sexta-feira, 20 de março de 2026

Perigos do isolamento e do comportamento de manada na criação literária

São poucas as frases que se tornaram clichês quanto esta: escrever é um acto solitário. O que ela reproduz é qualquer coisa de ritualístico, que nem sempre é comum entre os que têm, na escrita, uma actividade sócioprofissional. Há gente que precisa desse "ritual" e estabelece um cronograma para o efeito, mas há quem prefira escrever enquanto sente o pulsar do objecto da sua redacção ou, não raramente, com uma música que lhe transporte ao cerne da sua imaginação.

Até aqui, tudo parece ser uma questão de escolha individual ou de uma certa mania. Todos nós temos as nossas, não é!? Contudo, esta coisa de escrever, sobretudo quando se está no início, move-nos para o dilema do pertencimento, seja pela necessidade de legitimação pelos mais experimentados, ou pelo desejo de estar num colectivo, no qual se possa partilhar leituras, preferências estéticas, novas formas de produção, etc. É daqui que surge o comportamento de manada que tem tanto de bom, quanto de mau.

Vamos em partes. Escrever e não pertencer a um agrupamento (grupo, associação, clube, etc.) exige do indivíduo um certo grau de autocrítica que, geralmente, só se consegue com o tempo ou com um exercício autodidata. Tanto uma, quanto outra possibilidade funda-se na leitura constante de outros autores e de textos de crítica literária produzidos sobre a obra desses autores. Não menos importante, sobretudo nos dias de hoje, seria a participação em sessões de escrita criativa que pululam pelos canais online.

Ao permitir-se este tipo aprendizagem, o escritor que encontra paz no seu isolamento evita a mania de achar que qualquer emaranhado de palavras escritas por si é uma criação divina. Uma obra prima. É comum este sentimento por parte de quem escreve, sobretudo na iniciação. O talento para a escrita soa a qualquer coisa como um chamamento divino para trazer uma luz que poderá reverter a ordem mundial. Os revisores, editores e, mais tarde, os críticos é que sofrem com esse sentimento. Qualquer entidade que for a dizer algo tendente à desqualificação do que se escreveu é tida como uma espécie de "apóstolo do desgraça".

Em circunstância diferente, temos quem prefira sair da sua própria "bolha" e pertencer a um agrupamento no seu local de residência, na escola ou em redes online. Nesses agrupamentos, agenda-se encontros regulares, troca-se livros de autores de referência, debate-se sobre este e aquele autor, desqualifica-se certas preferências estéticas em detrimento de outras, partilha-se e aprimora-se textos de cada integrante, etc.

Em ambientes desta natureza, o debate nem sempre flui na igualdade, como se pode prever. Há sempre quem fala mais alto, quem tem (ou acha que tem) uma tradição de leitura mais sólida no ambiente doméstico, tem experiências (académicas, culturais, de viagens e contactos, etc.), goza de algum prestígio antecipado em relação aos outros, entre tantos aspectos. Deste modo, é inevitável que a palavra de alguém com este perfil pareça uma sentença, sobretudo quando quem ouve não tiver consolidado a sua forma de ser e estar na escrita, ou não tiver aprendido a ouvir e examinar o que se diz com o que deseja de si mesmo. Surge, portanto e inevitavelmente, a constante catequese sobre a arte de escrever.

Este envagelho não é de todo uma malícia. Tem tanto potencial para ser benéfico, quanto para ser maléfico na produção literária individual. Pode reorientar escolhas estéticas, melhorando sobremaneira a produção do autor, ou pode inibir o seu génio criativo a favor do que se faz no colectivo, senão das escolhas pessoais de quem influencia o grupo.
Olhando mais concretamente para o nosso meio, tanto pela via do isolamento, quanto pela busca constante do pertencimento, temos casos evidentes de: (1) escritores que encontraram na crónica uma forma de se realizar melhor, diante de constantes críticas à sua produção em poesia; (2) poetas que aprimoraram a sua estética após críticas severas em seus agrupamentos. De facto, seja por este ou outro motivo, pouca gente mantém um único jeito de escrever por tanto tempo, embora os traços identitários permaneçam; (3) escritores que se firmaram no isolamento e, só mais tarde, juntaram-se a certos agrupamentos por mera necessidade de legitimação pelos seus semelhantes; (4) escritores que partilham espaços e convívios com outros autores, mas reservam-se o direito ao isolamento. Estes partilham os seus manuscritos com leitores já seleccionados (outros escritores, professores, amigos, críticos, etc.); (5) potenciais talentos que desistiram de escrever, porque foram ditos, em certos agrupamentos, que a sua escrita era tudo, menos literatura; (6) autores que escreveram os seus textos vivendo na própria "bolha", publicaram-nos, mas ninguém os lê e não têm a legitimação de que tanto precisam.

Disto isto, pode-se concluir que a escolha entre escrever no isolamento ou no pertencimento a um agrupamento depende, em muitas circunstâncias, dos traços de personalidade de quem escreve e do projecto que cada um tem ao desejar filiar-se ao universo literário. Ainda que se possa dizer que o interesse na escrita não é de ser aclamado, ninguém será contraditório a ponto de escrever e publicar sob o argumento de não estar interessado em ser lido.

Todos nós escrevemos com algum propósito para com o nosso potencial leitor, só isso é suficiente para a constante busca pela legitimação. Esta pode ser tida entre os que escrevem, daí a necessidade de privar com gente já autorizada no circuito literário; ou no público leitor. Ora, neste último caso, temos, em Moçambique, um delema, porque uns são os outros. São as mesmas pessoas que lêem, vão aos eventos, escrevem na academia, nos jornais, nos canais de mídia digital, etc. Pelo que o desejado isolamento nem sempre é um dado adquirido, o que se consegue é escolher com quem, onde, quando, como e por que formar uma "manada".

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