Os livros demonstram o impacto devastador da falta de compaixão e da desumanização, revelando a luta dos personagens para encontrar sentido e dignidade em suas vidas. Nas novelas, as personagens principais actuam como pontes que conectam o leitor à narrativa, revelando temas centrais e a complexidade do mundo fictício. Através de suas reacções, pensamentos e acções, essas personagens manifestam identidades únicas e revelam os conflitos que enfrentam em um ambiente que as molda.
As personagens das duas obras são desumanizadas e perdem as suas identidades. Gregor começa a ser tratado como um estorvo pela família, o amor e cuidado anteriores desaparecem à medida que ele se torna “improductivo”. De forma semelhante, em Nós Matamos o Cão Tinhoso, as crianças internalizam as atitudes opressoras e, ao final, matam o cão como uma maneira de se proteger de uma ameaça simbólica, que, na verdade, representa a brutalidade da realidade em que viviam.
As novelas exploram como o meio social transforma o comportamento
dos indivíduos, seja de maneira consciente, como no caso das crianças
influenciadas pelo medo e pela violência, ou de forma inconsciente, como
Gregor, que se vê alienado pela própria família. Em ambas as obras, as
personagens principais são introduzidas com características identitárias,
configurando suas trajectórias na narrativa. Em A Metamorfose,
Gregor Samsa é apresentado como um caixeiro-viajante dedicado, que trabalha
arduamente para sustentar a família. Sua dedicação e seu senso de dever mostram
uma personalidade submissa e sacrificante, um retrato de um homem que se anulou
por causa das expectativas familiares e sociais. Essa introdução de Gregor
constrói a base para a sua transformação, revelando uma identidade que já se
encontrava alienada antes mesmo da metamorfose.
Em Nós Matamos o Cão Tinhoso, o narrador, uma criança,
introduz um grupo de meninos que crescem em uma sociedade colonial marcada por
violência e pobreza. Desde o início, essas personagens são influenciadas pelo
medo e pela dureza do ambiente, o que contribui para o seu comportamento colectivo
e prepara o leitor para as decisões difíceis que serão tomadas ao longo da
narrativa. Esse primeiro contacto com as personagens demonstra uma inocência
ainda intacta, mas já sob ameaça, reflectindo o impacto do ambiente opressor.
Os conflitos e desafios que as personagens enfrentam representam
momentos decisivos de manifestação de sua identidade. Em A Metamorfose,
Gregor, ao se ver transformado em um insecto, é confrontado pela reacção de sua
família, que passa a rejeitá-lo e a tratá-lo como uma criatura indesejável. A
transformação de Gregor não é apenas física. Ela é uma metáfora para sua
exclusão e desumanização. Ao lidar com essa rejeição, Gregor luta para manter
uma sensação de dignidade e busca retomar o papel de provedor, revelando a
extensão de seu desejo de pertencimento e reconhecimento, mesmo em uma situação
absurda e degradante.
Da mesma forma, em Nós Matamos o Cão Tinhoso, o grupo
de crianças enfrenta o desafio moral de matar o cão doente e perigoso que
aterroriza a comunidade. Embora vejam o cão como uma ameaça, o acto de matá-lo
confronta sua inocência e o senso de compaixão. Para essas crianças, o desafio
de matar o cão revela a perda de sua própria humanidade e inocência, à medida
que são levadas a agir com brutalidade para sobreviver. Esse dilema evidencia a
forma como o ambiente opressor molda a visão de mundo das personagens e
distorce suas reacções naturais.
Escrito por: Begnen Zaqueu Gungunhana

Lembro-me de ter discutido, durante uma das minhas aulas de Literatura Moçambicana com o Dr. Alberto Cuambe – a premissa por detrás da narrativa de L.B. Honwana, e também, tendo bebido um pouco do gin da Kafkeano (perdoe a escolha lexical), em Metamorfose, consigo talvez, tecer alguma reacção.
ResponderEliminarOlha, posso dizer há uma intersecção precisa, maz leve; pois peca por nivelar alienações distintas.
Em Kafka, Gregor é um mártir passivo porque mantém a consciência humana até ao fim, apagado pelos outros. Diferente do Honwana, onde as crianças executam activamente a própria desumanização para sobreviver. Não é perda de identidade, é auto-aniquilação como rito de pertença, sendo o horror do colonizado é mais activo e mais cruel.