O Hibridismo Cultural em "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra". De Mia Couto.




 
A Literatura é uma instituição em cuja linguagem é o seu meio de expressão. A linguagem é um produto ou criação social, e é, pois, uma das formas de manifestação cultural, pelo que a literatura, para além da função estética, está revestida de funções social e cultural como fundamentais. 
THOMAS WORTOS apud WELLEK (1955:124), defende que a literatura possui o mérito peculiar de registar fielmente as feições dos tempos e de preservar a mais pitoresca e expressiva representação dos costumes sócio-culturais das sociedades, expondo certos fenómenos como: o ódio das classes, o amor, a conduta, os costumes e as aspirações sociais. É a partir desta citação que nos propomos a analisar a obra :”Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”, de Mia Couto, sendo que, concretamente, queremos incidir sobre os valores identitários da cultura moçambicana que se manifestam nesta obra. Parte-se da hipótese de que Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra situa-se num espaço imaginário, híbrido, onde se estabelece o diálogo entre as culturas autóctone e a herdada do colonizador, bem como entre tradição e modernidade..

Resumo da Obra
O retorno de Marianinho a Luar-do-Chão não é exatamente uma volta às suas origens. Ao chegar à ilha natal, incumbido de comandar as cerimónias fúnebres do avô Mariano, de quem recebeu o mesmo nome e de quem era o neto favorito, ele se descobre um estranho tanto entre os de sua família quanto entre os de sua raça, pois na cidade adquiriu hábitos de um branco. Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento. Uma série de intrigas e de segredos familiares envolvem o pai do protagonista, Fulano Malta, sua avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa. O rapaz descobre também que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto. Trata-se de um momento de passagem, crucial para o protagonista e para o seu lugar de origem. Luar-do-Chão encontra-se num estado de abandono, decadência e miséria. Trata-se também de um impasse cultural, religioso e político, que guarda correspondência com a situação social da África de hoje. Nessa misteriosa Luar-do-Chão, onde um rio armazena a memória dos espíritos e a terra sofre com feitiços arcaicos e modernos, a tarefa de Marianinho é encontrar uma forma de levar adiante uma história que, além de pessoal e familiar, na África pós-colonial é também política e de destino humano. A partir desses segredos e mistérios, que aos poucos se vão revelando, Marianinho recompõe a sua identidade, ao se inteirar de fatos e episódios acontecidos, guardados em sua memória, embora com outros significados. Estes mistérios são revelados, alguns deles, pelas cartas feitas pelo avô, Dito Mariano, que confessa não serem escritos mas falas. Marianinho chega a saber, através delas, Fulano não é seu pai, mas Dito Mariano e que a sua mãe é Admirança. No final, isto é, depois do funeral do avô/ pai, Marianinho regressa à cidade, donde veio apenas para cumprir com as obrigações que lhe foram incumbidas pelo avô.

