segunda-feira, 20 de julho de 2026

A problemática da conceituação do verso: uma abordagem dialéctica baseada em “no dorso da sombra” de Hera de Jesus e “é preciso escrever para não adoecer” de Pedro Pereira Lopes

Nos estudos sobre versificação, constatou-se a existência de divergências significativas na definição do verso, sobretudo no que diz respeito ao número de palavras que o constituem. Deste modo pretende-se discutir o conceito de verso. Para a concretização deste propósito, pondera-se: (i) analisar as diferentes conceituações de verso; e (ii) ilustrar, com base em textos poéticos, a aplicação dessas concepções.

Bechara (2009) define o verso como “o conjunto de palavras que formam, dentro de qualquer número de sílabas, uma unidade fónica sujeita a um determinado ritmo” (p. 534).

Segundo Garcia (2010) o verso “é a unidade rítmica do poema, podendo ter uma só palavra ou um conjunto delas. Graficamente, constitui uma linha de sentido completo ou não; sensorialmente, produz um ritmo” (p. 37).

Tal como se pode observar nas concepções apresentadas, Bechara (2009) define o verso como um conjunto de palavras que constitui uma unidade fónica sujeita a um determinado ritmo. Por sua vez, Garcia (2010) partilha essa concepção, mas acrescenta que o verso pode ser constituído não apenas por um conjunto de palavras, mas também por uma única palavra. Assim, ambos os autores convergem ao considerar o ritmo como um elemento essencial do verso, divergindo apenas quanto à sua constituição.

Embora não seja nossa intenção reflectir sobre outros elementos que compõem o texto poético, como as estrofes, consideramos que os conceitos de estrofe apresentados a seguir reflectem o entendimento dos autores sobre o verso.

Para Bechara (2009) “o poema pode conter dois ou mais versos, os quais se agrupam para formar uma estrofe” (p. 548).

Cunha e Cintra (2001) afirmam que a estrofe “é um agrupamento rítmico formado por dois ou mais versos que, em geral, se combinam pela rima” (p. 465).

Segundo Garcia (2010) “um verso isolado ou um conjunto de versos demarcados por uma pausa e por um espaçamento gráfico, formando uma unidade rítmica e psicológica, constitui uma estrofe” (p. 41).

Para compreendermos as posições apresentadas pelos autores: Becharra (2009), Cunha e Cintra (2001), Garcia (2010) e Ribeirro et al. (2015) se manifestam em textos poéticos, tomaremos como base os poemas de Hera de Jesus, em “No dorso da sombra” (pp. 10, 19 e 69) e de Pedro Pereira Lopes, em “Mundo Blue (ou o poema em quarentena)” (p. 50).

Antes de avançarmos, importa realçar que tanto Becharra (2008) como Garcia (2010) consideram o verso uma unidade rítmica, isto é, podemos considerar este aspecto como crucial e indispensável na definição do verso, pois independentemente do número de palavras que constitui um verso o ritmo sempre estará presente na sua composição.

Geralmente, os textos poéticos são compostos por versos formados por um conjunto de palavras. É nesse sentido que entendemos que Bechara (2009) concebe o verso como sendo exclusivamente dotado dessa característica. No entanto, ao assumir o verso nesse viés, o autor deixa de fora versos formados por uma única palavra, isto é, por uma a unidade mínima.

Importa destacar que, na nossa abordagem, a palavra é entendida dentro do campo da Morfologia, tal como sustentam Ribeiro et al. (2015) sendo concebida como uma unidade gráfica e fonológica, com significado ou função gramatical, pertencente a uma determinada categoria.

Nesta perspectiva, pensamos que a concepção de Bechara (2009) pode ser enquadrada nas estruturas clássicas, isto é, na poesia produzida de acordo com padrões caracterizados por formas fixas que seguem regras específicas quanto ao número de versos, ao número de sílabas poéticas e à sua disposição, entre outros aspectos. Exemplos disso são as formas como o Soneto, a Balada, o Hino, a Elegia, entre outras, cuja rigidez estrutural não pode ser ignorada. Por essa razão, os autores que escrevem nesses moldes seguem regras previamente estabelecidas de acordo com a forma escolhida, em outras palavras, essa rigidez não abre espaço para que o autor possa formar um texto com um verso formado por uma única palavra.

Por seu turno, Garcia (2010) apresenta um conceito que podemos considerar mais completo, mas não de forma universal (aspecto que será retomado mais adiante). Por agora, importa destacar que, tal como Bechara (2009) o autor admite que o verso pode ser formado por um conjunto de palavras. Vejamos este aspecto na primeira estrofe do texto de Jesus (2025, p. 69):

Os feixes densos do sol

atravessam as cortinas

e se diluem no espaço difuso.”

