sábado, 29 de agosto de 2026

A procrastinação estudantil e as suas consequências

Há dias em que acordo decidido a mudar. Levanto-me cedo, organizo os meus apontamentos, preparo os livros e prometo a mim mesmo que, finalmente, vou estudar com seriedade. Digo que desta vez será diferente, que vou conseguir manter o foco, que não vou deixar nada para depois. Mas bastam alguns minutos para que tudo comece a desmoronar. Primeiro é o telemóvel que vibra “só para ver uma mensagem rápida”, depois uma conversa sem importância que se prolonga mais do que devia, mais tarde uma música que me prende ou um episódio de uma série que “só hei de ver um bocadinho”. E, quando volto a olhar para o relógio, o dia já escorregou entre os dedos. O silêncio da secretária continua ali, os livros continuam abertos na mesma página, e eu continuo exactamente no mesmo lugar.

Durante muito tempo, acreditei que isto era apenas preguiça, uma falta de disciplina que eu poderia resolver com mais força de vontade. Porém, à medida que fui amadurecendo e observando melhor a minha própria rotina e a dos colegas à minha volta, percebi que a procrastinação é muito mais do que adiar tarefas. Ela representa uma luta constante entre aquilo que devemos fazer e aquilo que, no momento, parece mais leve, mais fácil, quase reconfortante. É um conflito silencioso que acompanha muitos estudantes e que, por vezes, passa despercebido aos olhos de quem nunca o viveu.

Enquanto estudante, já perdi a conta das vezes em que comecei um trabalho apenas na véspera da entrega. Lembro-me de noites em que a casa inteira já dormia e eu ainda estava sentado à mesa da cozinha, com o computador aberto, café frio ao lado e os olhos a arder, tentando em poucas horas fazer o que deveria ter sido construído ao longo de dias. Já senti o peso de ver o céu a clarear pela janela, enquanto eu lutava contra o sono e contra a consciência de que poderia ter evitado aquilo. E já entrei em salas de exame com o coração acelerado, não apenas pela prova, mas pela amarga sensação de que poderia ter feito muito melhor se tivesse começado antes, se tivesse respeitado o meu próprio tempo.

O mais doloroso nem sequer é receber uma nota baixa. O mais difícil é olhar para aquele resultado e perceber que ele não traduz a nossa capacidade, mas sim o conjunto de escolhas adiadas, de oportunidades deixadas escapar. É lembrar que, enquanto eu dizia “faço amanhã”, outros estavam a avançar, a consolidar matéria, a ganhar confiança. E isso pesa.

Muitas pessoas acreditam que os estudantes procrastinam, porque não valorizam os estudos. Como se fosse falta de interesse ou de ambição. Contudo, essa ideia está longe da realidade. A maioria de nós sonha em concluir o curso, ter um emprego digno, proporcionar uma vida melhor à família e sentir orgulho pelo caminho percorrido. Mas entre esses sonhos e a realidade existem dificuldades que nem sempre são visíveis.

Há estudantes que trabalham durante o dia em cafés, lojas ou escritórios e chegam à noite já sem energia para abrir um livro. Outros percorrem longas distâncias em transportes cheios, de pé, cansados, antes mesmo de começarem as aulas. Muitos enfrentam dificuldades financeiras que transformam cada fotocópia, cada livro e cada refeição numa preocupação constante. Há ainda quem tenha responsabilidades familiares, quem cuide de irmãos mais novos, quem chegue à casa e ainda precise ajudar nas tarefas domésticas ou simplesmente estar presente para a família. E, no meio de tudo isto, o estudo acaba por ser empurrado para “quando der”, para “mais tarde”, para um amanhã que nem sempre chega.

Já vi colegas adormecerem em cima dos cadernos depois de um dia inteiro de trabalho. Já ouvi amigos dizerem “hoje não consigo, estou esgotado”, com um olhar que não é de preguiça, mas de cansaço profundo. E, também, já me vi nesse espelho, a tentar estudar enquanto a mente simplesmente não responde, como se as palavras passassem e não ficassem.

Foi precisamente nesses momentos em que compreendi que procrastinar nem sempre nasce da falta de vontade, mas muitas vezes do cansaço, da ansiedade e da pressão acumulada. Quanto mais adiava uma tarefa, maior era o sentimento de culpa. E quanto maior era a culpa, mais difícil se tornava começar, como se o simples acto de abrir o caderno se tornasse num peso enorme. Criava-se assim um ciclo silencioso, quase invisível, mas extremamente desgastante, em que o tempo passava e eu ficava preso entre a intenção e a acção, entre o “vou fazer” e o “não consigo começar agora”.

 

Escrito por: Tuaria Celestino Sitoe

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