Valores identitários da moçambicanidade
Pitch e Malina (1993:13) citados por LEMMER (2006:8) afirmam que “a palavra valor descreve uma qualidade geral e uma direcção de vida que se espera que os seres humanos incorporem no seu comportamento. Um valor é uma orientação geral e normativa de acção num sistema social”.
 A partir desta citação, podemos aferir que, valor é uma virtude reguladora das relações sociais que deve ser interiorizada e reflectida pelo Homem no seu quotidiano.
Para BERNARDI (1974:35), o termo valor é plurissignificativo, podendo ser interpretado sob ponto de vista sociológico, é considerado valor, todo o elemento da estrutura social.
Em filosofia, valor é tudo aquilo que importa ao espírito, em contraste com o facto, que deixa o espírito indiferente.
A acepção sociológica é-nos preferencial, pois, coincide com o foco do nosso estudo.
Todas as definições convergem ao conceberem valor como qualidade e que deva ser adquirido, transmitido, preservado e interiorizado, constituindo uma herança cultural de uma sociedade.
Os valores sociais reflectem a cultura de um povo e constituem um centro a partir do qual se desvendam as sementes de uma marcha rumo ao futuro.
Para moçambicanidade, não existe uma definição óbvia deste conceito, porém, tende a ser relacionado com o conceito de identidade, abrindo uma perspectiva para que seja concebido como identidade ou tudo o que se refere à identidade moçambicana.
MATUSSE (1998:73), ao falar da moçambicanidade, refere que é a possibilidade de descoberta nas obras de vários escritores, o recurso a determinadas estratégias textuais, quer de natureza linguístico-estilístico, quer de âmbito temático e/ou ideológico, cuja função é construir um mundo fictício capaz de manifestar a afirmação de uma identidade literária moçambicana.
            Mia Couto também faz questão de ressaltar os riscos de rotular o que seria a África ou africanidade. Para ele, todas as definições apressadas da africanidade assentam numa base exótica, como se os africanos fossem o resultado de uma dada essência. Essas classificações são vazias de sentido, por ignorar as irreversíveis misturas culturais dentro do continente africano. Assim como é difícil rotular o que é África ou ser africano, também é difícil rotular o que é Moçambique ou ser moçambicano. As diversidades são relevantes de tal modo que impossibilitam homogeneizações. Em Moçambique, nativos e portugueses, estrangeiros de variada origem bem como seus descendentes, ideologias em conflito e lutas pela hegemonia do espaço cultural e ideológico contribuem para a complexidade desse processo identitário
Na obra em estudo, Mia Couto retrata uma sociedade que passa a repensar na sua cultura e a si mesma, seus muitos contrastes e conflitos, apresentando múltiplas faces representativas da sociedade moçambicana e sua luta por afirmação, num espaço atravessado por contradições entre modernidade e tradição, nativos e estrangeiros, entre realidades locais e universais. Todas essas faces são representadas pelas mais variadas personagens: Dito Mariano, o avô “morto” que provoca a volta de Marianinho à sua terra natal, figura de suma importância que acompanhará toda a trajetória do neto/filho. Os três filhos do casal Dito Mariano e Dulcineusa (Abstinêncio, Fulano Malta e Ultímio) refletem realidades e personalidades muito desiguais. Abstinêncio e Ultímio sofreram o processo de assimilação cultural, porém enquanto o primeiro tratava de se distanciar das práticas e do contacto com o colonizador, o segundo absorve todas as influências negativas da modernidade, incorporando e reproduzindo a ideologia da dominação. Já Fulano Malta, suposto pai do protagonista, vive em um mundo de desilusão e apatia, em contraste com o tempo durante o qual lutou bravamente junto dos guerrilheiros pela libertação de sua nação. As personagens femininas do romance (Dulcineusa, Admirança, Mariavihosa, Miserinha e Niembety) cada uma com suas particularidades, também ganham espaço e acção no romance contrastando com o lugar que lhes é atribuído em sua cultura. Também presentes no romance aparecem figuras marginalizadas como o coveiro Curozero e o indiano Amílcar Mascarenhas, além de outros estrangeiros.

