“Quando o ruído se espalha por toda a baía, retiro o mastro, já sem vida, deste mar quente” porque a vida, em Moçambique, tem mais improvisos que o jazz.
Um olhar diacrónico sobre a literatura moçambicana revela-nos que sempre houve uma simbiose entre a escrita e outras artes, sobretudo a música e a dança. Esta surge associada a vários elementos: há registos de autores que retomam certas músicas para com elas dialogar e partilhar a mesma construção temática; outros realizam uma espécie de pastiche de certos registos musicais; e outros, não poucos, têm na referência à música e à dança uma matéria prima que serve de balsamo para as personagens (se se tratar da narração) ou para o sujeito poético (se se tratar da poesia).
Na busca por
fundamentos para esta forma de se realizar no domínio da literatura, podemos
encontrar uma infinidade de argumentos, alguns deles estilísticos, outros
inerentes ao nosso ser como africanos. Os leitores condicionados por um olhar à
parte relativamente à literatura produzida em África poderão justificar esta
tendência pela já conhecida “vocação idiossincrásica da arte africana de manter
um estruturante diálogo com o meio envolvente” (cf. Noa, 2025). De facto, prestando
atenção aos contadores de histórias, é facilmente identificável o recurso às artes
performativas no acto de contar. Esta forma de proceder constitui um dos
elementos do meio envolvente em que a arte africana é produzida. Mesmo assim,
não deixa de constituir uma suspeita: será com base nessa matéria prima que Jessemusse
Cacinda produziu este “Made in Nampula ou Jazz do Oriente”?
A leitura das páginas
deste livro parece dar-nos outras pistas. Outros indícios. Outros elementos,
que nos permitem assumir que há argumentos mais pessoais e existencialistas
para esta forma de construir o texto narrativo. Este “Made in Nampula ou Jazz
do Oriente” é, na verdade, um palimpsesto através do qual se pode mapear os
diversos Cacindas de que o Jessemusse se constitui. Digo isto com uma certeza
estranha, fundamentada, talvez, pelo que é possível ler deste autor no seu
livro de estreia “Kwashala Blues” (2023) e de outros textos seus publicados em
antologias por si co-organizadas e nas Revistas Índico, Kiyonga, Buala, Doeck
Literary Magazine e Trouble dans le colletion.
Mais recentemente, na
Revista MozWanga, de Setembro de 2026, convidado a apresentar este livro a um potencial
leitor, Jessemusse Cacinda disse que “o Made in Nampula ou Jazz do Oriente” é
uma obra de arte que com sonoridade e imagem discorre sobre as quedas e
reviravoltas da vida, sobre o amor, sobre o trauma e sobre como nossa vida está
conectada com o ambiente social, político e económico” (p. 21 - 22). Ao trazer
o comentário do autor, não se pretende fundamentar uma leitura com base no que ele
assume sobre a sua própria produção. Seguir por essa via seria uma imprecisão de
método, senão, até, uma negligência relativamente ao que o texto me fornece
enquanto leitor situado no universo temporal (e quiçá espacial) do que os
textos problematizam. Seja como for, “Made in Nampula ou Jazz do Oriente” é um
livro que tem uma vibe musical dançante, que segue o ritmo das
circunstâncias (boas e más) em que a vida nos coloca. Não é a vida, afinal, uma
dança entre dois, ou mais?
Leio este livro e
percebo que “o melhor país do mundo é aquele que nos atrai com o seu néctar”. Por
isso, o argumento de estes textos surgirem de uma relação com o meio envolvente
parece não justificar a fruição musical que neles se inscreve. Há,
tendencialmente, uma cadência que a vida imprime a si própria e define a
tessitura pela qual se deve contruir uma nação e o sentido de ser das pessoas
que a habitam. Afinal, “Moçambique só se realiza quando narrado. Praticamente,
o que fazemos enquanto escritores é também contruir um país” (Cacinda, Revista
MozWanga, p. 19).
Neste livro, há, sem
dúvidas, um país narrado e em constante construção com retalhos de tudo quanto
o constitui. Logo no início, encontramos “o melhor país do mundo”. Além da
narração com um mote que nos envolve, temos a poeticidade duma prosa que, não
poucas vezes, funda-se no ritmo. É uma narrativa que nos envolve enquanto
artistas e seres humanos, por trazer uma personagem seleccionada para uma
residência artística e vê-se num bloqueio criativo para compor um objecto de
arte em homenagem ao cinquentenário do seu país.
Seguidamente, surge-nos
o texto que dá título à colectânea e nos faz reflectir sobre a nossa
circunstância actual como um povo e sobre o sentido da globalização que, em
rigor, não é uma invenção nova, mas remonta um passado não muito distante, para
nos fazer perceber que “mesmo em tempos de guerra, havia espaço para a apreciar
a beleza das mulheres”. É um texto que faz justiça à ideia de que o livro não é
sobre Nampula, mas a partir de Nampula, de Moçambique e da África, para o mundo,
conforme o autor refere na entrevista supramencionada. “Os sons, cheiros,
temperos e aromas” trazidos têm muito desta província do norte de Moçambique, “mas
também muito de outros lugares, particularmente daqueles” onde o autor circula.
