Durante
muito tempo, acreditei que isto era apenas preguiça, uma falta de disciplina
que eu poderia resolver com mais força de vontade. Porém, à medida que fui
amadurecendo e observando melhor a minha própria rotina e a dos colegas à minha
volta, percebi que a procrastinação é muito mais do que adiar tarefas. Ela
representa uma luta constante entre aquilo que devemos fazer e aquilo que, no
momento, parece mais leve, mais fácil, quase reconfortante. É um conflito
silencioso que acompanha muitos estudantes e que, por vezes, passa despercebido
aos olhos de quem nunca o viveu.
Enquanto
estudante, já perdi a conta das vezes em que comecei um trabalho apenas na
véspera da entrega. Lembro-me de noites em que a casa inteira já dormia e eu
ainda estava sentado à mesa da cozinha, com o computador aberto, café frio ao
lado e os olhos a arder, tentando em poucas horas fazer o que deveria ter sido
construído ao longo de dias. Já senti o peso de ver o céu a clarear pela janela,
enquanto eu lutava contra o sono e contra a consciência de que poderia ter
evitado aquilo. E já entrei em salas de exame com o coração acelerado, não
apenas pela prova, mas pela amarga sensação de que poderia ter feito muito
melhor se tivesse começado antes, se tivesse respeitado o meu próprio tempo.
O
mais doloroso nem sequer é receber uma nota baixa. O mais difícil é olhar para
aquele resultado e perceber que ele não traduz a nossa capacidade, mas sim o
conjunto de escolhas adiadas, de oportunidades deixadas escapar. É lembrar que,
enquanto eu dizia “faço amanhã”, outros estavam a avançar, a consolidar
matéria, a ganhar confiança. E isso pesa.
Muitas
pessoas acreditam que os estudantes procrastinam, porque não valorizam os
estudos. Como se fosse falta de interesse ou de ambição. Contudo, essa ideia
está longe da realidade. A maioria de nós sonha em concluir o curso, ter um
emprego digno, proporcionar uma vida melhor à família e sentir orgulho pelo
caminho percorrido. Mas entre esses sonhos e a realidade existem dificuldades
que nem sempre são visíveis.
Há
estudantes que trabalham durante o dia em cafés, lojas ou escritórios e chegam
à noite já sem energia para abrir um livro. Outros percorrem longas distâncias
em transportes cheios, de pé, cansados, antes mesmo de começarem as aulas.
Muitos enfrentam dificuldades financeiras que transformam cada fotocópia, cada
livro e cada refeição numa preocupação constante. Há ainda quem tenha
responsabilidades familiares, quem cuide de irmãos mais novos, quem chegue à
casa e ainda precise ajudar nas tarefas domésticas ou simplesmente estar
presente para a família. E, no meio de tudo isto, o estudo acaba por ser
empurrado para “quando der”, para “mais tarde”, para um amanhã que nem sempre
chega.
Já
vi colegas adormecerem em cima dos cadernos depois de um dia inteiro de
trabalho. Já ouvi amigos dizerem “hoje não consigo, estou esgotado”, com um
olhar que não é de preguiça, mas de cansaço profundo. E, também, já me vi nesse
espelho, a tentar estudar enquanto a mente simplesmente não responde, como se
as palavras passassem e não ficassem.
Foi
precisamente nesses momentos em que compreendi que procrastinar nem sempre
nasce da falta de vontade, mas muitas vezes do cansaço, da ansiedade e da
pressão acumulada. Quanto mais adiava uma tarefa, maior era o sentimento de
culpa. E quanto maior era a culpa, mais difícil se tornava começar, como se o
simples acto de abrir o caderno se tornasse num peso enorme. Criava-se assim um
ciclo silencioso, quase invisível, mas extremamente desgastante, em que o tempo
passava e eu ficava preso entre a intenção e a acção, entre o “vou fazer” e o
“não consigo começar agora”.
Escrito
por: Tuaria Celestino Sitoe

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