Segundo
Almeida (2010), o conceito de erótico é relativamente recente. Este põe em jogo
valores estéticos, sociais e morais e é no nível da linguagem que acaba por se
definir. Há duas distinções para o uso da palavra erótica: (1) o uso erotizado
de um vocabulário não especificamente erótico e (2) o uso de um vocabulário
rigoroso e adequado à comunicação oral e escrita do acto amoroso e da sua
fenomenologia.
Houaiss
(2008 cit. em Amade, 2023) afirma que os dicionários definem o erótico como
expressão do amor enfermo, paixão sensual insistente, paixão fulgurosa, busca
exagerada pelo sensual, intensa lascívia, amor voluptuoso e libidinoso. Por sua
vez, Pinheiro (2018) defende que o erótico faz parte da vida humana, é um
estado do ser, uma energia que habita em nós, uma busca por aquilo que nos
falta e, portanto, movimenta continuamente a existência.
As
definições acima demostram como o erótico pode ser entendido em diferentes
perspectivas, e dessas diferentes concepções podemos etender que se trata de
uma manifestação ligada ao desejo, energia, paixão e sensualidade ligada à
experiência amorosa.
Seguidamente,
Pinheiro (2018) ressalta que o erotismo não está relacionado apenas à
actividade sexual. O acto erótico se desprende do acto sexual. Contudo, o sexo é
outra coisa. Essa outra coisa é o desejo que habite o ser do homem, que
desperta sua criatividade para os diferentes atividades da vida. E uma dessas
actividades intimamente relacionadas com o erotismo é a poesia.
Ainda
a este respeito, Almeida (2010) advoga que o erotismo possibilita o jogo dialéctico
entre o sujeito poético e a linguagem, esse jogo resulta na fruição, pela qual
o poeta age sobre as palavras. A relação entre erotismo e poesia é tal que se
pode dizer, sem afetação, que a primeira é uma poética corporal e a segunda uma
erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar: a linguagem.
Esta representa o som que emite sentido, o traço material que denota ideias
corpóreas e é capaz de dar nome ao que mais fugaz e evanescente. Deste modo, o
erotismo não é mera sexualidade animal, é cerimônia, representação, é
sexualidade transfigurada. É metáfora. Assim, a poesia, como erótica verbal,
manifesta-se como acto de transgressão, de liberdade, de alforria do pensamento
comum, de provocação e desordem. Uma experiência que mexe com nosso interior,
causando-nos prazer, inquietação e arrebatamento.
No
contexto do entendimento sobre o erótico, cabe uma abordagem sobre o conceito
de feminilidade. Historicamente, o corpo feminino tem sido controlado por
terceiros, tendo sofrido violência dos mais diversos modos, desde a esfera
laboral até a sexual. Dessa forma, importa-nos evidenciar a mudança deste status
quo, através de poemas que denotem liberdade e autonomia do corpo feminino,
representadas a partir da dança, da vaidade, do desejo sexual e da consciência
do eu feminino.
Observemos,
primeiro, o poema “ABC cantiga da virgem”, de Matilde Chabana, extraido da sua
obra “o perfume do pecado”, no qual o sujeito poético é feminino e transforma o
corpo num espaço de desejo, prazer e transgressão. Podemos notar, ao longo do
poema, a presença de uma linguagem intensamente erótica e metafórica:
“beija-me
com o pecado nos lábios,
chupa-me
como os bois selvagens
devoram
o capim fresco”
Os
termos “beija-me e chupa-me’’ revelam
uma intimidade física e transportam-nos imediatamente a um acto amoroso. E o
termo “ beija-me com o pecado nos
lábios’’ associa o desejo expresso a uma transgressão das normas morais e
religiosas, considerando o pecado uma ofensa contra os princípios religiosos. O
mesmo é invocado para expressar um alto nível de desejo e podemos perceber que continua
aceso e intenso “ chupa-me como os bois selvagens devoram …” . Ao longo do poema,
surgem diversas metáforas eróticas relacionadas com fluidos e prazer.
“suga-me
esta seiva enleante”
“jorra
teu mel nesta sombra maciça”
As
palavras “seiva” e “mel”, embora
sejam alguns elementos ligados à natureza, sugerem o prazer sexual da mulher. Assim,
podemos perceber que a natureza ganha um poder metafórico do prazer feminino,
ampliando a dimensão do erotismo e ultrapassando o simples acto sexual, mas
agora de desejo e liberdade. Podemos observar, ainda, no texto a referência
directa às partes do corpo feminino comparados aos elementos da natureza
através de metáfora.
