Até aqui, tudo parece ser uma questão de escolha individual ou de uma certa mania. Todos nós temos as nossas, não é!? Contudo, esta coisa de escrever, sobretudo quando se está no início, move-nos para o dilema do pertencimento, seja pela necessidade de legitimação pelos mais experimentados, ou pelo desejo de estar num colectivo, no qual se possa partilhar leituras, preferências estéticas, novas formas de produção, etc. É daqui que surge o comportamento de manada que tem tanto de bom, quanto de mau.
Vamos em partes. Escrever e não pertencer a um agrupamento (grupo, associação, clube, etc.) exige do indivíduo um certo grau de autocrítica que, geralmente, só se consegue com o tempo ou com um exercício autodidata. Tanto uma, quanto outra possibilidade funda-se na leitura constante de outros autores e de textos de crítica literária produzidos sobre a obra desses autores. Não menos importante, sobretudo nos dias de hoje, seria a participação em sessões de escrita criativa que pululam pelos canais online.
Ao permitir-se este tipo aprendizagem, o escritor que encontra paz no seu isolamento evita a mania de achar que qualquer emaranhado de palavras escritas por si é uma criação divina. Uma obra prima. É comum este sentimento por parte de quem escreve, sobretudo na iniciação. O talento para a escrita soa a qualquer coisa como um chamamento divino para trazer uma luz que poderá reverter a ordem mundial. Os revisores, editores e, mais tarde, os críticos é que sofrem com esse sentimento. Qualquer entidade que for a dizer algo tendente à desqualificação do que se escreveu é tida como uma espécie de "apóstolo do desgraça".
Em circunstância diferente, temos quem prefira sair da sua própria "bolha" e pertencer a um agrupamento no seu local de residência, na escola ou em redes online. Nesses agrupamentos, agenda-se encontros regulares, troca-se livros de autores de referência, debate-se sobre este e aquele autor, desqualifica-se certas preferências estéticas em detrimento de outras, partilha-se e aprimora-se textos de cada integrante, etc.
Em ambientes desta natureza, o debate nem sempre flui na igualdade, como se pode prever. Há sempre quem fala mais alto, quem tem (ou acha que tem) uma tradição de leitura mais sólida no ambiente doméstico, tem experiências (académicas, culturais, de viagens e contactos, etc.), goza de algum prestígio antecipado em relação aos outros, entre tantos aspectos. Deste modo, é inevitável que a palavra de alguém com este perfil pareça uma sentença, sobretudo quando quem ouve não tiver consolidado a sua forma de ser e estar na escrita, ou não tiver aprendido a ouvir e examinar o que se diz com o que deseja de si mesmo. Surge, portanto e inevitavelmente, a constante catequese sobre a arte de escrever.
Disto isto, pode-se concluir que a escolha entre escrever no isolamento ou no pertencimento a um agrupamento depende, em muitas circunstâncias, dos traços de personalidade de quem escreve e do projecto que cada um tem ao desejar filiar-se ao universo literário. Ainda que se possa dizer que o interesse na escrita não é de ser aclamado, ninguém será contraditório a ponto de escrever e publicar sob o argumento de não estar interessado em ser lido.
Todos nós escrevemos com algum propósito para com o nosso potencial leitor, só isso é suficiente para a constante busca pela legitimação. Esta pode ser tida entre os que escrevem, daí a necessidade de privar com gente já autorizada no circuito literário; ou no público leitor. Ora, neste último caso, temos, em Moçambique, um delema, porque uns são os outros. São as mesmas pessoas que lêem, vão aos eventos, escrevem na academia, nos jornais, nos canais de mídia digital, etc. Pelo que o desejado isolamento nem sempre é um dado adquirido, o que se consegue é escolher com quem, onde, quando, como e por que formar uma "manada".

Sem comentários:
Enviar um comentário