e, por outro lado, temos o discurso das personagens mais distante do narrador que apresenta-se sob as formas de diálogo e monólogo.
No que diz respeito à narração, esta corresponde ao “relato de acontecimentos e conflitos situados no tempo e encadeados de forma dinâmica”.[2]
E, pode se dizer também que a narração é a parte da narrativa onde há o desenvolvimento da acção da obra (um romance, por exemplo).[3]
Assim sendo, a narração é feita por um narrador que relata acontecimentos que dizem respeito a agentes (pessoas ou outros seres). Os acontecimentos desenrolam-se no espaço e no tempo.
Tenhamos como exemplo:
“Tinha cada um seu sonho para a festa de Santa Eufémia.
O Nobre, era deslindar umas contas velhas com o Marcolino; a mulher, era pagar a promessa que fizera (por causa de ferrujão dos bois); a filha, era passar noite no arraial, a dançar a cana verde nos braços do namorado. (…)”
Miguel Torga, Novos contos da Montanha
Em linhas gerais, pode-se dizer que a narração deve ser viva a fim de captar o interesse do alocutário, e para tal, há o recuso a tempos verbais como o pretérito perfeito e o presente do indicativo. Além destes, na narração recorre-se também a verbos de movimento e formas verbais do imperfeito e mais-que-perfeito.
Portanto, no que diz respeito ao registo de língua, a progressão textual da narrativa resulta da convergência de variados meios linguísticos: morfológicos, sintácticos, semânticos e textuais. Assim sendo, uma narração deve comportar:
1.      Um acontecimento a narrar;
2.      A presença de agentes (personagens);
3.      Uma articulação narrativa (numa só sequência ou numa sucessão combinada de sequências);
4.      Uma sequência temporal (simultaneidade ou sucessão: depois, em seguida, mais tarde, ao mesmo tempo) e/ou sequencialização causal (porque, então, por causa de);
5.      Verbos de movimento que impliquem uma acção (trabalhar, correr, ler);
6.      Tempos verbais (pretéritos: perfeito, mais-que-perfeito)
7.      Expressões temporais para situar a acção (naquele dia, ontem, o ano passado, em 1992);
8.      Expressões de lugar para localizar a acção (naquela casa, aqui, na rua)
9.      Conectores, com vista a organização do discurso.[4]
Em relação à descrição, esta contêm informações sobre as personagens, os objectos, o tempo e os lugares, que interrompem a dinâmica da acção e vão desenhando os cenários e, esta integra-se na narração.
Portanto, enquanto a narração representa a parte dinâmica no desenvolvimento da acção, a descrição representa um momento estático. As descrições enriquecem a obra fornecendo informações adicionais (sobre personagens, os objectos, o tempo e os lugares), tornando o texto/obra mais fácil de perceber. Daí a razão de se dizer que “descrever é pintar por palavras”.
Tenhamos como exemplo:
“(…) Entretanto anoitecera, e arraial abria na escuridão da serra uma clareira luminosa, intensa de vida e paixão. As músicas desafiavam-se o mais rumorosamente que podiam, os foguetes estoiravam no ar como bombas de dinamite, os pares levantavam nuvens de pó, havia mocadas aqui e além, e nas barracas comia-se, bebia-se e jogava-se a vermelhinha. (…)”
Miguel Torga, Novos contos da Montanha
Desta forma, conclui-se que quando um texto narrativo dá grande importância à acção, predominam as narrações. Quando se atribui maior importância a aspectos informativos, predominam as descrições.
No referente ao registo de língua predominante, pode-se afirmar que recorre-se a verbos copulativos/de ligação e formas verbais do pretérito imperfeito.
Neste contexto, Nascimento: 2006 afirma que o pretérito imperfeito é o tempo verbal que por excelência é usado, nomeadamente em descrições de paisagens. E, frequentemente, recorre-se a figuras de estilo adequadas, como comparações e imagens.
Assim sendo, a descrição pode comportar:
·         Descrições de personagem
