O recurso ao erotismo como forma de expressão de vários sentimentos, emoções e ideias tem-se tornado uma tendência bastante notável na literatura moçambicana. Olhando para esse pressuposto, julgamos que, de certa forma, o erotismo permite uma abordagem da sexualidade feminina de forma mais aberta, desafiando normas sociais e culturais que frequentemente silenciaram a expressão sexual e dos desejos da mulher.
Neste texto, procuramos, de um modo geral, compreender
como o erotismo pode ser um recurso que expressa autonomia da mulher em
“Proibido” de Franklin Gravata. Para alcançarmos este propósito, iremos: (i) definir
o erotismo na perspectiva de vários autores; (ii) discutir a presença do
erotismo na literatura; e (iii) analisar os traços do erotismo no texto
“Proibido” de Franklin Gravata.
Durigan (1985) refere que o termo erotismo deriva de “Eros” (Deus do amor), e é uma representação cultural que organiza o desejo sexual de actores visando a atualização do princípio do prazer (p.92).
Conforme
fizemos menção anteriormente, em várias obras literárias o erotismo tem sido
usado como mecanismo de expressão de ideias, sentimentos e muito mais. Por isso,
além de trazer os conceitos do erotismo, é pertinente que façamos uma reflexão
em torno da sua presença na literatura. Adicionalmente, estudar e reflectir em
torno deste aspecto, não se trata apenas da análise de textos, mas da
compreensão de um discurso que, ao longo do tempo, tem desempenhado um papel fundamental
na definição e redefinição das concepções socioculturais em torno da figura
feminina.
Sobre
a presença do erotismo na literatura, Morávia et al. (2014) defendem que há uma diferença na abordagem deste
fenómeno na literatura moderna. Contrariamente à literatura pagã, este não
nasce de um facto natural, mas de um processo de liberação das proibições e dos
tabus preexistentes (p.7).
Por
sua vez, Branco (1984) advoga que:
“O erotismo se estabelece como uma forma
de articular desejos que vão além do físico, isso porque o erotismo desafia as
classificações rígidas do comportamento humano, se tornando um espaço onde se
podem questionar tabus, expressar desejos e explorar a essência do que
significa ser humano em uma sociedade que muitas vezes reprime ou distorce a
sexualidade” (p. 72).
Estas
abordagens levam-nos a deduzir que, por um lado, a presença do erotismo na
literatura pode ser uma estratégia de resistência contra as concepções
culturais que tornam a mulher numa figura passiva, que não participa do
processo de tomada de decisão. Por outro lado, o erotismo na literatura pode
servir como uma poderosa crítica social. Por exemplo, Bataille (1987), nas suas
reflexões sobre a transgressão, ilustra como o erotismo pode ser uma forma de
resistência contra estruturas sociais opressivas. Através da exploração dos
limites do desejo e da sexualidade, a literatura erótica pode questionar o
estatuto de género, classe e moralidade, desafiando o paradigma e propondo novas
formas de ver a sexualidade. Ademais, pode ser utilizada para representar a
mulher como uma figura inferior e simples objecto de prazer. Deste modo, podemos
perceber que o erotismo é um recurso que utilizado com diferentes objectivos,
muitas vezes permeadas por ideologias sexistas.
O
erotismo como mecanismo de expressão da autonomia da mulher em “proibido” de
Franklin Gravata
O
livro “Sereia do Zambeze” é uma obra do escritor moçambicano Franklin Gravata,
dividida em quatro capítulos. Em uma parte considerável dos seus textos,
encontramos uma temática de descrição e exaltação da mulher moçambicana (como é
o caso do texto da página 26, “Ébano”), e no texto intitulado “Proibido”, que é
nosso objecto de análise. Nos textos aludidos, a mulher aparece como figura
central, mas encontramos traços significativos de erotismo desde o primeiro até
ao último verso. E, para este caso, o erotismo é utilizado como mecanismo de
expressão da autonomia da mulher.
Logo
no início do texto, a mulher manifesta o desejo de que um homem invada a sua
casa de madrugada, se deite na sua cama e a possua durante a noite. De seguida,
encontramos uma alusão ao Kamasutra, um antigo livro indiano que retrata vários
aspectos do amor, da vida e do relacionamento entre homens e mulheres. Contudo,
maior parte da obra é sobre posições sexuais.
Na
sua obra intitulada o “erotismo”, Bataille (1987) defende que falar de erotismo
ou de coisas que são sexualmente insinuantes é um acto socialmente
envergonhado, e a perspectiva sexual de Kamasutra vai contra as concepções
culturais habituais sobre o sexo, pois está lá patente o erotismo desde a
dimensão da linguagem, prazer corporal, dicas de conexão emocional durante o
sexo, etc.
