segunda-feira, 20 de julho de 2026

A intersecção entre a identidade e a consciência das personagens principais em "A Metamorfose" de Franz Kafka e "Nós Matamos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana

Os livros A Metamorfose e Nós Matamos o Cão Tinhoso reflectem como o contexto social, as expectativas e pressões familiares e comunitárias podem transformar o comportamento do personagem, levando-os à perda da identidade e à alienação. Enquanto Kafka aborda a alienação da personagem em um contexto familiar, Honwana explora a alienação colectiva em uma sociedade colonizada, onde a violência e a opressão são naturalizadas e internalizadas. 

Os livros demonstram o impacto devastador da falta de compaixão e da desumanização, revelando a luta dos personagens para encontrar sentido e dignidade em suas vidas. Nas novelas, as personagens principais actuam como pontes que conectam o leitor à narrativa, revelando temas centrais e a complexidade do mundo fictício. Através de suas reacções, pensamentos e acções, essas personagens manifestam identidades únicas e revelam os conflitos que enfrentam em um ambiente que as molda.

As personagens das duas obras são desumanizadas e perdem as suas identidades. Gregor começa a ser tratado como um estorvo pela família, o amor e cuidado anteriores desaparecem à medida que ele se torna “improductivo”. De forma semelhante, em Nós Matamos o Cão Tinhoso, as crianças internalizam as atitudes opressoras e, ao final, matam o cão como uma maneira de se proteger de uma ameaça simbólica, que, na verdade, representa a brutalidade da realidade em que viviam.

As novelas exploram como o meio social transforma o comportamento dos indivíduos, seja de maneira consciente, como no caso das crianças influenciadas pelo medo e pela violência, ou de forma inconsciente, como Gregor, que se vê alienado pela própria família. Em ambas as obras, as personagens principais são introduzidas com características identitárias, configurando suas trajectórias na narrativa. Em A Metamorfose, Gregor Samsa é apresentado como um caixeiro-viajante dedicado, que trabalha arduamente para sustentar a família. Sua dedicação e seu senso de dever mostram uma personalidade submissa e sacrificante, um retrato de um homem que se anulou por causa das expectativas familiares e sociais. Essa introdução de Gregor constrói a base para a sua transformação, revelando uma identidade que já se encontrava alienada antes mesmo da metamorfose.

Em Nós Matamos o Cão Tinhoso, o narrador, uma criança, introduz um grupo de meninos que crescem em uma sociedade colonial marcada por violência e pobreza. Desde o início, essas personagens são influenciadas pelo medo e pela dureza do ambiente, o que contribui para o seu comportamento colectivo e prepara o leitor para as decisões difíceis que serão tomadas ao longo da narrativa. Esse primeiro contacto com as personagens demonstra uma inocência ainda intacta, mas já sob ameaça, reflectindo o impacto do ambiente opressor.

Os conflitos e desafios que as personagens enfrentam representam momentos decisivos de manifestação de sua identidade. Em A Metamorfose, Gregor, ao se ver transformado em um insecto, é confrontado pela reacção de sua família, que passa a rejeitá-lo e a tratá-lo como uma criatura indesejável. A transformação de Gregor não é apenas física. Ela é uma metáfora para sua exclusão e desumanização. Ao lidar com essa rejeição, Gregor luta para manter uma sensação de dignidade e busca retomar o papel de provedor, revelando a extensão de seu desejo de pertencimento e reconhecimento, mesmo em uma situação absurda e degradante.

Da mesma forma, em Nós Matamos o Cão Tinhoso, o grupo de crianças enfrenta o desafio moral de matar o cão doente e perigoso que aterroriza a comunidade. Embora vejam o cão como uma ameaça, o acto de matá-lo confronta sua inocência e o senso de compaixão. Para essas crianças, o desafio de matar o cão revela a perda de sua própria humanidade e inocência, à medida que são levadas a agir com brutalidade para sobreviver. Esse dilema evidencia a forma como o ambiente opressor molda a visão de mundo das personagens e distorce suas reacções naturais.

Escrito por: Begnen Zaqueu Gungunhana


1 comentário:

  1. Lembro-me de ter discutido, durante uma das minhas aulas de Literatura Moçambicana com o Dr. Alberto Cuambe – a premissa por detrás da narrativa de L.B. Honwana, e também, tendo bebido um pouco do gin da Kafkeano (perdoe a escolha lexical), em Metamorfose, consigo talvez, tecer alguma reacção.

    Olha, posso dizer há uma intersecção precisa, maz leve; pois peca por nivelar alienações distintas.

    Em Kafka, Gregor é um mártir passivo porque mantém a consciência humana até ao fim, apagado pelos outros. Diferente do Honwana, onde as crianças executam activamente a própria desumanização para sobreviver. Não é perda de identidade, é auto-aniquilação como rito de pertença, sendo o horror do colonizado é mais activo e mais cruel.

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