Podemos observar que a estrofe é constituída por três (3) versos formados por um conjunto de palavras. No entanto, Garcia (2010) diferentemente de Bechara (2009) não exclui a possibilidade de o verso ser constituído por uma única palavra. Como podemos observar nas sequências de versos ilustradas abaixo, retiradas na primeira estrofe do texto de Jesus (2025, p. 10):

“Aqueles

olhos

cantavam

canções

tão

fúnebres.”

Podemos verificar que a estrofe é constituída por seis (6) versos formados por uma única palavra.

O entendimento de Bechara (2009), vai além da conceituação do verso, abrangendo também o conceito de estrofe, vista como um agrupamento de dois ou mais versos, posição igualmente partilhada por Cunha e Cintra (2001). Assim, a estrofe não pode ser formada por um único verso. Para os autores, só teremos estrofes em sequências como:

“A sombra de um rosto circunspecto

projecta-se nas paredes

ensebadas de palavras.”

 

“Promessas, algum destino previsto.

O rosto não beija

a figura da mulata,

cravada na parede.”

Por seu turno, Garcia (2010) argumenta a favor dos autores referidos acima ao defender que a estrofe pode ser constituída por um conjunto de versos demarcados por um espaçamento gráfico; no entanto, diverge ao incluir na sua definição a possibilidade de existirem estrofes formadas por uma única palavra, tal como podemos observar no excerto abaixo:

carregados

de dor e de luto.

 

Partiste.

 

Nasceu,

em mim,

um coração

fúnebre e inóspito.”

Nestas estrofes, do texto de Jesus (2025, p. 19), observamos que a terceira estrofe é constituída apenas por uma única palavra, demarcada por um espaçamento gráfico que a separa das outras estrofes.

Em linhas gerais, no que diz respeito ao conceito de verso e estrofe, acreditamos que autores como Bechara (2009) e Cunha e Cintra (2001) estão mais ligados à poesia clássica, enquanto Garcia (2010) engloba tanto a poesia clássica (geralmente estruturada em versos compostos por várias palavras) quanto à poesia moderna, cuja principal característica é o rompimento das estruturas fixas, conferindo maior liberdade ao autor na segmentação do texto. Essa concepção manifesta-se também no conceito de estrofe apresentado por Garcia (2010) que contempla a possibilidade de um verso isolado constituir uma estrofe.

Retomando ao aspecto que nos leva a não considerar a concepção de Garcia (2010) como universal, destaca-se o facto de existirem versos que não são formados nem por um conjunto de palavras nem por uma única palavra, tal como podemos observar na estrofe do texto de Lopes (2020, p. 50):

não são lágrimas

o mar sai pelos

o-

lhos.”

Neste caso, o terceiro verso é formado por uma vogal “o”, que faz parte da palavra “olhos”; no entanto, encontra-se dividida e ocupando dois versos. Assim, acreditamos que a escolha de estruturação destes versos justifica-se pela liberdade que o autor dispõe na segmentação do texto dentro das estruturas modernas.

Importa ainda destacar que a concepção de verso como unidade mínima não implica ausência de estruturação ou de organização. Pelo contrário, exige do leitor uma maior participação interpretativa, uma vez que o sentido não está explicitamente desenvolvido, mas sugerido. Assim, o verso deve ser entendido como uma unidade multifacetada, capaz de assumir diferentes formas conforme o contexto histórico, estético e discursivo. Reduzi-lo a uma definição rígida seria ignorar a riqueza e a diversidade da linguagem poética.

Em linhas gerais, no presente texto procurou-se discutir a problemática da conceituação do verso, tendo em conta as diferentes perspectivas teóricas que o definem ora como um conjunto de palavras, ora como uma unidade mínima. A análise permitiu constatar que não existe uma definição única e consensual de verso. Autores como Bechara (2009) e Cunha e Cintra (2001) tendem a associá-lo a estruturas mais tradicionais, geralmente compostas por um conjunto de palavras organizadas segundo padrões rítmicos e formais. Por outro lado, Garcia (2010) apresenta uma visão mais abrangente, admitindo a possibilidade de o verso ser constituído por uma única palavra, aproximando-se das práticas da poesia moderna. Verificou-se ainda que essas concepções estão directamente relacionadas com os contextos estéticos e históricos da produção poética. A poesia clássica privilegia estruturas fixas, a poesia moderna caracteriza-se pela liberdade formal. Além disso, a análise evidenciou formas mais complexas de verso, como a fragmentação de palavras, o que desafia tanto as definições tradicionais quanto as mais abrangentes. Deste modo, conclui-se que o verso deve ser entendido como uma unidade dinâmica e multifacetada, cuja definição depende do contexto em que se insere, não devendo ser reduzido a uma única perspectiva.

 

Escrito por: Figo Flávio Macaringue

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