A Tradição versus Modernidade
O ancião e a sua importância dentro da sociedade africana contemporânea. Se antes o ancião gozava de respeito na sociedade porque simbolizava a sabedoria, aos poucos vai sofrendo desvalorização e marginalização social. Também se fará um rápido percurso do lugar do ancião na obra de Couto, para quem não há formas de compreender o novo se o velho e a tradição são descartados. Aqui, a figura de Dito Mariano ganhará destaque, pois ainda que a personagem tivesse sido, em vida, um ancião que não se enquadrava muito nas virtudes atribuídas aos de sua geração, ao ver-se travado entre o mundo dos vivos e dos mortos retoma sua responsabilidade ancestral valendo-se de seu neto. Marianinho é convocado por seu avô a reestruturar sua terra natal. O contacto entre os dois será analisado sob ponto de vista das interpretações das tradições. A tradução realizada por Dito Mariano e Marianinho caracteriza-se como uma tradução cultural, abarcando a história, os costumes, as tradições, a ancestralidade, a modernidade e também a língua. A tradução dessas duas personagens tem um caráter mediador, rasurando fronteiras e integrando diferentes mundos históricos, culturais e sociais. Avô e neto se mostrarão como figuras em trânsito e, ao mesmo tempo, à margem das línguas e das culturas, buscando fazer com que as diferentes partes dialoguem, ainda que este diálogo seja marcado por tensões e estranhezas.
[...] quando há assuntos pesados, são os mais velhos que vão à casa tratar essa questão. Eles guardam, também, os mil significados dos diferentes símbolos grupais, como o do arco-íris só revelados aos iniciados, aos que dominam a palavra-dom. Contam e recontam aos mais-novos e mais-miúdos a vida das famílias deles, as atribulações porque passaram, o mundo que lutaram, as conquistas obtidas, as pragas que enfrentaram, os fracassos [...]. (OLIVEIRA, 2000, p.39).
Em África, através de mitos, contos e provérbios, era feita a transmissão da cultura do mais velho ao seu povo, com o fim de manter os costumes e alimentar a memória coletiva. Os anciãos ocupavam, então, um lugar intervalar entre o mundo dos antepassados e o mundo dos vivos, exercendo a função de articulá-los.
Embora os mais velhos gozem de considerável importância em comunidades tradicionais, é importante referir que, com a entrada da modernização e dos costumes globalizados, houve uma inegável perda de prestígio e de espaço dos anciãos na sociedade africana, desde a chegada do colonizador europeu, os costumes relacionados à contação de histórias e à manutenção dos conhecimentos ancestrais, ainda que não tenham sido banidos, foram gradativamente se enfraquecendo, Dinis (2008: 45).
Registe-se, agora, a obra Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra que também explicita a convivência entre o novo e o velho. No caso concreto, avô e neto se juntam para resgatar Luar-do-Chão, uma espécie de representação ficcional de Moçambique, negociando tradições e traduções, oscilando entre a oralidade e a escrita. Como se pode depreender de todos esses exemplos, mostra-se que não existe futuro se não se considera o passado. Os diferentes tempos devem estar interligados para que um complete o outro. Esse autor, junto com outros escritores africanos, bebe na sabedoria popular, assumindo, muitas vezes a posição do velho contador de histórias. Assim, tais escritores buscam estratégias discursivas para preservar a memória ancestral – mesmo que inevitavelmente rasurada e desconstruída – ao mesmo tempo em que propõem a construção identitária de seus povos traduzindo, incorporando os ganhos e constrangimentos do mundo contemporâneo e das formas ficcionais que ele assume, Dinis (2008: 47). A preservação aludida faz da literatura um espaço político de resistência.
Há um uso da oralidade, de acordo com Otinta (2008), quando Dito Mariano fala para o neto, que ele dá a voz e o neto a escritura. Nesse momento, pode-se observar uma junção entre cultura oral e cultura letrada, Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute (...) é por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita, mas um vazio que você mesmo irá preencher, com as suas caligrafias (...) e você a escritura, (2002: 65).   
 A valorização da oralidade é notável quando ocorrem frases das personagens em seus epílogos, exemplo: O mundo já não era um lugar de viver. Agora, já nem de morrer é. Avô Mariano, (COUTO, 2002: 23). E vale-se dos ditos das personagens,  sendo um dito popular, no início de cada capítulo, mas também no início da obra ele utiliza um verso de Sophia de Mello, No princípio a casa foi sagrada, isto é, habitada não só por homens e vivos como também por mortos e deuses, Couto (2002:10). Sugere-se, portanto, que o dizer popular é tão valioso quanto a cultura letrada.
Desse modo, nesta obra não sevnega a cultura letrada nem a cultura oral, até mesmo porque e se vale da escrita para contar a história de Moçambique no pós-colonial.
            Além desses traços, o autor utiliza de simbologias para desenvolver a história. Um dos símbolos é a Nyumba-Kaya, que é a junção das palavras “casa” no norte e no sul da ilha, significando um desejo de integração das regiões do país, lembrando que Moçambique passou por uma guerra civil que durou 16 anos. A aceitação das diferentes culturas como unas, nacionais e assim na heterogeneidade se obtém a homogeneidade
De fato, há uma divisão geográfica real entre a ilha e cidade, entretanto, sugere-se que há um confronto entre a ilha com sua cultura oral, casos como o do burro e a cultura letrada representada por Marianinho, vindo da cidade. Além de poder representar a divisão do país.
O rio, por vez, é um meio de ligação entre a ilha e a cidade, podendo afigurar a ideia de iniciação.
            Outro caráter que revela a importância do rio na tradição oral é a existência de lendas que fazem parte da cultura local. Numa delas acredita-se que, em noites escuras, as grandes árvores das margens se desenraizam e caminham sobre as águas. Com o amanhecer do dia, elas retornam ao local de origem.
            Porém, há um significado que merece destaque: a atribuição de valor que remonta à eternidade. Para a personagem Juca Sabão, o rio não tem começo nem fim, ele é o próprio tempo.
Queria subir o rio até à nascente. Ele desejava decifrar os primórdios da água, ali onde a gota engravida e começa o "missanguear" do rio (...) o rio é como o tempo! Nunca houve princípio, concluía. O primeiro dia surgiu quando o tempo já há muito se havia estreado. Do mesmo modo é mentira haver fonte do rio. A nascente é já o vigente rio, a água em flagrante exercício (COUTO: 2002: 61).

