As Marcas da Negritude na Poesia de Francisco José Tenreiro, Caso de “Coração de África” & “Mãos”.




            Os movimentos Político-culturais do princípio do século XX, caso concreto da Negritude que tinha como grande ideia a busca e revalorização das raízes culturais africanas, crioulas e populares, tiveram uma grande importância para o desenvolvimento das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Foi através destes movimentos que os poetas conseguiram delinear as formas de afirmação da sua produção artístico-cultural, e até literária.
            A literatura são-tomense tem as suas raízes no século XIX – princípios do séc. XX, com a tradição do jornalismo praticado pela elite dos filhos-da-terra, na imprensa (revistas, jornais e boletins de associações), de que era proprietária e de que se destacam O Africano, A Voz d’África, O Negro, A Verdade, O Correio d’África, entre outros.
Esta literatura, à semelhança de outras africanas de expressão portuguesa, surge como resultado das investidas da empresa colonial, com as suas políticas de imposição da língua e cultura europeias, mas distancia-se das ditas continentais (Moçambicana e Angolana), e junta-se à cabo-verdiana num conjunto de literaturas insulares, que se caracterizam por serem de países nunca antes existentes, aparecendo com a colonização, passando a aglomerar escravos de diferentes cantos da àfrica oriental, o que criou a miscigenação rácico-cultural. Pelo que, os povos deste país não são meramente negros, mas mulatos, na pele, língua e cultura, entretanto, e curiosamente, é a partir desta literatura que se ouvem os primeiros sussuros sobre o que mais tarde viria constituir a bandeira da revolução negro-africana, a Negritude . Na voz de um poeta em língua portuguesa, chamou a si a expressão da negritude. Trata-se de Francisco José Tenreiro (1921-1966), desalienado, liberto dos mitos da inferioridade social, identifica-se com a dor do homem negro e repõe-no no quadro que lhe cabe da sabedoria universal.

            Literaturas Africanas de expressão portuguesa

As literaturas africanas de expressão portuguesa estão inteiramente ligadas ao processo de colonização europeia.
            A literatura pré-colonial é caracterizada pela oralidade, pois tratava-se de uma comunidade ágrafa (não tinha escrita ocidental). As manifestações eram feitas através de contos, mitos, provérbios, tabus, adivinhas e, a tradução era feita de geração em geração, LARANJEIRA (1995).
            A Literatura Colonial, exalando os interesses da metrópole, caracterizou-se pela coisificação e estereotipazação do Homem negro, bem como a ridicularização do seu espaço geo-cultural como um lugar abandonado e exótico. O branco vangloriava-se como civilizador da África como enviado de Deus para governar o mundo. Estas atitudes são prova óbvia da falta de alteridade dos brancos perante o negro que é visto como detentor de instintos de fera.
            As tradições culturais dos africanos foram rejeitadas e impuseram-se-lhes os modelos ocidentais. Foi com o advento desta agressividade e até exagerada rejeição da cultura e identidade negras, agravadas pela colonização e consequente imposição da língua e cultura europeias que surgem alguns movimentos culturais e políticos, que tentam resgatar os valores sócio-culturais africanos que, durante séculos foram estigmatizados, sendo a Negritude um dos movimentos político-culturais, filosóficos e até literários que mais espaço ganhou na década de 40, revitalizando a autoestima e a rebusca da identidade perdida há seculos devido à máquina opressora.
            A Negritude lançou as suas sementes nos movimentos culturais que difundiam o renascimento negro e de acordo com LARANJEIRA (1995), este movimento contribuiu sobremaneira para a tomada de consciência sobre a subalternização dos negros.
            Negritude (Négritude em francês) foi o nome dado a uma corrente literária que agregou escritores negros francófonos e também uma ideologia de valorização da cultura negra em países africanos ou com populações afro-descendentes expressivas que foram vítimas da opressão colonialista.
            A Negritude lançou as suas raízes até aos movimentos culturais protagonizados por negros, brancos e mestiços que, desde as décadas de 1910, 20 e 30, vinham pugnando por um Renascimento Negro[1].
            O termo Negritude aparece ao longo poema «Cahier d’un retour au pays natal», de Aimé Césaire, poeta da Martinica, que foi publicado na revista Volontés, 10 (1939). A palavra passou a nomear o movimento que se desenrolava por toda a década de 1930, nomeadamente em Paris, cadinho de estudantes, intelectuais e políticos que marcaram profundamente a vida política e cultural do mundo negro.

