O problema que aqui se coloca pode ser formulado de forma simples: como é que as figuras de estilo, longe de serem apenas ornamentos ou enfeites do discurso, ajudam a construir a voz de quem fala no poema, ou seja, a subjectividade do sujeito lírico?
Para
responder a esta pergunta, importa destacar que o texto poético e, em
particular, a poesia lírica é fundamentalmente a expressão de uma interioridade
de estados afectivos, de percepções, de emoções e de visões de mundo que emanam
de um sujeito enunciador singular. A subjectividade, entendida deste modo, não
é um dado espontâneo do poema, mas antes uma construção. Aguiar e Silva (2007)
caracteriza o sujeito lírico como uma entidade textual que não se confunde com
o autor empírico, mas que representa no poema uma voz subjectiva, carregada de
afectividade e de uma perspectiva particular sobre o mundo. Esta voz
manifesta-se através de múltiplos recursos linguísticos, entre os quais as
figuras de estilo (p. 362).
Reis
e Lopes (2007) reforçam esta ideia ao afirmarem que a subjectividade no texto
poético materializa-se na escolha das palavras, na construção sintáctica, no
ritmo, na sonoridade e, de forma muito especial, nas figuras de estilo, que
funcionam como amplificadores da expressividade e da densidade semântica do
poema (p. 393).
No que diz respeito ao conceito de figura
de estilo, verifica-se que existem diferentes formas de compreendê-lo. Ceia
(2010) considera que as figuras de estilo são formas de ornamento do discurso
para obter um efeito especial de significação. Nesta visão, elas não são
simples adornos do discurso, mas mecanismos que contribuem para a construção do
sentido. Por sua vez, Lamas (1992) entende as figuras de estilo como recursos
expressivos que resultam de um uso intencional e criativo da língua, distinto
do uso literal ou denotativo, com vista à produção de efeitos estéticos,
afectivos ou semânticos específicos. Assim, através
delas, o poeta pode produzir efeitos estéticos, emocionais e simbólicos que
enriquecem a experiência do leitor.
A perspectiva de Aguiar e
Silva (2007) amplia esta compreensão destacando que as figuras de estilo são
indissociáveis da função poética da linguagem: a função que orienta a mensagem
para si mesma, privilegiando a forma da expressão em detrimento da mera
transmissão de informação. As figuras de estilo não são, portanto, ornamentos supérfluos,
mas elementos constitutivos do texto literário, sem os quais a sua
especificidade estética e semântica seria impossível.
Nos
poemas “Olhos amargos” e “Simbologia”, retirados da obra Vértices da Alma de
Sérgio dos Céus Nelson, os recursos expressivos não aparecem apenas como formas
de embelezamento da linguagem, mas como estratégias através das quais o sujeito
lírico revela experiências emocionais, conflitos interiores e diferentes formas
de interpretar a existência. Enquanto “Olhos amargos” apresenta uma
subjectividade marcada pela experiência do amor impossível ou proibido, “Simbologia”
aborda a experiência da vida como percurso colectivo, marcado pela superação,
pela vulnerabilidade e pelo valor das relações humanas.
“Olhos
amargos” é estruturado em quatro estrofes de extensão irregular. A ausência de
uma forma estrófica rígida sugere a liberdade expressiva que caracteriza a voz
lírica deste texto. O sujeito poético fala na primeira pessoa de forma directa
e íntima, dirigindo-se a um "tu", que é o objecto do seu amor, assim
como a fonte da sua angústia. Este diálogo lírico com um interlocutor ausente ou
inacessível coloca o leitor no lugar de destinatário e amplifica a intensidade
afectiva do poema. Uma das figuras
que mais contribui para esta construção é a anáfora, presente na repetição da
expressão:
“Encontro
em ti muito do que sonho
Em
ti encontro o medo e o risco,
encontro
as nossas safadezas, loucuras..."