As cartas ao Marianinho
Em meio à composição do romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, são apresentadas nove cartas. Elas são destinadas a Marianinho, membro dos Malilanes, que saíra de Luar-do- Chão ainda bem jovem e fora para a cidade. A princípio, elas parecem apenas incógnitas ou, quem sabe, loucuras do protagonista. Mas com uma leitura mais atenta, percebe-se que elas são elementos fundamentais para a compreensão dos mistérios que lhe circundam.
Através delas, é possível identificar vistígios do colonialismo e o conflito de identidades que “emerge do processo inter e transcultural que caracteriza a sociedade moçambicana, e enfoca não somente os nativos, mas inclui os estrangeiros que, deslocados, precisam, também eles, reinventar sua memória.” (MOREIRA, 2000: 208).
É possível dizer que as cartas desempenham, na narrativa, várias funções, dentre as quais se pode destacar as de estabelecer uma ligação entre o mundo do Marianinho e do Dito Mariano, de ensinar as acções que salvariam a vida em Luar-do-Chão e, principalmente, de propiciar um diálogo entre a cultura africana e a europeia. A primeira carta fora encontrada pelo protagonista quando esse estava alojado no quarto de seus tios Abstinêncio e Admirança. Ele acorda em meio a uma poeira e a uma luz e depara-se com uma folha escrita:
Ainda bem que chegou, Mariano. Você vai enfrentar desafios maiores que as suas forças. Aprenderá como se diz aqui: cada homem é todos os outros. Esses outros não são apenas os viventes. São também os já transferidos, os nossos mortos. Os vivos são vozes, os outros são ecos. Você está entrando em sua casa, deixe que a casa vá entrando dentro de si. Sempre que for o caso, escreverei para si. Faça de conta são cartas que nunca antes lhe escrevi. Leia mas não mostre nem conte a ninguém.” (ibd.56).
Ao terminar de ler a carta, Marianinho percebe que ela estava escrita com sua própria letra, mas não estava assinada. Tal facto, que deixa a personagem intrigada, acaba por dar ao romance um caráter enigmático, já que tanto o narrador/personagem quanto o leitor desconhecem a autoria da carta. Assim, as demais cartas, que vão aparecendo ao longo do romance, funcionam como pistas para desvendar os mistérios da família Malilanes, de Luar-do-Chão, bem como da própria narrativa. Através destas cartas, Marianinho recebe instruções sobre a sua missão, que é resgatar a sua terra, Luar-doChão.
Percebe-se ainda que há uma expectativa, da parte do avô, de que Marianinho tome decisões, tenha atitudes, ou seja, aja em conformidade com as orientações que lhe são passadas, enquanto ele se ocupa apenas em transmitir-lhe as mensagens. Pode parecer, porém, que não há uma acção mútua dos interlocutores, já que Dito Mariano aparenta uma certa inércia. Entretanto, essa se justifica pela condição de meio-morto do personagem, que deve incitar Marianinho a agir e, consequentemente, reinseri-lo em sua cultura. As cartas representariam, assim, a necessidade de uma acção que só poderia vir de alguém que ocupasse o lugar que Marianinho ocupa. Alguém que se dispõe a entender, novamente, as manifestações da cultura tradicional, mas que tem, também, a capacidade ou a habilidade de fazer uso do conhecimento da escrita. E é por meio do género textual carta que o avô Dito Mariano cumpre tal empreitada. Considerando tais aspectos, pode-se dizer que as cartas constituem-se como uma das manifestações do hibridismo cultural no romance de Mia Couto.
Nessa perspectiva, vale a pena afirmar que a transculturação estabelece-se por meio das cartas, na medida em que elas apresentam um cruzamento da oralidade com a escrita, do português com vocábulos em línguas de pontos extremos do país (sul e norte), bem como de formas lexicais próprias de quem faz um uso menor de uma língua maior. Mia Couto, ao valer-se da oralidade e da linguagem recriada, explicita o embate entre a tradição da cultura oral e a literatura escrita nos padrões europeus. A escrita moçambicana é, assim, caracterizada por esse encontro de culturas: - Suba no ganda-ganda!, ou ainda outro exemplo entre os incontáveis que constroem a narrativa: - Isso garça não é. É um mangondzwane... (COUTO, 2003: 27).

