Bechara (2009) define o verso como “o conjunto de palavras que formam, dentro de qualquer número de sílabas, uma unidade fónica sujeita a um determinado ritmo” (p. 534).
Segundo
Garcia (2010) o verso “é a unidade rítmica do poema, podendo ter uma só palavra
ou um conjunto delas. Graficamente, constitui uma linha de sentido completo ou
não; sensorialmente, produz um ritmo” (p. 37).
Tal
como se pode observar nas concepções apresentadas, Bechara (2009) define o
verso como um conjunto de palavras que constitui uma unidade fónica sujeita a
um determinado ritmo. Por sua vez, Garcia (2010) partilha essa concepção, mas
acrescenta que o verso pode ser constituído não apenas por um conjunto de
palavras, mas também por uma única palavra. Assim, ambos os autores convergem
ao considerar o ritmo como um elemento essencial do verso, divergindo apenas
quanto à sua constituição.
Embora
não seja nossa intenção reflectir sobre outros elementos que compõem o texto
poético, como as estrofes, consideramos que os conceitos de estrofe
apresentados a seguir reflectem o entendimento dos autores sobre o verso.
Para
Bechara (2009) “o poema pode conter dois ou mais versos, os quais se agrupam
para formar uma estrofe” (p. 548).
Cunha
e Cintra (2001) afirmam que a estrofe “é um agrupamento rítmico formado por
dois ou mais versos que, em geral, se combinam pela rima” (p. 465).
Segundo
Garcia (2010) “um verso isolado ou um conjunto de versos demarcados por uma
pausa e por um espaçamento gráfico, formando uma unidade rítmica e psicológica,
constitui uma estrofe” (p. 41).
Para
compreendermos as posições apresentadas pelos autores: Becharra (2009), Cunha e
Cintra (2001), Garcia (2010) e Ribeirro et al. (2015) se manifestam em textos
poéticos, tomaremos como base os poemas de Hera de Jesus, em “No dorso da
sombra” (pp. 10, 19 e 69) e de Pedro Pereira Lopes, em “Mundo Blue (ou o poema em quarentena)”
(p. 50).
Antes
de avançarmos, importa realçar que tanto Becharra (2008) como Garcia (2010) consideram
o verso uma unidade rítmica, isto é, podemos considerar este aspecto como
crucial e indispensável na definição do verso, pois independentemente do número
de palavras que constitui um verso o ritmo sempre estará presente na sua
composição.
Geralmente,
os textos poéticos são compostos por versos formados por um conjunto de
palavras. É nesse sentido que entendemos que Bechara (2009) concebe o verso
como sendo exclusivamente dotado dessa característica. No entanto, ao assumir o
verso nesse viés, o autor deixa de fora versos formados por uma única palavra,
isto é, por uma a unidade mínima.
Importa
destacar que, na nossa abordagem, a palavra é entendida dentro do campo da
Morfologia, tal como sustentam Ribeiro et al. (2015) sendo concebida como uma
unidade gráfica e fonológica, com significado ou função gramatical, pertencente
a uma determinada categoria.
Nesta
perspectiva, pensamos que a concepção de Bechara (2009) pode ser enquadrada nas
estruturas clássicas, isto é, na poesia produzida de acordo com padrões
caracterizados por formas fixas que seguem regras específicas quanto ao número
de versos, ao número de sílabas poéticas e à sua disposição, entre outros
aspectos. Exemplos disso são as formas como o Soneto, a Balada, o Hino, a Elegia,
entre outras, cuja rigidez estrutural não pode ser ignorada. Por essa razão, os
autores que escrevem nesses moldes seguem regras previamente estabelecidas de
acordo com a forma escolhida, em outras palavras, essa rigidez não abre espaço
para que o autor possa formar um texto com um verso formado por uma única
palavra.
Por seu turno, Garcia (2010) apresenta um conceito que podemos considerar mais completo, mas não de forma universal (aspecto que será retomado mais adiante). Por agora, importa destacar que, tal como Bechara (2009) o autor admite que o verso pode ser formado por um conjunto de palavras. Vejamos este aspecto na primeira estrofe do texto de Jesus (2025, p. 69):
“Os
feixes densos do sol
atravessam
as cortinas
e
se diluem no espaço difuso.”
Podemos
observar que a estrofe é constituída por três (3) versos formados por um
conjunto de palavras. No entanto, Garcia (2010) diferentemente de Bechara
(2009) não exclui a possibilidade de o verso ser constituído por uma única
palavra. Como podemos observar nas sequências de versos ilustradas abaixo,
retiradas na primeira estrofe do texto de Jesus (2025, p. 10):
“Aqueles
olhos
cantavam
canções
tão
fúnebres.”
