O Misticismo em “O último voo do flamingo” de Mia Couto

“O último voo do Flamingo”, romance de Mia Couto. É uma obra em que se aborda o período pós-guerra civil em Moçambique, uma ficção sobre os tempos em que estiveram neste país soldados da ONU integrados na missão de manutenção de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária “ onde acontecimento era coisa que nunca sucedia, e que só “os factos são sobrenaturais”.
O narrador conta que, certo tempo depois de cessada a guerra em seu país, alguns soldados da ONU explodiram. “Simplesmente, começaram a explodir. Hoje, um. Amanhã, mais outro. Até somarem, todos descontados, a quantia de cinco falecidos” (COUTO, 2000, p. 10). Em circunstâncias que não são explicadas de forma plausível.
O livro começa com um facto inédito: um pénis é encontrado no meio da rua de Tizangara. Mais um soldado das Nações Unidas havia explodido e, o seu órgão genital, era o que havia restado dele.
E, desta forma, em todo o decorrer da estória prevalece o enigma. Subitamente, corpos de soldados estrangeiros que começam a explodir. Um oficial das Nações Unidas, o italiano Massimo Risi, é destacado para investigar o caso. Tudo é contado pelo tradutor, que é também narrador do romance, destacado pelos poderes oficiais da vila para acompanhar o italiano.
À medida que os factos se sucedem o foco narrativo é dedicado à outras personagens: Estêvão Jonas - o administrador da vila -, a velha-moça Temporina, a prostituta Ana Deusqueira, a Dona Ermelinda (esposa do administrador da vila), o Chupanga, o feiticeiro Zeca Andorinho e o velho Sulplício. Eles apresentam suas versões do facto (a súbita explosão dos soldados das Nações unidas), mas nada é constatado. O mistério prevalece durante todo o decorrer do romance, ficando assim, por parte do leitor, a seguinte pergunta: quais os motivos das mortes havidas naquela vila?
No entanto, diante de tanto mistério, após fazer a audição dos depoimentos gravados, ler relatórios e conversar com os habitantes de Tizangara, Massimo Risi não chega à conclusão nenhuma e, portanto, mostra-se descrente da credibilidade do relatório que irá apresentar às Nações Unidas, visto que este é recheado de misticismo que é fruto das indagações feitas pelas “testemunhas” dos actos, como se pode notar no seguinte excerto: “Tenho consciência que o presente relatório conduzirá à minha demissão dos quadros de consultores da ONU, mas não tenho alternativa senão relatar a realidade com que confronto” (COUTO, 2000, p. 77)

  
Ora, observa-se aqui que “O último voo do flamingo” é uma obra cercada de dualidades entre o real e imaginário, a verdade e o misticismo presentes em todos aspectos trazidos à tona na obra que, em linhas gerais, são relatos fidedignos da situação político-social vivida no período pós guerra em Moçambique, independentemente do sentido imaginário e/ou místico desta narrativa. Estas situações políticas, sociais e económicas do Moçambique pós guerra são apresentadas com recurso a um discurso revestido de ironia, modo de exprimir-se que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando ou sentindo (FERREIRA: 2004), que tem até certo ponto um carácter sarcástico devido ao recurso a um certo exagero no acto, como se pode notar em: “Na véspera de cada visita, nós todos, administradores, recebíamos a urgência: era preciso esconder os habitantes, varrer toda aquela pobreza” (COUTO, 2000, p. 27)
Portanto, nota-se aqui que, Mia Couto, ao serviço da ironia até certo ponto sarcástica, faz uma denúncia daquilo que são os “desmandos” da classe política.
Na íntegra o romance descore sobre o enigma das explosões dos soldados da ONU que estavam em Moçambique em missão de paz e, portanto, no meio de tal facto as personagens que ganham voz ao longo da narrativa fundamentam os acontecimentos de acordo com a sua percepção que por sua vez esta cercada de certo misticismo, note-se:” A casa de Hortênsia era importante para a missão. Tinham usado o grande casarão para alojar os soldados das Nações Unidas. Foi o administrador que decidiu contra vontade de todos. A casa era um lugar de espíritos. Não importava o que os soldados fizessem. Importava, sim, o que o lugar ia fazer aos inautorizados visitantes” (COUTO, 2000, p. 23)
No entanto, a partir deste excerto, nota-se que paira na vila de Tizangara uma “crença” segundo a qual a casa de Hortência era um lugar de espíritos e tais espíritos são portadores de certo poder e, cogita-se, por isso, a possibilidade de as explosões dos soldados ser obra de tais espíritos. Portanto, esta percepção é partilhada por todos moradores da vila, inclusive os mais instruídos, como ilustra o seguinte excerto, no qual o administrador da vila deixa transparecer a ideia de depositar alguma crença no misticismo partilhado pelos restantes moradores:
“há muita coisa escondida nestes silêncios africanos. Por baixo da base material do mundo devem de existir forças artesanais que não estão à mão de serem pensadas” (COUTO, 2000, p. 27)
Desta forma, dentro deste quadro de credibilidade dada ao místico, as personagens do romance procuram desmitificar o enigma que cerca a narrativa baseando-se em argumentos “fundamentados” pelo misticismo que descore em todo o romance, note-se no seguinte excerto em que Ana Deusqueira, afirma conhecer a razão das explosões:
“Os soldados estrangeiros explodem, sim, senhor. Não é que pisam em minas, não. Somos nós, mulheres, os engenhos explosivos. Ou já esqueceu as forças da terra?" (COUTO, 2000, p. 30).
Entretanto, Mia Couto, sendo um construtor da palavra, preocupado com a linguagem poética, acabando assim por transferir todo o seu potencial poético para a ficção (LARANJEIRA: 1995, p. 260), traz na sua obra o misticismo na voz de diferentes personagens, ao serviço duma linguagem que espelha aquilo que é a realidade linguística moçambicana (caracterizada pelo emprego de moçambicanismos[1]) e a sua própria estética no seu inventar de palavras, note-se:
“O motor nhenhenhou-se em tentativas sucessivamente frustradas. O representante do mundo, de janelas fechadas, esperava certamente uma mão generosa para tchovar a viatura.”
Note-se ainda em:
Jonas ria-se: ele não abusava; os outros é que não detinham poderes nenhuns. E repetia: cabrito come onde está amarrado.
Ou ainda: Tinha que chegar antes que ela desmundasse. (COUTO: 2000 p. 6, 11,17 )
Portanto, nota-se aqui que o autor usa vocábulos que, não existindo no português padrão seguido em Moçambique, caracterizam as tendências do português moçambicano e que se vão afirmando cada vês mais pois, segundo FIRMINO (2000):
Depois da independência, o uso do Português alargou-se e os sinais da sua «moçambicanização» expandiram-se. Enquanto o uso do português se alargava, os mecanismos que haviam contribuído para a aprendizagem e reforço do padrão linguístico se alteraram, dando origem à proliferação de novas formas linguísticas. Por exemplo, com a saída massiva de colonos reduziu significativamente a possibilidade de exposição dos aprendentes da língua portuguesa à norma europeia.
Portanto, Mia  Couto faz algumas inovações na língua portuguesa recorrendo a certos processos lexicais, semânticos e retóricos como: Empréstimos das línguas autóctones, Neologismos morfológicos (ex: tchovar), incorporação de imagens e metáforas do sistema cultural moçambicano, para se aumentar a expressividade, através do apelo às práticas e símbolos sócio-culturais tipicamente moçambicanos (ex: cabrito come onde está amarrado).
Todavia, a busca estilística em “o último voo do flamingo” revela-nos também que Mia Couto, faz o uso de aforismos[2], fazendo assim a desconstrução de provérbios e ditos populares (ex: “contra os factos tudo são argumentos”) ou ainda (ex: Mudam-se os tempos, desnudam-se as vontades). Ainda no domínio da linguagem, nota-se por parte do autor o recurso a comparações e à ironia com tom, até certo ponto, rude e humorístico. Note-se:
“ele se mostrava ainda vaidoso, peito mais arredondado que o pombo em arrasto de asa.” (…)

