sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O erotismo como mecanismo de expressão da autonomia da mulher em “proibido” de Franklin Gravata

O recurso ao erotismo como forma de expressão de vários sentimentos, emoções e ideias tem-se tornado uma tendência bastante notável na literatura moçambicana. Olhando para esse pressuposto, julgamos que, de certa forma, o erotismo permite uma abordagem da sexualidade feminina de forma mais aberta, desafiando normas sociais e culturais que frequentemente silenciaram a expressão sexual e dos desejos da mulher.

Neste texto, procuramos, de um modo geral, compreender como o erotismo pode ser um recurso que expressa autonomia da mulher em “Proibido” de Franklin Gravata. Para alcançarmos este propósito, iremos: (i) definir o erotismo na perspectiva de vários autores; (ii) discutir a presença do erotismo na literatura; e (iii) analisar os traços do erotismo no texto “Proibido” de Franklin Gravata.

Durigan (1985) refere que o termo erotismo deriva de “Eros” (Deus do amor), e é uma representação cultural que organiza o desejo sexual de actores visando a atualização do princípio do prazer (p.92).

Conforme fizemos menção anteriormente, em várias obras literárias o erotismo tem sido usado como mecanismo de expressão de ideias, sentimentos e muito mais. Por isso, além de trazer os conceitos do erotismo, é pertinente que façamos uma reflexão em torno da sua presença na literatura. Adicionalmente, estudar e reflectir em torno deste aspecto, não se trata apenas da análise de textos, mas da compreensão de um discurso que, ao longo do tempo, tem desempenhado um papel fundamental na definição e redefinição das concepções socioculturais em torno da figura feminina.

Sobre a presença do erotismo na literatura, Morávia et al. (2014) defendem que há uma diferença na abordagem deste fenómeno na literatura moderna. Contrariamente à literatura pagã, este não nasce de um facto natural, mas de um processo de liberação das proibições e dos tabus preexistentes (p.7).

Por sua vez, Branco (1984) advoga que:

“O erotismo se estabelece como uma forma de articular desejos que vão além do físico, isso porque o erotismo desafia as classificações rígidas do comportamento humano, se tornando um espaço onde se podem questionar tabus, expressar desejos e explorar a essência do que significa ser humano em uma sociedade que muitas vezes reprime ou distorce a sexualidade” (p. 72).

Estas abordagens levam-nos a deduzir que, por um lado, a presença do erotismo na literatura pode ser uma estratégia de resistência contra as concepções culturais que tornam a mulher numa figura passiva, que não participa do processo de tomada de decisão. Por outro lado, o erotismo na literatura pode servir como uma poderosa crítica social. Por exemplo, Bataille (1987), nas suas reflexões sobre a transgressão, ilustra como o erotismo pode ser uma forma de resistência contra estruturas sociais opressivas. Através da exploração dos limites do desejo e da sexualidade, a literatura erótica pode questionar o estatuto de género, classe e moralidade, desafiando o paradigma e propondo novas formas de ver a sexualidade. Ademais, pode ser utilizada para representar a mulher como uma figura inferior e simples objecto de prazer. Deste modo, podemos perceber que o erotismo é um recurso que utilizado com diferentes objectivos, muitas vezes permeadas por ideologias sexistas.

O erotismo como mecanismo de expressão da autonomia da mulher em “proibido” de Franklin Gravata

O livro “Sereia do Zambeze” é uma obra do escritor moçambicano Franklin Gravata, dividida em quatro capítulos. Em uma parte considerável dos seus textos, encontramos uma temática de descrição e exaltação da mulher moçambicana (como é o caso do texto da página 26, “Ébano”), e no texto intitulado “Proibido”, que é nosso objecto de análise. Nos textos aludidos, a mulher aparece como figura central, mas encontramos traços significativos de erotismo desde o primeiro até ao último verso. E, para este caso, o erotismo é utilizado como mecanismo de expressão da autonomia da mulher.

Logo no início do texto, a mulher manifesta o desejo de que um homem invada a sua casa de madrugada, se deite na sua cama e a possua durante a noite. De seguida, encontramos uma alusão ao Kamasutra, um antigo livro indiano que retrata vários aspectos do amor, da vida e do relacionamento entre homens e mulheres. Contudo, maior parte da obra é sobre posições sexuais.

Na sua obra intitulada o “erotismo”, Bataille (1987) defende que falar de erotismo ou de coisas que são sexualmente insinuantes é um acto socialmente envergonhado, e a perspectiva sexual de Kamasutra vai contra as concepções culturais habituais sobre o sexo, pois está lá patente o erotismo desde a dimensão da linguagem, prazer corporal, dicas de conexão emocional durante o sexo, etc.

