Não basta publicar um livro, achar que ele é muito bom e, por isso, as pessoas vão comprar, como quem busca a salvação. É preciso vender. O papel da venda não cabe apenas à livraria ou a outros meios tradicionais para esse fim. Hoje em dia vemos editoras e autores nessa actividade. É positivo e interessante ver tanta gente envolvida nisso. Uma das figuras que devia fazer parte deste movimento é o jornalista/apresentador de televisão/rádio. Cá entre nós, não vale a simples entrevista cujas perguntas parecem ter sido extraídas de um manual de instruções. Inflexível. Padronizado. Estanque. É preciso que haja algo a mais.
A meu ver, se concebermos o livro como um objecto de consumo semelhante a tantos outros, a nossa relação com o público pode ser relativamente diferente. Essa mudança não poderá ser benéfica apenas para a cadeia de valor do livro, mas poderá ser igualmente útil para a sociedade, no presente e, quiçá, no futuro.
Lembro-me que numa entrevista publicada na Revista Soletras, em Janeiro de 2024, disse que o nosso merchandising concentra-se mais nos "autores na qualidade de novas estrelas pop. Não falta muito para termos autores andando por aí com seguranças e assistentes: é tanta promoção da figura do escritor em detrimento da sua obra." Penso nisto, hoje, e encontro cada vez mais evidências do que disse.
Quando assisto a um programa de televisão e, em algum momento, se diz: "hoje recebemos o escritor/poeta...", imagino as perguntas de margem que poderão ser feitas: (1) com que idade se interessou pela literatura? (2) quando surgiu o "bichinho" da escrita? (3) quais são as suas fontes de inspiração? (4) que temáticas aborda nos seus textos? (5) qual é a sua proposta neste novo livro?
Vejamos, são perguntas que tomam o escritor como centro do debate. Se as mesmas fossem apenas introdutórias, o problema seria menor. O facto é que toda a entrevista de quase 30 minutos centra-se nesse prelúdio, e considerando que "o tempo em mídia é dinheiro", lá vem a pergunta de "fecho": (6) o que tem a dizer aos telespectadores/ouvintes sobre o lançamento deste livro?
Há, entretanto, um reparo possível de fazer:
Se o nosso compromisso com a coisa literária fita-se em dar alguns minutos de fama para o autor, o curso da conversa definida por estas perguntas está perfeito. Mas se for pelo texto e pelas funções que o mesmo tem para com o seu leitor, estas perguntas estão muito à margem desse fim. Acredito ser neste último ponto que nos devíamos deter mais. Não creio que a concentração no autor e nas suas extravagâncias seja o foco. Como diz Boris Pasternak no seu célebre poema intitulado "a fama é reles": "criar é entregar-se de todo, jamais sucesso ou alarido".
Realmente, o resultado da arte de criar não devia ser ofuscado pela imagem do seu criador. Mesmo assim, essa transferência de foco não deve significar a sua anulação. Pelo contrário, estou convicto da possibilidade de equilíbrio. Por isso, ao alarido que gostamos de fazer em torno da biografia do autor, devemos acrescer a busca pela proposta que o livro traz. As temáticas exploradas. Os efeitos estéticos inovados. As reflexões possíveis de extrair em todo exercício criativo. Tudo isto é possível se o jornalista/apresentador se der o trabalho de fazer uma leitura prévia do livro, senão de alguns textos antes da entrevista. Tal não deverá transformar a entrevista numa sessão de explicação do texto, como se pode erroneamente pensar, mas num momento de introspecção e de geração de curiosidade do telespectador/ouvinte. Feito isto, uma conversa de apenas quinze minutos pode gerar mais vendas, mais interesse pela obra e mais reflexões socioculturais que cada leitor poderá fazer. Isso sim, seria um bom serviço de merchandising.

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