“E logo despachou mandamentos, em trejeitos militares, não fossem os estrangeiros pensar que o martelo não tinha cabo” (COUTO: 2000 p. 9)

Duma forma geral o romance “O Último Vôo do Flamingo” discute, numa construção textual repleta de enigmas, o período pós guerra civil em Moçambique trazendo à tona todos os aspectos que lhe são inerentes, desde os fenómenos políticos (que mereceram pouca abordagem nesta análise devido à linha de análise definida) e sociais (que afiguraram-se o maior sustentáculo desta análise, visto que o tema abordado esta iminentemente ligado ao factor social da moçambicanidade e do próprio país no período histórico supracitado), numa busca do demonstrar daquilo que é o desabrochar da cultura moçambicana (que por motivos de ordem histórica foi submissa), sem deixar de lado as suas crenças, as suas superstições que dum ou doutro modo constroem o carácter híbrido da moçambicaniade.
Portanto, ao abordar o misticismo, Mia Couto revela-se um autêntico inventor de palavras e conhecedor da realidade do “português moçambicano”, no que concerne aos seus dialéctos em geral mostrando de forma clara as influências que as línguas autótenes têm sobre a língua portuguesa, facto que o distancia o português falado em Moçambique do português padrão teoricamente seguido e leccionado nas escolas.  Portanto, diante deste facto inegável, torna-se pertinente para os professores de língua portuguesa, em particular, a tomada de consciência desta realidade que o português em Moçambique apresenta. Querendo isto significar que deve se acautelar a qualquer tipo de alusão a um padrão que só existe na teoria, visto que a realidade tende a ser outra, como afirma ROSÁRIO (1982: 65):
“O traumatismo do «Pretoguês[3]» foi desaparecendo e hoje qualquer cidadão faz questão de se exprimir correctamente em Português e quantos deles, sendo responsáveis de sectores, não fazem brilhantes intervenções numa expressão recheada de neologismos de momento, estruturas totalmente novas e alheias à língua…”



[1] Modismo próprio da linguagem dos moçambicanos.
[2] Sentença moral breve e conceituosa.
[3] Designação pejorativa do português com marcas moçambicanas.

Hermenegildo Mondlane em 24 de julho de 2012 às 02:35

Oi, Elísuo. não me surpreende este ensaio, pois, isto é tua marca. Só quem não t conhece se pode espantar. Este atrevimento de discorar sobre Mia, é prova evidente da magnitude da tua capacidade de discutir não só a literatura (ao analisares o misticismo na obra) mas também a linguística em si (ao mencionares os neologismos e moçambicanismos trazidos por este brincriador que se chama choro do gato). Estás de parabéns, mano.

Elisio Miambo em 24 de julho de 2012 às 06:58

Meu irmão, por estes e outros dizeres sobre minhas "especulações" que por aqui páiram, preciso dizer nada mais, nada menos que um sincero OBRIGADO.
E, se é verdade que o coração tem fundo, receba os meus agradecimentos provindos do fundo do coração de mim. Abraço!

Elisio Miambo em 24 de julho de 2012 às 06:59
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Elisio Miambo em 24 de julho de 2012 às 06:59
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