sexta-feira, 27 de março de 2026

"a literatura não se faz apenas com génios, há uma segunda camada que é importante"

Lembro-me desta frase de Eugénio Lisboa sempre que me é pedida uma revisão de um livro de prosa. A mesma foi proferida numa entrevista concedida pelo escritor e crítico literário a Pedro Mexia, e foi publicada no Jornal Expresso a 28 de Fevereiro de 2021.

A voz de Lisboa ecoa no ouvido quando revejo prosa, não porque tal não se aplique à poesia. Ocorre, talvez, por ser na prosa que encontro bons exemplos para o alcance desta frase.

Temos bons prosadores. Em nosso benefício, com estilos e preferências estéticas diferentes. Percebo, porém, que há uma constante "catequese" para que uns aprimorem o que se julga estar aquém de um texto literário. Trata-se de colocações fixadas numa ideia formalista de literarieadade, que é, hoje, um artefacto revisitável quando as condições o exigem. Reiteradamente, não constitui, hoje, um divisor de águas de forma tão rígida quanto alguns "puristas" o tentam fazer.

Por causa desta tentativa de "evangelizar" os cultores de uma certa forma de escrever para que assumam outras outras características, surgem etiquetas defensivas como as de "contador de histórias". Outros, não poucos, fitam-se na legitimidade que recebem de leitores aleatórios. Embora sejam leitores pouco dados ao estudo do texto, os seus depoimentos elogiosos sobre o conteúdo do livro ajudam os escritores a lidarem com a crítica constante à sua obra e a encontrarem um escudo no qual possam criar sem o incómodo incessante de "catequistas destemidos" nesta coisa de escrever.

Aliás, é provável que a nossa constante queixa sobre a quase inexistência de leitores resulte do nosso apego à criação de génios, ou, coisa pior, da qualquerização da "segunda camada" referida por Lisboa. Não seria novidade no solo pátrio. Temos, infelizmente, a mania de achar que a construção de uma coisa, implica, necessariamente, a anulação de outra. É uma espécie de "Síndrome de Estocolmo pela violência", como diria Bacu Exu do Blues na música intitulada  "imorais e fatais 2".

Conforme refere Lisboa na aludida entrevista, esta segunda camada tem, geralmente, "os maiores sedutores para a leitura". Indubitavelmente: existem mecanismos de criação que deleitam aos mais experimentados no acto de ler, mas podem desmotivar os que estejam numa fase inicial de construção do gosto pela leitura. Quantos textos já foram adiados nas cabeceiras, porque exigiam um pouco mais da nossa atenção? Quantos já os lemos "num só trago", e, mesmo franzendo o cenho, divertimo-nos com o enredo? Mais ainda: na sala de aulas, sobretudo no secundário, os textos que mais nos seduziam eram os da "segunda camada", só mais tarde é que começamos a achar que devíamos "refinar" o gosto para autores cheios de artifícios no acto de contar.

Não vá esta ideia transmitir a percepção de que a genialidade reside no exagero de artifícios de criação literária. Não é disso que se trata. Estaríamos todos de acordo em assumir que existem livros cuja leitura carece de um preparo do leitor. De uma enciclopédia que só se consegue com vivências e outras leituras. Do mesmo modo, existem livros muito solidários com o leitor. Não exigem dele uma capacidade inferencial acrescida. O texto flui na plenitude, sem muita complexidade. Penso ser esta a "segunda camada" tão importante para a formação de leitores, sobretudo no início da construção do gosto pela coisa.

Assumo esta visão por estar ciente de que ler não é um exercício tão aconchegante quanto os leitores já experimentados costumam vender. É um acto exigente. Carece de compromisso. Entrega. E, acima de tudo, motivação. Só ganharemos leitores se estes sentirem prazer imediato no que estiverem a ler. Gradualmente, poderão, eles próprios, seleccionar o tipo de escritores que preferem. Não cabe à crítica, informada ou não, fazer esta segregação. Pelo contrário, acredito piamente que os livros mereçam uma crítica que dê ao leitor os motivos para a leitura, com destaque de aspectos aos quais o leitor deva prestar atenção, por serem positivos ou negativos.

Embora escassa nos dias de hoje, é a crítica jornalística que devia ter este papel. Lá se foram os tempos em que professores e escritores eram autênticos jornalistas, pois mantinham colunas nos semanários. Partilhavam visões, leituras de livros e geravam debate entre gente que se interessasse por livros. Hoje temos as redes sociais digitais, blogs, vlogs, etc. que permitem uma avantajada capacidade de fazer o texto circular, mas temos tão pouca leitura dos livros que são editados e publicados às toneladas. Deviam ser estes os mecanismos de difusão de autores, independentemente da sua "camada". Teríamos, deste modo, a possibilidade de fazer o livro circular e manter outras pautas de debate em redes de chat que não sejam só política, futebol e danças de tiktok.

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