quinta-feira, 26 de maio de 2022

Necessidades versus liberdade em África


“Ó África, surge et ambula!”

                                        Rui de Noronha


Quão vil torna-se o homem quando consagra grande parte da sua existência à luta pela satisfação das necessidades biológicas. Um homem, quando forçado a prostrar a sua dignidade para apanhar o pão da vida, prova para consigo mesmo que o mais importante não é alimentar-se para viver, mas viver para alimentar-se, independentemente da cruel realidade que o obriga a portar-se desta maneira.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

O buraco negro da educação

“A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer actualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor há que o livro da humanidade?”

Mahatma Gandhi

Do latim educatio*, a educação entende-se como transmissão e aprendizado de técnicas culturais para a formação e amadurecimento do homem. Era suposto que este fosse um fim imprescindível de qualquer escola – a busca do aperfeiçoamento das faculdades humanas. Ou seja, antes de a escola focar-se em formar os indivíduos para o trabalho com o fim de desenvolver a economia do país, era míster que se focasse na formação dos indivíduos para o seu desenvolvimento intrapessoal e interpessoal. Não se trata de uma preferência subjectiva do autor, mas de uma necessidade de subordinação entre os dois objectivos.

terça-feira, 26 de abril de 2022

O erotismo como um campo de afirmação da feminilidade ou desmistificação do perfume do pecado

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”

Simone de Beauvoir


Sexo é poesia. Esta é a frase que encerra o texto patente na página 27 do livro “o perfume do pecado” como um exercício sugestivo de se sentir o aroma de um pecado que a nossa vivência religiosa intitula original. Mas não é sobre sexo que o livro trata como pode sugerir uma leitura apressada tanto do livro como da capa que, aliás, foi engenhosamente desenhada.

O perfume do pecado é uma produção poética que se constrói através da metaforização da sensualidade feminina, sobretudo, e da representação de estruturas de sentido que nos confirmam que o texto literário não diz. Sugere.

quinta-feira, 3 de março de 2022

apontamentos sobre tripulantes de uma embarcação que ainda não existe

...dou por mim, nestes últimos dias, dividido entre revisões, ensaios e rabiscos de versos ou prosas. É nos primeiros dois exercícios que mais me detenho. Claro, quando a leccionação deixa-me algum tempo sobrando. Talvez pudesse dedicar o meu tempo a outras coisas mas há uma devoção por nutrir. Prazer por satisfazer. Ombros por ceder aos que se queiram encostar.

Se uma vez alguém disse que não há melhor forma de empobrecer do que editar livros, digo, também, que melhor forma de despender tempo não há do que revisar ou ensaiar livros. Entretanto, nenhum experimentado nestas lides dirá que se trata de um exercício ingrato.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

que diferença faz a epiderme?

(com a gnose, que soçobra)

I

...plumas e tinta ferrogálica.

Metamorfoseando a brancura

do papel. A contragosto do que só

se revela no cume do monte. E não

na troca de olhares pelas margens

do mar. Ou nas grutas da floresta.

O cérebro esquartejado ao calabouço

do self.  Horizontes diluídos. Porque

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

close up: poesia moçambicana de hoje II

“temos bons poetas e muitos sabem escrever, mas há um excessivo labor da palavra, excessiva metaforização, e cada vez que isto acontece há uma fuga na comunicação que se busca estabelecer com o leitor” 

Marcelo Panguana 

De algum modo, venho reflectindo sobre este assunto. Vagueio entre a vontade, a dúvida e a dívida que devo saldar há quase uma década. Escrevi sobre a poesia moçambicana de hoje sob o olhar que tinha naquele "hoje". Um olhar que se fitou ao conteúdo a desfavor da forma que é também preponderante na arquitetura textual. Era outro momento, outra desenvoltura e outro fôlego. Mas nada disto me impele a vergonha do tempo nem a força do click no delete: são ossos de um percurso que devem ficar registados nesta plataforma.