terça-feira, 4 de agosto de 2026

O erotismo como mecanismo de expressão da feminilidade: em “ABC da Cantiga da virgem e Rasga toda ela” de Matilde Chabana e “À meia-noite e Poema 004’’ de Hera de Jesus

Falar do erotismo como mecanismo da expressão da feminilidade na poesia, olhando, especificamente, para poesia moçambicana, significa pôr em destaque algumas vozes femininas que, na contemporaneidade, desafiam os tabus sociais relacionados ao corpo, desejeso sexual, prazer e sexualidade. É neste contexto que se justifica a presente reflexão, pela necessidade de compreender como o erotismo é utilizado na poesia para expressar a feminilidade. Para a concretização deste intento, analisa-se os poemas “ABC da Cantiga da virgem e Rasga Toda Ela” de Matilde Chabana e “À Meia-noite e Poema 004” de Hera de Jesus.

Segundo Almeida (2010), o conceito de erótico é relativamente recente. Este põe em jogo valores estéticos, sociais e morais e é no nível da linguagem que acaba por se definir. Há duas distinções para o uso da palavra erótica: (1) o uso erotizado de um vocabulário não especificamente erótico e (2) o uso de um vocabulário rigoroso e adequado à comunicação oral e escrita do acto amoroso e da sua fenomenologia.

Houaiss (2008 cit. em Amade, 2023) afirma que os dicionários definem o erótico como expressão do amor enfermo, paixão sensual insistente, paixão fulgurosa, busca exagerada pelo sensual, intensa lascívia, amor voluptuoso e libidinoso. Por sua vez, Pinheiro (2018) defende que o erótico faz parte da vida humana, é um estado do ser, uma energia que habita em nós, uma busca por aquilo que nos falta e, portanto, movimenta continuamente a existência.

As definições acima demostram como o erótico pode ser entendido em diferentes perspectivas, e dessas diferentes concepções podemos etender que se trata de uma manifestação ligada ao desejo, energia, paixão e sensualidade ligada à experiência amorosa.

Seguidamente, Pinheiro (2018) ressalta que o erotismo não está relacionado apenas à actividade sexual. O acto erótico se desprende do acto sexual. Contudo, o sexo é outra coisa. Essa outra coisa é o desejo que habite o ser do homem, que desperta sua criatividade para os diferentes atividades da vida. E uma dessas actividades intimamente relacionadas com o erotismo é a poesia.

Ainda a este respeito, Almeida (2010) advoga que o erotismo possibilita o jogo dialéctico entre o sujeito poético e a linguagem, esse jogo resulta na fruição, pela qual o poeta age sobre as palavras. A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que a primeira é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar: a linguagem. Esta representa o som que emite sentido, o traço material que denota ideias corpóreas e é capaz de dar nome ao que mais fugaz e evanescente. Deste modo, o erotismo não é mera sexualidade animal, é cerimônia, representação, é sexualidade transfigurada. É metáfora. Assim, a poesia, como erótica verbal, manifesta-se como acto de transgressão, de liberdade, de alforria do pensamento comum, de provocação e desordem. Uma experiência que mexe com nosso interior, causando-nos prazer, inquietação e arrebatamento.

No contexto do entendimento sobre o erótico, cabe uma abordagem sobre o conceito de feminilidade. Historicamente, o corpo feminino tem sido controlado por terceiros, tendo sofrido violência dos mais diversos modos, desde a esfera laboral até a sexual. Dessa forma, importa-nos evidenciar a mudança deste status quo, através de poemas que denotem liberdade e autonomia do corpo feminino, representadas a partir da dança, da vaidade, do desejo sexual e da consciência do eu feminino.

Observemos, primeiro, o poema “ABC cantiga da virgem”, de Matilde Chabana, extraido da sua obra “o perfume do pecado”, no qual o sujeito poético é feminino e transforma o corpo num espaço de desejo, prazer e transgressão. Podemos notar, ao longo do poema, a presença de uma linguagem intensamente erótica e metafórica:

beija-me com o pecado nos lábios,

chupa-me como os bois selvagens

devoram o capim fresco”

Os termos “beija-me e chupa-me’’ revelam uma intimidade física e transportam-nos imediatamente a um acto amoroso. E o termo “ beija-me com o pecado nos lábios’’ associa o desejo expresso a uma transgressão das normas morais e religiosas, considerando o pecado uma ofensa contra os princípios religiosos. O mesmo é invocado para expressar um alto nível de desejo e podemos perceber que continua aceso  e intenso “ chupa-me como os bois selvagens devoram …” . Ao longo do poema, surgem diversas metáforas eróticas relacionadas com fluidos e prazer.

suga-me esta seiva enleante”

“jorra teu mel nesta sombra maciça”

As palavras “seiva” e “mel”, embora sejam alguns elementos ligados à natureza, sugerem o prazer sexual da mulher. Assim, podemos perceber que a natureza ganha um poder metafórico do prazer feminino, ampliando a dimensão do erotismo e ultrapassando o simples acto sexual, mas agora de desejo e liberdade. Podemos observar, ainda, no texto a referência directa às partes do corpo feminino comparados aos elementos da natureza através de metáfora.

