terça-feira, 26 de abril de 2022

O erotismo como um campo de afirmação da feminilidade ou desmistificação do perfume do pecado

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”

Simone de Beauvoir


Sexo é poesia. Esta é a frase que encerra o texto patente na página 27 do livro “o perfume do pecado” como um exercício sugestivo de se sentir o aroma de um pecado que a nossa vivência religiosa intitula original. Mas não é sobre sexo que o livro trata como pode sugerir uma leitura apressada tanto do livro como da capa que, aliás, foi engenhosamente desenhada.

O perfume do pecado é uma produção poética que se constrói através da metaforização da sensualidade feminina, sobretudo, e da representação de estruturas de sentido que nos confirmam que o texto literário não diz. Sugere.

quinta-feira, 3 de março de 2022

apontamentos sobre tripulantes de uma embarcação que ainda não existe

...dou por mim, nestes últimos dias, dividido entre revisões, ensaios e rabiscos de versos ou prosas. É nos primeiros dois exercícios que mais me detenho. Claro, quando a leccionação deixa-me algum tempo sobrando. Talvez pudesse dedicar o meu tempo a outras coisas mas há uma devoção por nutrir. Prazer por satisfazer. Ombros por ceder aos que se queiram encostar.

Se uma vez alguém disse que não há melhor forma de empobrecer do que editar livros, digo, também, que melhor forma de despender tempo não há do que revisar ou ensaiar livros. Entretanto, nenhum experimentado nestas lides dirá que se trata de um exercício ingrato.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

que diferença faz a epiderme?

(com a gnose, que soçobra)

I

...plumas e tinta ferrogálica.

Metamorfoseando a brancura

do papel. A contragosto do que só

se revela no cume do monte. E não

na troca de olhares pelas margens

do mar. Ou nas grutas da floresta.

O cérebro esquartejado ao calabouço

do self.  Horizontes diluídos. Porque

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

close up: poesia moçambicana de hoje II

“temos bons poetas e muitos sabem escrever, mas há um excessivo labor da palavra, excessiva metaforização, e cada vez que isto acontece há uma fuga na comunicação que se busca estabelecer com o leitor” 

Marcelo Panguana 

De algum modo, venho reflectindo sobre este assunto. Vagueio entre a vontade, a dúvida e a dívida que devo saldar há quase uma década. Escrevi sobre a poesia moçambicana de hoje sob o olhar que tinha naquele "hoje". Um olhar que se fitou ao conteúdo a desfavor da forma que é também preponderante na arquitetura textual. Era outro momento, outra desenvoltura e outro fôlego. Mas nada disto me impele a vergonha do tempo nem a força do click no delete: são ossos de um percurso que devem ficar registados nesta plataforma.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

prosa poética ou prosa margeada à esquerda?

“o problema dos géneros literários tem constituído,

desde Platão até à actualidade, uma das questões mais

controversas da teoria e da praxis da literatura.”

AGUIAR & SILVA (2007: 339)

Incitar um debate sobre géneros literários ou outro princípio de segmentação discursiva nestes tempos em que reina a liberdade de criação e a volúpia da inovação à reboque da miscigenação que há séculos faz endereço na Literatura, é cutucar um dragão há muito adormecido e enxovalhado pelas colinas.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A linha e o Cego

 … às garras da Charrua.

A verdade é louca e mitológica. Não há semideuses. Apenas o nada. É preciso a candeia na clínica. Por isso, deixem ao menos na porta o bálsamo, mas não hospitalizem as idades na sintaxe e os semblantes na ciência do absurdo no antes do agora dos sítios dos quais queremos traspassar o algodão para o miolo do horizonte, e nessa linha há infiltração do soluço na fontanela da casa.