Mais uma vez, fica aqui sustentada a ideia de que a interesecção entre as
narrativas contidas neste volume com o jazz resulta da desenvoltura em que a
vida remete as personagens invocadas nos textos, e não necessariamente o seu
autor enquanto escritor, pesquisador e cidadão do mundo.
Além dos atributos
aludidos no segmento textual imediatamente anterior, este volume traz um Cacinda
poeta, que há muito dá ares da sua graça, mas surge, em todos os textos, de
forma mais acentuada. A propriedade aqui aludida evidencia-se, sobretudo, em
contextos de reflexão social, filosófica ou intimista, se quisermos. O texto “o
maquinista” é disso um dos maiores exemplos, pois traz à tona o dilema do amor
no contexto das amarras financeiras e sociais que a sociedade impõe. Qualquer
leitor que entrar em contacto com este texto passará a tomar consciência de que
“o amor nunca foi uma simples história, mas um conjunto de tatuagens que
habitam a alma”. É na convivência com as referidas tatuagens que Tomás
Nãomecurte, personagem da narrativa, cultiva o que a muitos de nós tem custado
imensamente: o perdão.
Com ou sem
cicatrizes, a vida de Nãomecurte, em o maquinista, e a da Doutora Stayce,
em “putapsiquiatria”, mostram-nos que “a felicidade é urgente”. Há, entretanto,
perguntas que a nossa sensibilidade para com a vida colectiva faz emergir e
dilui esta ideia de sermos felizes com urgência e a todo custo. Como ser feliz enquanto
se ouve notícias da chegada à Nampula de mais deslocados de guerra, oriundos de
Cabo Delgado? Ainda que se tente desanuviar a dor ao som de Manono Jazz, a dor
persiste, porque, a cada notícia, gera-se a impressão de que o locutor “lê o mesmo texto todos os dias e apenas muda as
datas e os números”. É triste. É desolador. É ignóbil. Enraivece, pois sabemos
que parte desta dor é causada por nós mesmos, ou pela nossa apatia enquanto
povo. A bala no corpo do outro, parece-nos saber ao toque doce de uma amada que
nos crava as unhas.
Vês, caro
leitor, é nisto em que nos tornamos quando lemos as páginas de “Made in Nampula ou Jazz do Oriente”: começamos as
primeiras linhas como meros leitores, e à metade do volume, tornamo-nos
autênticos escrileitores. Gente que além de ler, cria. É um processo natural,
sobretudo quando lemos “um corpo crivado de balas” em que há uma revisitação do
fatídico assassinato de Mahamudo Amurane. A narrativa inicia de forma
despretensiosa, dá-nos um ar nostálgico de quem experienciou boas práticas de
gestão municipal e reflecte sobre a morte de Amurane para, de forma poética,
trazer-nos a sentença: “paz e guerra são palavras vazias de sentido”.
É mesmo
um Jazz do Oriente com muitos momentos de swing e enlevo de sentimentos.
“A carta que nunca chegou” e o “traseiro da tia Hagira” são disso exemplo.
Parece que o narrador advinha estar diante um leitor que transcorre o volume de
forma ininterrupta. Depois da reflexão sobre a arte, as tensões políticas, a
existência, a guerra, ele traz-nos reflexões interculturais num ar cómico, com
traquinices na linguagem e no enredo. Porém, nem tudo são risos, quando se
reflecte sobre a dor da perda de algo que nunca se chegou a ter. Depois do riso
e das traquinices, “há sempre um
murmúrio salgado a lembrar que tudo vem de longe e tudo pode voltar”.
Para
finalizar o volume, Jessemusse Cacinda traz “o leitor de obituários”, uma
narrativa repleta de personagens tipo. É daqueles textos que devem ser lidos
com o dedo pousado nas têmporas. Além dos seus traços enigmáticos, é um sujeito
“dedicado à arte de bem-vestir”. Mais, ainda, a seu modo e jeito num “fato preto, com
balalaica, sapatos de bico e o chapéu cowboy” diz o que muitas mulheres já
deviam ter lido num livro”:
“para
quê chorar por causa do traseiro? Vocês mulheres são bonitas da forma como o
criador vos gerou. Umas têm um traseiro enorme, e outras, menor. Umas são
altas, e outras, baixinhas. Cada uma de vocês tem cor de pele e traços de face
diferentes. Umas acordam cedo, e outras acordam tarde, umas trabalham no
Estado, outras no doméstico e ainda outras no privado. Umas têm filhos e outras
não os têm. Mas todas, cada uma com sua característica, são obras de arte
exibidas em peça única”.
Neste “Made in Nampula ou Jazz do Oriente”, Jessemusse Cacinda traz-nos textos que não se propõem seguir uma composicionalidade rígida de um género específico. Abordam motes diferentes, porém com um fio condutor evidente: a cidade de Nampula, a música, os Moçambiques que nos fazem nação com ou sem improvisos, as tensões e as utopias com que se tece a nossa existência como humanos, e as buscas no reservatório da memória individual e colectiva. O labor criativo, conforme já pontuei, situa-se na fronteira entre o conto e a crónica. Nesse lugar, eventualmente confortante para a observação, os textos fazem excelentes digressões existenciais, com uma pitada de bom humor. A ironia e o desencanto falam mais alto. Ora, é uma vírgula inevitável. É possível fazer diferente nestes tempos caóticos?

Que maravilha
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