 Seguidamente, os versos “olha as minhas papaias,/ nuas e talhadas”/ remetem-nos a seios trazendo uma imagem da sensualidade femenina. Através deste texto, podemos observar que o erotismo não aparece apenas como manifestação sexual, mas como instrumento de afirmação feminina e de ruptura com padrões patriarcais que historicamente silenciaram a voz da mulher, tal como afirma (Pinheiro, 2021, p. 295).

As marcas eróticas presentes neste poema de Chabana (2021) contribuem significativamente para a representação da feminilidade, pois permitem construir uma imagem da mulher como sujeito consciente do próprio corpo, dos seus desejos e do seu prazer. O sujeito poético “feminino” deste poema tem o poder sobre os seus desejos, seu corpo e, acima de tudo, tem liberdade de gozar do seu prazer.

O referido no parágrafo anterior, ocorre, igualmente, nos seguintes versos: “beija-me”, “chupa-me” e “suga-me”. Estes versos são reveladores de um sujeito poético feminino que tem um desejo próprio e participa activamente da experiência amorosa. Esse aspecto contribui para representar uma feminidade livre e autónoma, distante da figura tradicional da mulher submissa e passiva. A mulher passa a ocupar o centro da experiência erótica, expressando abertamente os seus desejos sem medo ou vergonha.

Em diante, percebemos que a representação da feminidade torna-se mais forte, porque o sujeito poético assume o direito ao prazer sexual. O uso da palavra “vulva” rompe com o dogma social em torno do corpo feminino e evidencia uma mulher que conhece e reivindica a própria sexualidade. Dessa forma, a feminilidade deixa de ser construída apenas pela delicadeza ou pureza e passa a incluir desejo, prazer e liberdade corporal.

No poema “Rasga Toda Ela’’ de Matilde Chabana também retirado da obra “o perfume do pecado’’, o erotismo manifesta-se através de diversas marcas linguísticas e imagéticas que evidenciam desejo, sensualidade e intimidade corporal. Observemos a seguir:

Há calor nos beiços

entre a fronteira das minhas pernas

o verso “há calor nos beiços” remete-nos à excitação e desejo sexual, e a expressão “fronteira das minhas pernas” referencia metaforicamente a intimidade feminina.

“que percorre o litoral molhado

sobre a mansa seda”

Observamos que os versos acima complementam os primeiros versos. “litoral molhado” sugere excitação sexual feminina, e “mansa seda” remete à suavidade do toque corporal, essas imagens despertam sensações tácteis e contribuem para criar uma atmosfera sensual e íntima.

“deslizando sobre o oceano da minha

feminilidade macia

O sujeito poético compara a intimidade feminina à profundidade do “oceano”, a palavra “deslizando” sugere-nos ao contacto íntimo, criando uma imagem de proximidade corporal e sensualidade, e a expressão “feminilidade macia” valoriza a delicadeza e a suavidade do corpo da mulher, reforçando a dimensão erótica do poema. O poema culmina com uma imagem de forte intensidade sensual:

“mas antes, rasga a calcinha com os dentes!”

Neste verso, a linguagem torna-se mais directa e provocadora, a expressão “rasgar a calcinha com os dentes” simboliza entrega, desejo, confiança e ruptura com limites morais impostos ao corpo feminino. As marcas eróticas identificadas no texto contribuem directamente para a expressão da femilidade, pois apresentam o corpo feminino como um espaço de desejo, prazer e sensualidade. A escolha de palavras como “deslizando” e “oceano” transmitem-nos a sensação de suavidade e profundidade do corpo e intimidade feminina. Além disso, outras marcas presentes através de metáforas no texto representam a mulher como um ser livre capaz de desejar, sentir, gostar e ser livre diante dos seus prazeres.