            Social e Ideologicamente
            A Negritude constituiu-se como o processo de busca de identidade, de conduta desalienatória e da defesa do património e do humanismo dos povos negros. Recusou a assimilação a modelos externos à história negra - africana, embora consciente dos contributos aculturativos, sobretudo nas cidades. A Negritude pretendia a criação de um estilo próprio, no desejo de se demarcar dos modelos e motivos históricos das literaturas ocidentais.
            Na Literatura
             A poesia da Negritude distingue-se da restante literatura africana de língua portuguesa pelo obsessivo tratamento da raça e da cor negras, qualificando-as com valores reais e simbólicos, reagindo, desse modo, ao racismo branco.
            A África, o negro e a Mãe-Negra (Mãe-África ou Mãe-Terra) ocupam nos textos um lugar de destaque, como referências, alusões ou temas, numa declaração humanística de povos até aí apresentados e representados (na literatura colonial) como destituídos de história, cultura e mesmo de sentimentos. Segundo a análise de Sartre, no prefácio à Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache (1948), de Senghor, dá-se a revalorização (e a sobrevalorização) das culturas e modos de vida ancestrais (tribais, clânicos), com o culto dos antepassados, o animismo e a respectiva animização retórica da natureza, o pan-sexualismo vitalista, a visão eufórica e ufanista das relações sociais e familiares nas tribos e no mundo rural e natural. Ou seja, opõe-se ao mundo tecnológico e racionalista dos europeus o mundo natural e sensitivo dos africanos, num posicionamento que receberia críticas devastadoras dos homens empenhados na abertura de África ao mundo moderno, através de revoluções socialistas.
            Como é de se perceber na Negritude Nega-se, dessa forma, não o valor das culturas europeias (ou quaisquer outras), mas a sua dominação sobre as culturas africanas, pelo poder imperial e colonial.
            É desta forma que pretendemos perceber até que ponto Francisco José Tenreiro entende e demonstra este fenómeno da Negritude, visto que ele figura como um dos grandes poetas negritudista da poesia africana de expressão Portuguesa.

            Identidade cultural
            O significado que hoje se dá, e sobretudo que as ciências sociais dão à questão das identidades culturais difere no passado. A abordagem que se fazia da identidade cultural, era muitas vezes de caris “etnocêntrico”. Segundo alguns estudiosos, a este propósito, que “identificar culturalmente era, no passado, situar uma cultura numa hierarquia classificativa que geralmente decorria da valorização da noção de civilização sobre a da cultura.[2]
Actualmente alguns estudiosos defendem que as ciências sociais descobriram as identidades e especializaram mesmo uma generosa colecção de objectos como estruturas identitários, sistemas identitários, porém, eles chamam ainda a atenção de que em muitos casos continua a utilizar-se a noção de identidade verdadeiramente para continuar a identificar.
Se percebermos os conceitos acima são importantes para a nossa análise se atendermos ao facto de estes afirmarem que as identidades culturais não são imutáveis; são sempre processos de identificação; no tempo e num espaço próprio, constituindo uma sucessão de configurações e representações que, de época para época dão corpo e vida a tais identidades como auto-criação constante.

            A Expressão pungente das realidades do mundo negro-africano;

