sexta-feira, 10 de abril de 2026

Crítico literário ou ensaísta _ das qualidades para se ser à relevância na cadeia de valor do livro

Nos dias de hoje, tornou-se inexistente, em Moçambique, a figura do crítico literário. Não me refiro à actividade, mas ao título. À denominação. À etiqueta. Enfim, pouca gente se define como crítico literário. Somos todos ensaístas.
Esta preferência por se definir como ensaísta não decorre de uma assembleia geral ou algo similar. É uma tendência que os cultores da metalinguagem em espaços públicos foram tomando, motivados, quiçá, pela percepção viciada e quase pejorativa que se tem de um crítico literário. Pelo que a ideia de se assumir como ensaísta parece ser mais eclética e menos problemática.

O exercício da crítica literária não é muito distante do papel que se tem na produção de um ensaio. Em rigor, o ensaio é um género discursivo e comporta subgéneros (ou espécies), dentre os quais podemos encontrar o académico, o literário e o filosófico. A crítica literária, por sua vez, é uma actividade académica e jornalística que se materializa através de diversos géneros discursivos (académicos e jornalísticos), designadamente: o ensaio, o artigo científico, a recensão crítica, o artigo de opinião, a crónica argumentativa, etc. 

Em qualquer destas possibilidades, há aspectos em comum: a interpretação de texto(s) de um ou vários autores, a interpelação de fenómenos ou de modelos teóricos e culturais que condicionam a produção de textos literários. Há, porém, uma diferença no resultado destas actividades. Enquanto o crítico literário assume uma posição avaliativa do texto ou do autor, chegando a definir o que é bom e o que não é, o ensaísta define-se por uma posição eclética fundada nas suas próprias construções de sentido com base nas inferências tiradas de um certo texto, autor ou fenómeno. Ademais, o crítico literário interpela o texto a ponto de encontrar argumentos para que o mesmo (des)mereça a atenção do leitor, fundamentando o que diz através de leituras, abordagens teóricas e vivências do seu domínio. Neste mesmo plano, o ensaísta encontra os dados patentes no texto, mas não os julga pelo crivo do certo ou errado; faz inferências com base no seu saber enciclopédico, tendo o objectivo de revelar, no seu discurso, o que texto o faz pensar.

Tanto um quanto outro, não se constrói da noite para o dia. Há uma constante disciplina de leitura e estudo. É este contínuo exercício de aprendizagem que o poderá dotar de conhecimento necessário para discernir sobre o objecto da sua interpretação. Relativamente ao crítico, há uma qualidade acrescida que é a imparcialidade. A mesma não tem só a ver com o distanciamento necessário em relação ao(s) autor(es) do(s) texto(s) analisado(s), mas à capacidade de lidar com os fenómenos e escolhas estéticas de forma neutra, ainda que ele não concorde. Isso significa que quem faz crítica literária deve eximir-se de visões apaixonadas (a favor ou contra) sobre o objecto da sua crítica. Por último, o crítico assim como o ensaísta precisam de um conhecimento enciclopédico avantajado que os permita analisar textos e escolhas estéticas de uma forma contextualizada e devidamente articulada, em consonância com o género em que se escreve e ao meio em que texto poderá circular. Sim, é isso. É preciso saber escrever bem e adequar-se ao meio em que texto será publicado.

Por estes e outros motivos, os críticos literários e os ensaístas têm uma relevância considerável em qualquer meio literário. A sua existência em espaços públicos académicos ou jornalísticos estabelece a pauta de debate. Norteia as leituras de um certo público. Define as práticas de produção de um grupo ou de uma época, ainda que isso responda a interesses historiográficos. 

Em suma, todo sistema literário tem de ter críticos e ensaístas. A escolha entre uma ou outra denominação não deve ser apenas uma questão de preferência ou de evitação de conotações. Seja qual for a escolha do termo, deve situar-se na harmonia entre o papel que se toma quando se lê um texto, e, sobretudo, no compromisso que comummente se assume nessa prática.

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