Observemos, por isso, o poema (à meia noite) de Hera de Jesus:

embriagas-te

com o cálice

dos meus

beijos”

Nestes versos, o sujeito poético, através da metáfora, compara o cálice ao beijo, ou seja, compara o beijo a algo que seduz. Que é prazeroso. A combinação das palavras como, por exemplo, “embriagas-te” intensifica a mensagem, transmitindo a ideia de entrega total, desejo e prazer capaz de dominar os sentidos. Ainda no contexto da linguagem erótica, observamos os seguintes versos no decorrer do poema:

“Escalas

os montes

das minhas

ancas”

Estes versos dão a entender o uso da imagem e, em simultâneo, da metáfora, a exploração do corpo feminino que é metaforicamente comparado à natureza “escalas os montes” e “das minhas ancas’’. Podemos perceber também que essa combinação da natureza e do corpo feminino representa a valorização e o desejo, o que reforça a dimensão erótica do texto.

“e com

as duas

mãos

esmagas

os cachos

das minhas

nádegas”

A construção do texto é feita com uma linguagem erótica intensa, conforme se nota nos versos acima. Primeiramente, transmitem uma ideia de contacto físico “e com as duas mãos esmagas”, o que revela um nível alto do desejo, e ocorre uma referência directa ao corpo femenino “minhas nádegas’’. Estas marcas são igualmente presentes no excerto abaixo:

“Deleitas-te

de gozo

no prado

dos meus

encantos”

O jogo de linguagem que Hera de Jesus faz no poema “à Meia-noite” é usado para representar o corpo feminino assim como o desejo feminino. A mulher neste poema é representada como fonte de desejo e de prazer. Além disso, observamos a liberdade com a qual a mesma representa o corpo feminino sem nenhum remorso, descrevendo os seus desejos.

No poema “Poema 004”, também da Hera de Jesus, revela-se o mesmo processo, conforme atestam os seguintes versos:

como um espectro

sinto-te perfurar

minha alma”

A combinação dos versos acima remete-nos a uma invasão profunda do ser feminino. Ou seja, o desejo e invasão transcende a dimensão corporal do sujeito poético, passando para os níveis mais altos e alcançam a alma.

“És êxtase

poluindo

minhas veias”

A combinação das palavras desses versos intensifica mais a dimensão erótica, quando o sujeito poético metaforicamente compara o seu desejo como êxtase ou um prazer que transcende a dimensão real e passa a perda do controlo dos sentidos até possui-la por completo “poluindo minhas veias roubando pouco a pouco a minha vida”.

Podemos perceber, portanto, que a linguagem erótica usada no poema contribuiu significativamente para a representação da feminilidade ao demostrar a mulher como um ser sensível e emocional. Diferentemente dos outros poemas aqui analisados, este não dá primasia à construção do corpo feminino, mas demostra os sentimentos intensos que a mulher é capaz de ter.

Em linhas gerais, podemos afirmar que a linguagem erótica na poesia contribui significativamente para a expressão da feminilidade nos poemas de Chabana (2021), assim como os da Hera de Jesus, pois através do erotismo, representam a mulher como entidade consciente do próprio corpo, dos seus desejos, emoções e prazeres.

Através do erotismo representado por metáfora, imagem e outras figuras de linguagem, Matilde Chabana e Hera de Jesus expressam uma feminidade livre, activa, consciente do seu poder e distanciam-na das concepções patriarcais e que associam-na ao silêncio e à submissão. Ademais, nos poemas de Chabana, o erotismo manifesta-se de uma forma intensa. Em “ABC Cantiga da Virgem e Rasga Toda Ela” a linguagem poética é recheada de imagens e metáforas que, dentro do contexto do texto, nos transportam para uma dimensão erótica como: “mel, vulva, ancas, nadegas, fogo, fruta” e que nos dá a entender sobre a representação do corpo feminino, a naturalizar o desejo e o prazer da mulher. Nos poemas da Hera de Jesus, o erotismo é representado na dimensão corporal, assim como na dimensão emocional. Em “Á Meia Noite”, observamos essa dimensão corporal ao trazer imagens como “ancas, nádegas” que demostram o corpo feminino e contribuem para representar uma feminilidade consciente do prazer e do seu poder de sedução. Em “Poema 004” observamos a dimensão emocional, frases como “perfuras minha alma” e “êxtase poluindo minhas veias” representam uma feminilidade marcada pela intensidade emocional e pela profundidade dos sentimentos. Assim, a linguagem erótica ultrapassa o contacto físico e passa a representar a mulher como ser sensível, complexo e emocionalmente activo.


Escrito por: Matilde Mitema

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