sábado, 25 de julho de 2026

A exigência que transforma

Sete em ponto. Porta fechada. Quem chegasse atrasado ou com ficha de leitura despachada, era colocado na lista de candidatos a exclusão. No início, ninguém da turma de Inglês entendia aquilo. No semestre passado ele era professor de Técnicas de Expressão em Língua Portuguesa. Agora é nosso professor de Português. Desde o primeiro dia, fazemos a mesma pergunta: para quê tanta exigência? 

Pontualidade. Assiduidade. Ficha de leitura. Participação obrigatória. Perguntas inesperadas. Tudo parecia exagero. Nós reclamávamos dele nos corredores, nas escadas, nos grupos da turma e até depois das aulas. Houve dias em que desejávamos sinceramente que ele desaparecesse do curso ou fosse transferido para outra turma.

Era difícil gostar de alguém que não deixava ninguém confortável. Ele tem um método estranho. Irrita e transforma ao mesmo tempo. Duas armas principais: cobrança e história. A cobrança aparece primeiro. É impossível escapar dela. Ele chama cada estudante pelo nome, olha diretamente nos olhos e faz perguntas sem aviso. Sempre encontra quem tenta se esconder no canto da sala. Ninguém fica invisível na aula dele. Alguns fingem procurar algo na mochila para evitar contacto visual. Outros baixam a cabeça, torcendo para não serem chamados. Mas cedo ou tarde ele chama. E quando chama, espera por resposta.

No início, aquilo parecia castigo. Era como se ele gostasse de nos colocar sob pressão. Afinal, ninguém gosta de ser arrancado da própria zona de conforto diante da turma inteira. As mãos tremem. A voz falha. As ideias desaparecem de repente, como se alguém tivesse apagado tudo da mente. Mas com o tempo começamos a perceber uma coisa curiosa: ele nunca fazia aquilo para humilhar.

Ele pressionava, porque acreditava que éramos capazes de mais. Às vezes um estudante levantava-se para apresentar um tema e travava completamente. Voz baixa. Olhar perdido. Mãos inquietas. Silêncio pesado na sala. Nesses momentos ele interrompia. Mas não para criticar. Era aí que surgia a segunda arma: a história. Ele começava a contar um episódio aparentemente simples, quase sempre ligado ao assunto da aula ou à situação do estudante. Contava com naturalidade, como quem conversa. A turma ria. A tensão quebrava-se devagar. E naquele pequeno intervalo acontecia algo importante: o estudante respirava outra vez.

Era como se o professor construísse uma ponte invisível entre o medo e a coragem. Enquanto todos prestavam atenção na história, o aluno reorganizava as ideias, recuperava a confiança e tentava novamente. E quase sempre conseguia continuar melhor do que antes. Com o tempo, percebemos que aquelas histórias não eram distração. Faziam parte do método. Ele ensinava gramática, interpretação e escrita, mas ensinava também algo que quase nunca aparece nos programas das disciplinas: presença, coragem e segurança para falar diante dos outros.

Hoje entendemos que a insistência na pontualidade não era apenas sobre horas. Era sobre responsabilidade. A exigência das fichas de leitura não era apenas sobre preencher páginas. Era sobre criar hábito de leitura e pensamento crítico. As perguntas inesperadas não eram apenas pressão. Eram treino. Porque o mundo lá fora não avisa quando vai exigir de nós uma resposta. Talvez por isso ele seja tão duro.

Há professores que entram na sala, despejam matéria no quadro e vão embora. Os estudantes decoram, fazem testes, passam de um semestre para outro e se esquecem de tudo, pouco depois. Mas existem outros professores, raros, que mexem com a maneira como pensamos e nos comportamos. Esses normalmente não são os mais queridos no começo. São os que incomodam. Os que insistem. Os que não permitem que o estudante viva escondido no fundo da sala.

Hoje, quando alguém chega antes das sete para não encontrar a porta fechada, já não parece revolta. Parece hábito. Quando a turma lê os textos antes da aula, já não é apenas obrigação. Parece preparação. A verdade é que fomos mudando sem perceber. Talvez essa seja a maior ironia: o professor que mais criticávamos acabou sendo um dos que mais nos marcou. Ainda reclamamos, às vezes. Ainda suspiramos quando ele pede mais uma ficha de leitura. Ainda ficamos nervosos quando ele olha para o fundo da sala e chama alguém pelo nome. Mas agora existe uma diferença: entendemos o motivo. Ele cobra, porque acredita. No fundo, talvez os professores mais exigentes sejam exactamente aqueles que se recusam a deixar os estudantes menores do que podem ser.

 

Escrito por: Estrela Paz Macamo

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