Seguidamente, os versos “olha as minhas
papaias,/ nuas e talhadas”/ remetem-nos a seios trazendo uma imagem da
sensualidade femenina. Através deste texto, podemos observar que o erotismo não
aparece apenas como manifestação sexual, mas como instrumento de afirmação
feminina e de ruptura com padrões patriarcais que historicamente silenciaram a
voz da mulher, tal como afirma (Pinheiro, 2021, p. 295).
As
marcas eróticas presentes neste poema de Chabana (2021) contribuem
significativamente para a representação da feminilidade, pois permitem
construir uma imagem da mulher como sujeito consciente do próprio corpo, dos
seus desejos e do seu prazer. O sujeito poético “feminino” deste poema tem o
poder sobre os seus desejos, seu corpo e, acima de tudo, tem liberdade de gozar
do seu prazer.
O
referido no parágrafo anterior, ocorre, igualmente, nos seguintes versos: “beija-me”, “chupa-me” e “suga-me”.
Estes versos são reveladores de um sujeito poético feminino que tem um desejo
próprio e participa activamente da experiência amorosa. Esse aspecto contribui
para representar uma feminidade livre e autónoma, distante da figura
tradicional da mulher submissa e passiva. A mulher passa a ocupar o centro da
experiência erótica, expressando abertamente os seus desejos sem medo ou
vergonha.
Em
diante, percebemos que a representação da feminidade torna-se mais forte,
porque o sujeito poético assume o direito ao prazer sexual. O uso da palavra
“vulva” rompe com o dogma social em torno do corpo feminino e evidencia uma
mulher que conhece e reivindica a própria sexualidade. Dessa forma, a
feminilidade deixa de ser construída apenas pela delicadeza ou pureza e passa a
incluir desejo, prazer e liberdade corporal.
No
poema “Rasga Toda Ela’’ de Matilde
Chabana também retirado da obra “o perfume do pecado’’, o erotismo manifesta-se
através de diversas marcas linguísticas e imagéticas que evidenciam desejo,
sensualidade e intimidade corporal. Observemos a seguir:
“Há calor nos beiços
entre a fronteira das
minhas pernas”
o
verso “há calor nos beiços”
remete-nos à excitação e desejo sexual, e a expressão “fronteira das minhas pernas” referencia metaforicamente a
intimidade feminina.
“que percorre o litoral
molhado
sobre a mansa seda”
Observamos
que os versos acima complementam os primeiros versos. “litoral molhado” sugere excitação sexual feminina, e “mansa seda”
remete à suavidade do toque corporal, essas imagens despertam sensações tácteis
e contribuem para criar uma atmosfera sensual e íntima.
“deslizando sobre o
oceano da minha
feminilidade macia”
O
sujeito poético compara a intimidade feminina à profundidade do “oceano”, a palavra “deslizando” sugere-nos ao contacto íntimo, criando uma imagem de
proximidade corporal e sensualidade, e a expressão “feminilidade macia” valoriza a delicadeza e a suavidade do corpo da
mulher, reforçando a dimensão erótica do poema. O poema culmina com uma imagem
de forte intensidade sensual:
“mas antes, rasga a
calcinha com os dentes!”
Neste
verso, a linguagem torna-se mais directa e provocadora, a expressão “rasgar a calcinha com os dentes”
simboliza entrega, desejo, confiança e ruptura com limites morais impostos ao
corpo feminino. As marcas eróticas identificadas no texto contribuem
directamente para a expressão da femilidade, pois apresentam o corpo feminino
como um espaço de desejo, prazer e sensualidade. A escolha de palavras como
“deslizando” e “oceano” transmitem-nos a sensação de suavidade e profundidade
do corpo e intimidade feminina. Além disso, outras marcas presentes através de
metáforas no texto representam a mulher como um ser livre capaz de desejar,
sentir, gostar e ser livre diante dos seus prazeres.
