sábado, 29 de agosto de 2026

A procrastinação estudantil e as suas consequências

Há dias em que acordo decidido a mudar. Levanto-me cedo, organizo os meus apontamentos, preparo os livros e prometo a mim mesmo que, finalmente, vou estudar com seriedade. Digo que desta vez será diferente, que vou conseguir manter o foco, que não vou deixar nada para depois. Mas bastam alguns minutos para que tudo comece a desmoronar. Primeiro é o telemóvel que vibra “só para ver uma mensagem rápida”, depois uma conversa sem importância que se prolonga mais do que devia, mais tarde uma música que me prende ou um episódio de uma série que “só hei de ver um bocadinho”. E, quando volto a olhar para o relógio, o dia já escorregou entre os dedos. O silêncio da secretária continua ali, os livros continuam abertos na mesma página, e eu continuo exactamente no mesmo lugar.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O erotismo como mecanismo de expressão da feminilidade: em “ABC da Cantiga da virgem e Rasga toda ela” de Matilde Chabana e “À meia-noite e Poema 004’’ de Hera de Jesus

Falar do erotismo como mecanismo da expressão da feminilidade na poesia, olhando, especificamente, para poesia moçambicana, significa pôr em destaque algumas vozes femininas que, na contemporaneidade, desafiam os tabus sociais relacionados ao corpo, desejeso sexual, prazer e sexualidade. É neste contexto que se justifica a presente reflexão, pela necessidade de compreender como o erotismo é utilizado na poesia para expressar a feminilidade. Para a concretização deste intento, analisa-se os poemas “ABC da Cantiga da virgem e Rasga Toda Ela” de Matilde Chabana e “À Meia-noite e Poema 004” de Hera de Jesus.

sábado, 25 de julho de 2026

A exigência que transforma

Sete em ponto. Porta fechada. Quem chegasse atrasado ou com ficha de leitura despachada, era colocado na lista de candidatos a exclusão. No início, ninguém da turma de Inglês entendia aquilo. No semestre passado ele era professor de Técnicas de Expressão em Língua Portuguesa. Agora é nosso professor de Português. Desde o primeiro dia, fazemos a mesma pergunta: para quê tanta exigência? 

Pontualidade. Assiduidade. Ficha de leitura. Participação obrigatória. Perguntas inesperadas. Tudo parecia exagero. Nós reclamávamos dele nos corredores, nas escadas, nos grupos da turma e até depois das aulas. Houve dias em que desejávamos sinceramente que ele desaparecesse do curso ou fosse transferido para outra turma.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A problemática da conceituação do verso: uma abordagem dialéctica baseada em “no dorso da sombra” de Hera de Jesus e “é preciso escrever para não adoecer” de Pedro Pereira Lopes

Nos estudos sobre versificação, constatou-se a existência de divergências significativas na definição do verso, sobretudo no que diz respeito ao número de palavras que o constituem. Deste modo pretende-se discutir o conceito de verso. Para a concretização deste propósito, pondera-se: (i) analisar as diferentes conceituações de verso; e (ii) ilustrar, com base em textos poéticos, a aplicação dessas concepções.

Bechara (2009) define o verso como “o conjunto de palavras que formam, dentro de qualquer número de sílabas, uma unidade fónica sujeita a um determinado ritmo” (p. 534).

A intersecção entre a identidade e a consciência das personagens principais em "A Metamorfose" de Franz Kafka e "Nós Matamos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana

Os livros A Metamorfose e Nós Matamos o Cão Tinhoso reflectem como o contexto social, as expectativas e pressões familiares e comunitárias podem transformar o comportamento do personagem, levando-os à perda da identidade e à alienação. Enquanto Kafka aborda a alienação da personagem em um contexto familiar, Honwana explora a alienação colectiva em uma sociedade colonizada, onde a violência e a opressão são naturalizadas e internalizadas. 

Os livros demonstram o impacto devastador da falta de compaixão e da desumanização, revelando a luta dos personagens para encontrar sentido e dignidade em suas vidas. Nas novelas, as personagens principais actuam como pontes que conectam o leitor à narrativa, revelando temas centrais e a complexidade do mundo fictício. Através de suas reacções, pensamentos e acções, essas personagens manifestam identidades únicas e revelam os conflitos que enfrentam em um ambiente que as molda.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Crítico literário ou ensaísta _ das qualidades para se ser à relevância na cadeia de valor do livro

Nos dias de hoje, tornou-se inexistente, em Moçambique, a figura do crítico literário. Não me refiro à actividade, mas ao título. À denominação. À etiqueta. Enfim, pouca gente se define como crítico literário. Somos todos ensaístas.
Esta preferência por se definir como ensaísta não decorre de uma assembleia geral ou algo similar. É uma tendência que os cultores da metalinguagem em espaços públicos foram tomando, motivados, quiçá, pela percepção viciada e quase pejorativa que se tem de um crítico literário. Pelo que a ideia de se assumir como ensaísta parece ser mais eclética e menos problemática.