O estudo de desenvolvimento da literatura num país (neste caso São-Romé) levanta duas questões fundamentais: 
Ø  As origens de uma literatura, ou seja, o processo em que a escrita numa área geográfica passa a ser encarada como sua literatura;
Ø  O papel que a literatura pode ter muitas vezes na identidade cultural e política num moderno estado/ nação, CHABAL (1994:14)[3].
Indo a aquilo que nos ocupa nesta fase inicial da nossa análise que é sem dúvida o enquadramento histórico da obra Ilha de Nome Santo, podemos dizer que ela foi escrita, como é por todos sabidos, pelo célebre poeta negritudista Francisco José Tenreiro no ano de 1942.
Como todos sabemos nesta época era sem dúvida a época do opressor (o branco) e do oprimido (o negro). Em grandes linhas diríamos que era a época do sofrimento do negro em quase todas as esferas da sua vida.
É neste contexto que surge a Negritude. Motivados pela vida sôfrega que estavam sujeitos os negros no planeta os intelectuais africanos que estavam na diáspora fundam esse movimento com a finalidade de revalorizar as culturas africanas a fim de os colocar a pé de igualdade com as culturas ocidentais.
Os textos analisados apresentados apresentam marcas que nos remetem à Negritude, se prestarmos atenção aos seguintes versos:
                           Mãos que na cera perdida encontram o orgulho do Benin
                           Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas
                                                                                                         [olhos de vidro]
                         E pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena
Podemos observar e perceber a descrição de realidades negro-africanas, “palhota”, que é o modelo de casas que nos identificam, a casa do verdadeiro africano antes da chegada dos europeus,  “Mãos que do negro madeiro”, esta força que é atribída às mãos caracteriza a bravura do negro quando pretende alcançar algo.
                         Mãos Zimbábue ao largo do Índico
                              Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
                              Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos (...)
                              Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das baías.
A partir destes versos podemos comprovar a expressão de realidades africanas, concretamente a menção aos países africanos, e caracterizando como belos, a África em geral é bela, refere-se que durante muito tempo andara adormecida, porém, já acordada. Faz-se ainda menção aos historiadores da civilização, e como refere Correiro (2008: 3),
“o mundo africano, em termos culturais, traduz, pois, uma realidade                                                                                    resultante do encontro do mundo negro com mundos culturais e civilizacionais diferentes que interferiram e alteraram substancialmente a cosmogonia e a ontogonia do homem negro tradicional”.
Ademais, podemos ainda encontrar algumas marcas da obsessão pela beleza e sapiência dos africanos:
                  Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
                     Mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
                     Beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbila que o mesmo é
                     Dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
                                                                        (...)
                            Mãos, (...) do coração do tam-tam criásteis religião e arte, religião e amor.
A obsessão pelas realidades, pelos instrumentos musicais tradicionalmente usados em África, caso do Tam-tam, que nos remete ao tambor, que é tocado para mostrar alegria e mesmo em momentos de trabalho. O quissange é outro instrumento musical tradicionalmente africano que surge como marca do resgate da identidade cultural africana, e na perspectiva de Du Bois (1903).
Nós, criadores da nova geração negra, queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. Se isso agrada aos brancos, ficamos felizes. Se não, pouco importa. Sabemos que somos bonitos. E feios também. O tantã chora, o tantã ri. Se isso agrada à gente de cor, ficamos muito felizes. Se não, tanto faz. É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos, pois sabemos edificá-los, e estamos erguidos no topo da montanha, livres dentro de nós
Encontramos uma sapiência que é atribuída às mãos, que apesar de não terem inventado a escrita, tocaram timbilas, quissagens, sendo isto equiparável à leitura de palavras telegrafadas.
Já em “Coração de África”, encontramos a declaração do amor telúrico, a confissão de, apesar de andar nas terras longincuas, existem saudades deste espaço que se chama África, senão vejamos os seguintes versos:
Caminhos trilhados na Europa
De coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
Que o sol sensual pintou na paisagem;
Saudade sentia de coração em África.
Estamos perante uma expressão de amor pela terra africana, terra esta que já acolhia a negros, brancos e mestiços.
Os teus olhos tornaram-se vermelhos
Quando brancos, negros e mestiços instigados
Pelo álcool
Pelo chicote
Pelo ódio
Se empenharam em lutas fraticidas
E se danaram pelo mundo
 Esclarece-se aqui que cada uma das raças acolhidas pela bela África, tem o seu problema, o branco tem a posse de álcool, que nos remete à felicidade, ociosidade, podendo beber e festejar de alegria. Para o negro a marca indelével é o chicote, que tão bem discordava da alegria dos negros, mas os mulatos tinham era ódio por não pertencerem a nenhuma raça. Na estrofe seguinte, Tenreiro traz-nos a história da humanidade, revelando que a África é mãe dos pretos e mestíços, avó de brancos, e segundo a História Universal, a África é o berço da humanidade, e, como refere Larangeira (1995: 29): A África, o negro e a mãe-Negra ocupam nos textos um lugar d edestaque, como referências, alusões ou temas, numa declaração humanística de povos até aí apresentados e representados como destituídos da história, cultura e mesmo de sentimentos.
O autor ainda chama à atenção:
Mas os teus filhos não morreram, negra velha,
Que eu oiço um rio de almas reluzentes
Cantando: nós não nascemos num dia sem sol!
Isto mostra que, para além do resgate dos valores negro-africanos, a Negritude insta o africano a despertar, e mobiliza a todos de modo que se faça algo pela terra.
A expressão de realidades africanas volta à ribalta quando se faz menção aos rios africanos reconhecidos universalmente, e à condição africana de escravisados:
Que um rio vem do Mississipi
Ao som dos quissanges numa noite africana
Às noites longas dos cargueiros em Port-Said
(...)
Onde haja um peito negro tatuado e ferido;
Para finalizar, o autor reconhece a situação do africano, /conheço sim, o cansaço do nosso corpo/
E se um dia não poderes mais/ fecha os olhos e encosta o ouvido à terra/ ui! Ouvirás no ressoar de um tambor ao longe/ o canto altivo e sereno dos teus filhos/.
Portanto, rebusca-se o valor simbólico do tambor e do canto, que representa a dor e/ ou a alegria.
Ademais, os últimos versos referem: nós, minha mãe/ não nascemos num dia sem sol/. O que prova que o africano estava na condição de escravo não por destino, pois nascera também num dia de sol, e que tinha direito a tudo, se também é humano, mas a máquina colonial retirara esta liberdade ao africano.

            Bibliografia

LARANJEIRA, Pires. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Vol. 64. Universidade Aberta. Lisboa. 1995.
LARANJEIRA, Pires. A Negritude Africana de Expressão Portuguesa. Edições Afrontamento. Lisboa. 1995.
DOS SANTOS, Donezeth. “Poetas de Todo o Mundo”. Vol. 4. Lisboa. 2007.
TRIGO, Salvato, Ensaios de Literatura Comparada Afro-Luso-Brasileira. VEJA. Lisboa. 1984.






[1] Busca e revalorização das raízes culturais africanas, crioulas e populares
[2] Está aqui subjacente a ideia da evolução do saber, do pensamento científico e do progresso.
[3] CHABAL faz o seu estudo no contexto Moçambicano, porém, achamos nós que esta teoria é aplicável para o contexto santomense.

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