Podemos
verificar que a estrofe é constituída por seis (6) versos formados por uma
única palavra.
O
entendimento de Bechara (2009), vai além da conceituação do verso, abrangendo
também o conceito de estrofe, vista como um agrupamento de dois ou mais versos,
posição igualmente partilhada por Cunha e Cintra (2001). Assim, a estrofe não
pode ser formada por um único verso. Para os autores, só teremos estrofes em
sequências como:
“A
sombra de um rosto circunspecto
projecta-se
nas paredes
ensebadas
de palavras.”
“Promessas,
algum destino previsto.
O
rosto não beija
a
figura da mulata,
cravada
na parede.”
Por
seu turno, Garcia (2010) argumenta a favor dos autores referidos acima ao
defender que a estrofe pode ser constituída por um conjunto de versos
demarcados por um espaçamento gráfico; no entanto, diverge ao incluir na sua
definição a possibilidade de existirem estrofes formadas por uma única palavra,
tal como podemos observar no excerto abaixo:
“carregados
de
dor e de luto.
Partiste.
Nasceu,
em
mim,
um
coração
fúnebre
e inóspito.”
Nestas
estrofes, do texto de Jesus (2025, p. 19), observamos que a terceira estrofe é
constituída apenas por uma única palavra, demarcada por um espaçamento gráfico
que a separa das outras estrofes.
Em
linhas gerais, no que diz respeito ao conceito de verso e estrofe, acreditamos
que autores como Bechara (2009) e Cunha e Cintra (2001) estão mais ligados à
poesia clássica, enquanto Garcia (2010) engloba tanto a poesia clássica (geralmente
estruturada em versos compostos por várias palavras) quanto à poesia moderna,
cuja principal característica é o rompimento das estruturas fixas, conferindo
maior liberdade ao autor na segmentação do texto. Essa concepção manifesta-se
também no conceito de estrofe apresentado por Garcia (2010) que contempla a
possibilidade de um verso isolado constituir uma estrofe.
Retomando
ao aspecto que nos leva a não considerar a concepção de Garcia (2010) como universal,
destaca-se o facto de existirem versos que não são formados nem por um conjunto
de palavras nem por uma única palavra, tal como podemos observar na estrofe do
texto de Lopes (2020, p. 50):
“não
são lágrimas
o
mar sai pelos
o-
lhos.”
Neste
caso, o terceiro verso é formado por uma vogal “o”, que faz parte da palavra
“olhos”; no entanto, encontra-se dividida e ocupando dois versos. Assim,
acreditamos que a escolha de estruturação destes versos justifica-se pela
liberdade que o autor dispõe na segmentação do texto dentro das estruturas
modernas.
Importa
ainda destacar que a concepção de verso como unidade mínima não implica
ausência de estruturação ou de organização. Pelo contrário, exige do leitor uma
maior participação interpretativa, uma vez que o sentido não está
explicitamente desenvolvido, mas sugerido. Assim, o verso deve ser entendido
como uma unidade multifacetada, capaz de assumir diferentes formas conforme o
contexto histórico, estético e discursivo. Reduzi-lo a uma definição rígida
seria ignorar a riqueza e a diversidade da linguagem poética.
Em
linhas gerais, no presente texto procurou-se discutir a problemática da
conceituação do verso, tendo em conta as diferentes perspectivas teóricas que o
definem ora como um conjunto de palavras, ora como uma unidade mínima. A
análise permitiu constatar que não existe uma definição única e consensual de
verso. Autores como Bechara (2009) e Cunha e Cintra (2001) tendem a associá-lo
a estruturas mais tradicionais, geralmente compostas por um conjunto de
palavras organizadas segundo padrões rítmicos e formais. Por outro lado, Garcia
(2010) apresenta uma visão mais abrangente, admitindo a possibilidade de o
verso ser constituído por uma única palavra, aproximando-se das práticas da
poesia moderna. Verificou-se ainda que essas concepções estão directamente
relacionadas com os contextos estéticos e históricos da produção poética. A
poesia clássica privilegia estruturas fixas, a poesia moderna caracteriza-se
pela liberdade formal. Além disso, a análise evidenciou formas mais complexas
de verso, como a fragmentação de palavras, o que desafia tanto as definições
tradicionais quanto as mais abrangentes. Deste modo, conclui-se que o verso
deve ser entendido como uma unidade dinâmica e multifacetada, cuja definição
depende do contexto em que se insere, não devendo ser reduzido a uma única
perspectiva.
Escrito por: Figo Flávio Macaringue

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