Observemos,
por isso, o poema (à meia noite) de Hera de Jesus:
“embriagas-te
com
o cálice
dos
meus
beijos”
Nestes
versos, o sujeito poético, através da metáfora, compara o cálice ao beijo, ou
seja, compara o beijo a algo que seduz. Que é prazeroso. A combinação das
palavras como, por exemplo, “embriagas-te” intensifica a mensagem, transmitindo
a ideia de entrega total, desejo e prazer capaz de dominar os sentidos. Ainda
no contexto da linguagem erótica, observamos os seguintes versos no decorrer do
poema:
“Escalas
os
montes
das
minhas
ancas”
Estes
versos dão a entender o uso da imagem e, em simultâneo, da metáfora, a
exploração do corpo feminino que é metaforicamente comparado à natureza “escalas os montes” e “das minhas ancas’’. Podemos perceber
também que essa combinação da natureza e do corpo feminino representa a
valorização e o desejo, o que reforça a dimensão erótica do texto.
“e
com
as
duas
mãos
esmagas
os
cachos
das
minhas
nádegas”
A
construção do texto é feita com uma linguagem erótica intensa, conforme se nota
nos versos acima. Primeiramente, transmitem uma ideia de contacto físico “e com as duas mãos esmagas”, o que
revela um nível alto do desejo, e ocorre uma referência directa ao corpo
femenino “minhas nádegas’’. Estas marcas
são igualmente presentes no excerto abaixo:
“Deleitas-te
de
gozo
no
prado
dos
meus
encantos”
O
jogo de linguagem que Hera de Jesus faz no poema “à Meia-noite” é usado para
representar o corpo feminino assim como o desejo feminino. A mulher neste poema
é representada como fonte de desejo e de prazer. Além disso, observamos a
liberdade com a qual a mesma representa o corpo feminino sem nenhum remorso,
descrevendo os seus desejos.
No
poema “Poema 004”, também da Hera de Jesus, revela-se o mesmo processo, conforme
atestam os seguintes versos:
“como
um espectro
sinto-te
perfurar
minha
alma”
A
combinação dos versos acima remete-nos a uma invasão profunda do ser feminino. Ou
seja, o desejo e invasão transcende a dimensão corporal do sujeito poético,
passando para os níveis mais altos e alcançam a alma.
“És
êxtase
poluindo
minhas
veias”
A
combinação das palavras desses versos intensifica mais a dimensão erótica,
quando o sujeito poético metaforicamente compara o seu desejo como êxtase ou um
prazer que transcende a dimensão real e passa a perda do controlo dos sentidos
até possui-la por completo “poluindo
minhas veias roubando pouco a pouco a minha vida”.
Podemos
perceber, portanto, que a linguagem erótica usada no poema contribuiu
significativamente para a representação da feminilidade ao demostrar a mulher
como um ser sensível e emocional. Diferentemente dos outros poemas aqui
analisados, este não dá primasia à construção do corpo feminino, mas demostra
os sentimentos intensos que a mulher é capaz de ter.
Em
linhas gerais, podemos afirmar que a linguagem erótica na poesia contribui
significativamente para a expressão da feminilidade nos poemas de Chabana
(2021), assim como os da Hera de Jesus, pois através do erotismo, representam a
mulher como entidade consciente do próprio corpo, dos seus desejos, emoções e
prazeres.
Através do erotismo representado por metáfora, imagem e outras figuras de linguagem, Matilde Chabana e Hera de Jesus expressam uma feminidade livre, activa, consciente do seu poder e distanciam-na das concepções patriarcais e que associam-na ao silêncio e à submissão. Ademais, nos poemas de Chabana, o erotismo manifesta-se de uma forma intensa. Em “ABC Cantiga da Virgem e Rasga Toda Ela” a linguagem poética é recheada de imagens e metáforas que, dentro do contexto do texto, nos transportam para uma dimensão erótica como: “mel, vulva, ancas, nadegas, fogo, fruta” e que nos dá a entender sobre a representação do corpo feminino, a naturalizar o desejo e o prazer da mulher. Nos poemas da Hera de Jesus, o erotismo é representado na dimensão corporal, assim como na dimensão emocional. Em “Á Meia Noite”, observamos essa dimensão corporal ao trazer imagens como “ancas, nádegas” que demostram o corpo feminino e contribuem para representar uma feminilidade consciente do prazer e do seu poder de sedução. Em “Poema 004” observamos a dimensão emocional, frases como “perfuras minha alma” e “êxtase poluindo minhas veias” representam uma feminilidade marcada pela intensidade emocional e pela profundidade dos sentimentos. Assim, a linguagem erótica ultrapassa o contacto físico e passa a representar a mulher como ser sensível, complexo e emocionalmente activo.
Escrito
por: Matilde Mitema

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