Conclusão
A linguagem é um produto ou criação social, e é, pois, uma das formas de manifestação cultural, pelo que a literatura, para além da função estética, está revestida de funções social e cultural como fundamentais. Partindo deste pressuposto, pudemos aferir que, na obra ora analisada, existe uma confluência de marcas identitária da cultura moçambicana, que se funde à ocidental, mesmo assim, registando resquício da colonização. A presença de personagens que tipificam a realidade moçambicana pós-colonial, caso da emigração do campo para a cidade, caso do Marianinho, e que ao regressar à sua terra, encontra complexos para a reintegração.
É também vistígio da colonização, a herança da ecrita, que passa a dividir o espaço geo-cultural com a tradição moçambicana, pelo que, apresentamos como exemplo elucidativo o facto de Dito Mariano fazer cartas (cultura europeia) caracterizando-as como falas (tradição oral africana).  Portanto, a cultura africana pode conviver com outras sem criar problemas, desde que se respeite a sua integridade e valor.
Afora estes aspectos, conclui-se ainda que, a descrição e a concepção de alguns actos, tais como a morte, é concebida de diferentes maneiras, o caso de Dito Mariano ser considerado morto clinicamente, o que na nossa tradição não é compreendido, mas também este "morto", ainda comunica-se com os vivos através de cartas, e assim temos mais uma evidência da convivência de culturas. Outrossim, é o facto de se acreditar no valor de uma cultura, quando Dito refere que oferece as falas (que tradição africana) e que Marianinho vai atribuir escritos (cultura europeia), conjugando-se estas duas marcas culturais e juntas construirem sentido ao que se pretende informar ao neto, aspecto que revela a cooperação de duas culturas na construção da significação da vida.
Portanto, a obra "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra" é um exemplo profícuo no que ao hibridismo cultura concerne.


Bibliografia
BERNARDI, BERNARDI. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa, 2007.
COUTO, Mia. Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra. 3ª Edição, Caminho Editora, Lisboa, 2002.
RAMA, Angel. Transculturação narrativa na América Latina. México: Siglo XXI Editores, 1982.
MOREIRA, Terezinha Taborda. O vão da voz: a metamorfose do narrador na ficção moçambicana. Belo Horizonte: PUC Minas, 2005.
MATUSSE, Gilberto, A Construção da Imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa, , Livraria Universitária Universidade Eduardo Mondlane Maputo, 1998.
OLIVEIRA, Maura Eustáquia. O lugar da oralidade nas narrativas de Mia Couto. 2000. Tese - Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2000.
WELLEK, René & WARREN, Austin. Teoria da literatura. Lisboa: Europa-América, s.d. 4 ed. 1995.

Walterlino em 2 de setembro de 2013 às 15:39

Gostei

Elisio Miambo em 27 de janeiro de 2015 às 11:03

e nos gostamos que tenha gostado, Walterino...visite-nos sempre!!!

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