segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Made in Nampula ou jazz do oriente com sabor a kwashala

“Quando o ruído se espalha por toda a baía, retiro o mastro, já sem vida, deste mar quente” porque a vida, em Moçambique, tem mais improvisos que o jazz.

 

Um olhar diacrónico sobre a literatura moçambicana revela-nos que sempre houve uma simbiose entre a escrita e outras artes, sobretudo a música e a dança. Esta surge associada a vários elementos: há registos de autores que retomam certas músicas para com elas dialogar e partilhar a mesma construção temática; outros realizam uma espécie de pastiche de certos registos musicais; e outros, não poucos, têm na referência à música e à dança uma matéria prima que serve de balsamo para as personagens (se se tratar da narração) ou para o sujeito poético (se se tratar da poesia).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O erotismo como mecanismo de expressão da autonomia da mulher em “proibido” de Franklin Gravata

O recurso ao erotismo como forma de expressão de vários sentimentos, emoções e ideias tem-se tornado uma tendência bastante notável na literatura moçambicana. Olhando para esse pressuposto, julgamos que, de certa forma, o erotismo permite uma abordagem da sexualidade feminina de forma mais aberta, desafiando normas sociais e culturais que frequentemente silenciaram a expressão sexual e dos desejos da mulher.

Neste texto, procuramos, de um modo geral, compreender como o erotismo pode ser um recurso que expressa autonomia da mulher em “Proibido” de Franklin Gravata. Para alcançarmos este propósito, iremos: (i) definir o erotismo na perspectiva de vários autores; (ii) discutir a presença do erotismo na literatura; e (iii) analisar os traços do erotismo no texto “Proibido” de Franklin Gravata.

Durigan (1985) refere que o termo erotismo deriva de “Eros” (Deus do amor), e é uma representação cultural que organiza o desejo sexual de actores visando a atualização do princípio do prazer (p.92).

sábado, 29 de agosto de 2026

A procrastinação estudantil e as suas consequências

Há dias em que acordo decidido a mudar. Levanto-me cedo, organizo os meus apontamentos, preparo os livros e prometo a mim mesmo que, finalmente, vou estudar com seriedade. Digo que desta vez será diferente, que vou conseguir manter o foco, que não vou deixar nada para depois. Mas bastam alguns minutos para que tudo comece a desmoronar. Primeiro é o telemóvel que vibra “só para ver uma mensagem rápida”, depois uma conversa sem importância que se prolonga mais do que devia, mais tarde uma música que me prende ou um episódio de uma série que “só hei de ver um bocadinho”. E, quando volto a olhar para o relógio, o dia já escorregou entre os dedos. O silêncio da secretária continua ali, os livros continuam abertos na mesma página, e eu continuo exactamente no mesmo lugar.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O erotismo como mecanismo de expressão da feminilidade: em “ABC da Cantiga da virgem e Rasga toda ela” de Matilde Chabana e “À meia-noite e Poema 004’’ de Hera de Jesus

Falar do erotismo como mecanismo da expressão da feminilidade na poesia, olhando, especificamente, para poesia moçambicana, significa pôr em destaque algumas vozes femininas que, na contemporaneidade, desafiam os tabus sociais relacionados ao corpo, desejeso sexual, prazer e sexualidade. É neste contexto que se justifica a presente reflexão, pela necessidade de compreender como o erotismo é utilizado na poesia para expressar a feminilidade. Para a concretização deste intento, analisa-se os poemas “ABC da Cantiga da virgem e Rasga Toda Ela” de Matilde Chabana e “À Meia-noite e Poema 004” de Hera de Jesus.

sábado, 25 de julho de 2026

A exigência que transforma

Sete em ponto. Porta fechada. Quem chegasse atrasado ou com ficha de leitura despachada, era colocado na lista de candidatos a exclusão. No início, ninguém da turma de Inglês entendia aquilo. No semestre passado ele era professor de Técnicas de Expressão em Língua Portuguesa. Agora é nosso professor de Português. Desde o primeiro dia, fazemos a mesma pergunta: para quê tanta exigência? 

Pontualidade. Assiduidade. Ficha de leitura. Participação obrigatória. Perguntas inesperadas. Tudo parecia exagero. Nós reclamávamos dele nos corredores, nas escadas, nos grupos da turma e até depois das aulas. Houve dias em que desejávamos sinceramente que ele desaparecesse do curso ou fosse transferido para outra turma.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A problemática da conceituação do verso: uma abordagem dialéctica baseada em “no dorso da sombra” de Hera de Jesus e “é preciso escrever para não adoecer” de Pedro Pereira Lopes

Nos estudos sobre versificação, constatou-se a existência de divergências significativas na definição do verso, sobretudo no que diz respeito ao número de palavras que o constituem. Deste modo pretende-se discutir o conceito de verso. Para a concretização deste propósito, pondera-se: (i) analisar as diferentes conceituações de verso; e (ii) ilustrar, com base em textos poéticos, a aplicação dessas concepções.

Bechara (2009) define o verso como “o conjunto de palavras que formam, dentro de qualquer número de sílabas, uma unidade fónica sujeita a um determinado ritmo” (p. 534).