Em “proibido”, faz-se menção ao kamasutra, colocando a mulher numa circunstância em que demonstra disposição para romper com dogmas socioculturais e transmite a ideia de ser uma figura autónoma e com poder decisivo sobre o prazer próprio, conforme se pode ler em:

“excitada, ensinas-me que quando um cupido está louco”

“a uma mulher não se pode dar pouco”

Neste trecho, a mulher assume estar excitada, isto é, ela reconhece o seu próprio desejo intenso, que, tradicionalmente, é ignorado. Ao expressar esse sentimento, ela assume a posição de sujeito e não objecto do desejo, o que transcende a simples reivindicação da autonomia sexual, carregando, também, uma expressão de autonomia em vários campos da vida, ou seja, é como se a mulher estivesse a dizer que também tem ideias, pontos de vista, tem uma visão e pode contribuir.

A abordagem de Bataile (1987) segundo a qual o erotismo é a transgressão de limites, mostra-se verdadeira neste texto, pois podemos constatar que o sujeito poético afirma que “a uma mulher não se pode dar pouco”, e esta é uma marca do erotismo, pois o este configura o excesso, a intensidade, o exagero. A mulher do texto não se contenta com pouco prazer, e não dá nada menos do que a satisfação do seu desejo na plenitude. Esta expressão evidencia o facto de que a mulher reconhece na totalidade o seu valor, pois tradicionalmente deve aceitar o que lhe é imposto e dado pela sociedade.

Identificamos outras marcas do erotismo na seguinte passagem textual:

“Hoje, esta noite,

quero que te aposses deste corpo

com a mesma gula com que o meu marido engole

seus copos,

que ele veja como me tomas,

como é teu o meu corpo,

como não me controlo,

como gemo, como grito e como choro….”

Em várias sociedades, o homem é que é responsável pela vida sexual de um casal, e a mulher tem somente a missão de satisfazer os desejos do parceiro. Se ela está satisfeita, disposta ou não é uma questão que não é passível de discussão. No entanto, nesta passagem encontramos uma ruptura com esta forma de pensar, pois o sujeito poético demonstra autonomia ao expressar a vontade de não depender exclusivamente do marido para ter o seu desejo sexual satisfeito. Diferentemente da concepção tradicional, aqui (1) é a mulher que diz quando a relação sexual deve ocorrer- Hoje, esta noite-; (2) é a mulher que diz como quer que o seu desejo seja satisfeito- quero que te aposses deste corpo.

Ao afirmar “que ele veja’’, a mulher quebra o paradigma da submissão, usa o próprio corpo para lançar um desafio à autoridade do marido e correr atrás da satisfação do seu desejo. Constantemente, o sujeito poético recorre a uma forma verbal que não expressa um pedido ou solicitação (quero), mas uma ordem directa daquilo que o alocutário deve fazer. De facto, assume-se que a mulher é a figura principal, aquela que dita como e quando as coisas devem ser feitas, e, consequentemente, o que será feito não representará a vontade do homem, mas da mulher.

Tal como atestam os versos abaixo, os traços do erotismo continuam visíveis no texto:

“quero que ele saiba

que me falta, aquele aperto no rabo,

a mordida na orelha,

uma lambida rápida, eu ainda não sou velha

quero ouvir aquelas palavras,

quero falar aquelas palavras

quero amar e ser amada, como uma louca

Uma égua montada em incessante cavalgada”

Conforme se pode notar, estas são as marcas mais vivas do erotismo neste texto. Considerando que uma das características do erotismo é a manifestação do desejo através da linguagem, podemos entender que o relato do sujeito poético usa uma linguagem erótica que conduz qualquer leitor a criar uma imagem mental dos acontecimentos narrados. Por exemplo: “aperto no rabo, mordida na orelha, lambida rápida, uma égua montada em incessante cavalgada” são expressões que indiciam erotismo no texto, e, ao mesmo tempo, mostram que a mulher sabe na plenitude o que quer para se sentir satisfeita.

Em alguns textos, o erotismo pode ser um recurso de expressão da feminilidade (como em “o perfume do pecado” de Matilde Chabana), da objectificação da mulher (como em “Querida Puta” de Dom Midó das Dores in “Metamiserismo”), mas, neste texto, acreditamos que todas as marcas do erotismo que identificamos constituem um recurso de expressão da autonomia da mulher, pois representam o corpo como um lugar da sua própria voz, e ela não fala como um objecto passivo, mas expressa o que quer e o que sente. Assim, isso expressa autonomia sobre o próprio prazer e sobre o próprio corpo (o que podemos designar de autonomia corporal). No entanto, acreditamos que estas marcas vão além da expressão da simples autonomia corporal. Expressam, também, uma autonomia completa, uma negação da ordem tradicional na qual a mulher não é dona de si, não pode desejar, opinar ou sugerir, apenas deve reagir aos desejos do homem. Deste modo, percebe-se que a mulher transita de uma concepção sexista em que era tomada como objecto passivo e, através do erotismo, assume o poder sobre si própria. Em primeira instância, trata-se de mera assunção corporal, mas, em seguida, nota-se que se trata de uma autonomia da mulher em todas as dimensões (económica, política, social, etc.).

 

Escrito por: César Zacarias Massingue

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