Em
“proibido”, faz-se menção ao kamasutra, colocando a mulher numa circunstância
em que demonstra disposição para romper com dogmas socioculturais e transmite a
ideia de ser uma figura autónoma e com poder decisivo sobre o prazer próprio, conforme
se pode ler em:
“excitada,
ensinas-me que quando um cupido está louco”
“a uma mulher não
se pode dar pouco”
Neste
trecho, a mulher assume estar excitada, isto é, ela reconhece o seu próprio
desejo intenso, que, tradicionalmente, é ignorado. Ao expressar esse sentimento,
ela assume a posição de sujeito e não objecto do desejo, o que transcende a
simples reivindicação da autonomia sexual, carregando, também, uma expressão de
autonomia em vários campos da vida, ou seja, é como se a mulher estivesse a
dizer que também tem ideias, pontos de vista, tem uma visão e pode contribuir.
A
abordagem de Bataile (1987) segundo a qual o erotismo é a transgressão de
limites, mostra-se verdadeira neste texto, pois podemos constatar que o sujeito
poético afirma que “a uma mulher não se pode dar pouco”, e esta é uma marca do
erotismo, pois o este configura o excesso, a intensidade, o exagero. A mulher
do texto não se contenta com pouco prazer, e não dá nada menos do que a
satisfação do seu desejo na plenitude. Esta expressão evidencia o facto de que
a mulher reconhece na totalidade o seu valor, pois tradicionalmente deve
aceitar o que lhe é imposto e dado pela sociedade.
Identificamos
outras marcas do erotismo na seguinte passagem textual:
“Hoje, esta noite,
quero que te aposses deste corpo
com a mesma gula com que o meu
marido engole
seus copos,
que ele veja como me tomas,
como é teu o meu corpo,
como não me controlo,
como gemo, como grito e como
choro….”
Em
várias sociedades, o homem é que é responsável pela vida sexual de um casal, e
a mulher tem somente a missão de satisfazer os desejos do parceiro. Se ela está
satisfeita, disposta ou não é uma questão que não é passível de discussão. No
entanto, nesta passagem encontramos uma ruptura com esta forma de pensar, pois o
sujeito poético demonstra autonomia ao expressar a vontade de não depender
exclusivamente do marido para ter o seu desejo sexual satisfeito. Diferentemente
da concepção tradicional, aqui (1) é a mulher que diz quando a relação sexual
deve ocorrer- Hoje, esta noite-; (2) é
a mulher que diz como quer que o seu desejo seja satisfeito- quero
que te aposses deste corpo.
Ao
afirmar “que ele veja’’, a mulher quebra o paradigma da submissão, usa o
próprio corpo para lançar um desafio à autoridade do marido e correr atrás da
satisfação do seu desejo. Constantemente, o sujeito poético recorre a uma forma
verbal que não expressa um pedido ou solicitação (quero), mas uma ordem directa daquilo que o alocutário deve fazer.
De facto, assume-se que a mulher é a figura principal, aquela que dita como e
quando as coisas devem ser feitas, e, consequentemente, o que será feito não
representará a vontade do homem, mas da mulher.
Tal
como atestam os versos abaixo, os traços do erotismo continuam visíveis no
texto:
“quero que ele saiba
que me falta, aquele aperto no
rabo,
a mordida na orelha,
uma lambida rápida, eu ainda não
sou velha
quero ouvir aquelas palavras,
quero falar aquelas palavras
quero amar e ser amada, como uma
louca
Uma égua montada em incessante
cavalgada”
Conforme
se pode notar, estas são as marcas mais vivas do erotismo neste texto. Considerando
que uma das características do erotismo é a manifestação do desejo através da
linguagem, podemos entender que o relato do sujeito poético usa uma linguagem
erótica que conduz qualquer leitor a criar uma imagem mental dos acontecimentos
narrados. Por exemplo: “aperto no
rabo, mordida na orelha, lambida rápida, uma égua montada em incessante
cavalgada” são expressões que indiciam erotismo no texto, e, ao mesmo
tempo, mostram que a mulher sabe na plenitude o que quer para se sentir
satisfeita.
Em alguns textos, o erotismo pode ser um recurso de
expressão da feminilidade (como em “o perfume do pecado” de Matilde Chabana),
da objectificação da mulher (como em “Querida Puta” de Dom Midó das Dores in “Metamiserismo”), mas, neste texto,
acreditamos que todas as marcas do erotismo que identificamos constituem um
recurso de expressão da autonomia da mulher, pois representam o corpo como um lugar
da sua própria voz, e ela não fala como um objecto passivo, mas expressa o que
quer e o que sente. Assim, isso expressa autonomia sobre o próprio prazer e
sobre o próprio corpo (o que podemos designar de autonomia corporal). No
entanto, acreditamos que estas marcas vão além da expressão da simples
autonomia corporal. Expressam, também, uma autonomia completa, uma negação da
ordem tradicional na qual a mulher não é dona de si, não pode desejar, opinar
ou sugerir, apenas deve reagir aos desejos do homem. Deste modo, percebe-se que
a mulher transita de uma concepção sexista em que era tomada como objecto
passivo e, através do erotismo, assume o poder sobre si própria. Em primeira
instância, trata-se de mera assunção corporal, mas, em seguida, nota-se que se
trata de uma autonomia da mulher em todas as dimensões (económica, política, social,
etc.).
Escrito por: César Zacarias Massingue

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