Às vezes, as personagens, podem ser caracterizadas directamente, em fragmentos de texto expressamente destinados a esse fim, quer seja a própria personagem a falar, quer seja outra personagem, ou mesmo o próprio narrador. Mas pode se caracterizada indiscretamente, de maneira dispersa ao longo do texto/obra, a partir das falas da própria personagem ou de outras personagens, a partir dos actos e reacções da personagem que possam levar o alocutário a tirar as suas conclusões sobre a caracterização dessa tal personagem. NACIMENTO: 2006
Na caracterização pode apresentar-se:
·         O retrato físico __ é constituído pelos atributos da personagem, sobretudo, quando se faz uma primeira apresentação da personagem dando o retrato físico para uma posterior abordagem acerca do seu retrato psicológico (seja o narrador ou outra personagem). Trata-se de uma estratégia a que o articulista recorre.
·         O retrato psicológico __ é constituído pelos atributos mentais da personagem. Quando se faz uma apresentação dando apenas o retrato psicológico porque quem descreve já terá dado antes o físico ou poderá vir a dá-lo depois.
·         Ambos retratos __ na maioria dos casos, durante a descrição das personagens, o articulista dá-nos ao mesmo tempo os dois retratos, o físico e o psicológico.
Assim sendo, diz-se que uma descrição deve comportar:
1.      Verbos que, semanticamente, enceram um valor durativo e iterativo.
2.      Determinados verbos como estar (que indica um estado) ser (que predica a totalidade do objecto __ Ângela era linda.) ter (que predica uma parte do objecto __ Ângela tem olhos lindos);
3.      Determinados tempos verbais como o imperfeito do indicativo (que traduz a simultaneidade e a continuidade __ Ela queria estar comigo; o presente de atestação __ Xai-Xai é uma cidade monumental; e o futuro de previsão __ Ela virá a ser óptima companheira.
4.      Advérbios e expressões de tempo e de lugar (para localizar lugares e situar o tempo e épocas);
5.      Adjectivos;
6.      Conectores com valor aditivo (e, de novo, igualmente) enumerativo (primeiro, depois, em seguida) FIGUEIREDO: 2004
Em relação ao diálogo, trata-se de:
a) Interacção verbal ou conversa entre duas ou mais personagens (discurso directo com registos de língua variados).[5]
b) É uma situação especial da narração, que consiste na troca de falas entre personagens. O diálogo deve revestir-se de características de vivacidade.[6]
Três funções principais do diálogo são: dar maior dinâmica à acção, cativar a atenção do alocutário e caracterizar as personagens.
Tenhamos como exemplo:
__ Quando vamos à vila? _ Perguntava a rapariga dois meses antes, a pensar na saia nova de merino.
__ Tens tempo…respondia o pai, que também acalentava o desejo inconfessado de uma faixa de cinco voltas.
Miguel Torga, Novos contos da Montanha
Portanto, para assinalar o diálogo, a nível gráfico, recorre-se geralmente a dois pontos e a travessão (ou por vezes as aspas) e a verbos declarativos que introduzem as falas (abrindo um parágrafo) ou aparecem no meio delas, as concluem.
Além do diálogo, no que diz respeito ao discurso das personagens, pode-se destacar o monólogo que é uma conversa da personagem consigo mesma, discurso mental não pronunciado ou pronunciado, mas sem ouvinte (discurso directo com frases simples e reduzidas).
Exemplos:
__ Oh! Meu Deus da minha alma, que há-de ser de mim?!...._ gemia a Otília.
__ Agora já ele sabe quem é covarde!... _ farroncava o Nobre.

Eh…Portanto…eram só estas coisinhas que eu tinha por partilhar…muito obrigado pela vossa atenção…


[1] Mia Couto (in pensatempos, pag. 113)
[2] http:www.educacao.te.pt
[3] NASCIMENTO, Zacarias e PINTO, José Manuel de Castro. A dinâmica da escrita: como escrever com êxito. 5ª Edição. Plátano Editora, Lisboa, 2006.
[4] FIGUEIREDO, Olívia Maria. Da palavra ao texto. Rosa Porfilia Bizarro. 6ªEdição. Lisboa, 2004.
[5] Educacao.te.pt
[6] NASCIMENTO: 2006

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