A
repetição consecutiva da forma do verbo "encontrar" cria um ritmo de
acumulação que traduz intensidade e a multiplicidade do que o sujeito lírico
encontra no outro. Não somente as coisas belas, mas também o "medo e o
risco". Assim, a anáfora não funciona apenas como repetição sonora, mas
como representação da intensidade emocional de uma relação marcada pela
dualidade. Esta anáfora é, portanto, uma marca da complexidade e da
ambivalência da experiência afectiva do sujeito lírico, o "tu" é o
lugar de realização dos seus sonhos, assim como o lugar do perigo.
Outro
recurso fundamental é a antítese que mais directamente constrói a
subjectividade do mesmo, visível no verso:
"Há
vida e gotas de morte em teus olhos"
O
contraste entre "vida” e “morte", condensa numa única imagem, o
conflito central do poema. O ser amado é apresentado como uma presença
simultaneamente capaz de proporcionar felicidade e sofrimento, ou seja, o mesmo
ser que dá vida contém também a morte. Trata-se de uma antítese que não se resume somente à estética do
texto, mas que expressa uma experiência emocional genuinamente contraditória: a
de amar alguém cuja presença é, ao mesmo tempo, fonte de plenitude e
sofrimento. A mesma oposição surge no verso:
"há
o querer do não querer te ter"
A
oposição entre "querer"/ "não querer" revela uma luta
interior: o sujeito deseja possuir o outro, mas reconhece a impossibilidade
desse desejo. A figura de estilo torna visível um conflito psicológico que
dificilmente poderia ser expresso por uma linguagem directa. A metáfora
constitui, igualmente, um elemento central do poema.
O
verso "fazem
de nós dois seres presos naquele fogo" metaforiza a relação amorosa como um
aprisionamento por um fogo. Esta metáfora condensa simultaneamente a paixão
ardente e a privação da liberdade. O sujeito lírico não é apenas amante, mas
prisioneiro do seu próprio amor, incapaz de se libertar de uma relação que o
consome. Na última estrofe, o amor é redefinido como “a maior arte do prolongamento da
dor”.
Nesta
construção, a dor deixa de ser apenas uma consequência negativa e transforma-se
numa experiência assumida pelo sujeito. A linguagem metafórica revela, assim,
uma subjectividade consciente do próprio sofrimento. O verso "e uma eterna vida
aprisionada na desconfiança" retoma a metáfora da prisão, desta vez
associada ao sentimento de desconfiança que a partilha do outro com uma
terceira pessoa inevitavelmente gera.
Adicionalmente,
a personificação contribui para a expressão da interioridade do sujeito. No
verso "nas noites que a solidão suava mais que a minha alma", a
solidão é personificada ao receber uma característica humana e sensorial: a
capacidade de "soar" até produzir um "som". Esta
personificação não é meramente decorativa. Ela expressa a intensidade com que o
sujeito lírico sente a solidão, que se torna tão pesada e ruidosa a ponto de
superar a própria alma. Ao transformar a solidão numa presença sonora e
sufocante, o sujeito lírico revela a profundidade da sua vulnerabilidade
emocional e a sua incapacidade de se bastar a si mesmo sem o "tu" que
deseja.
A
presença da sinestesia no mesmo verso "nas noites que a solidão suava mais
que a minha alma" reforça essa dimensão sensorial, pois associa a ideia
sonora de “soar” a uma realidade interior representada pela “alma”. O
sofrimento deixa de ser apenas uma experiência psicológica e passa a adquirir
uma dimensão quase física. É o mesmo que ocorre com a elipse patente nos versos
"de jamais te ter e cantarmos a simbiose de dois seres contra do
mundo" cria uma sensação de incompletude e de contenção que é, ela
própria, expressão do estado do sujeito lírico. O poema termina sem resolução,
o sonho da "simbiose de dois seres" permanece no domínio do
impossível e do desejado. Esta incompletude sintáctica traduz a incompletude
existencial do sujeito, preso num amor sem futuro, incapaz de avançar ou de
recusar.
No
texto “simbologia”, o sujeito lírico abandona o "eu" solitário para
adoptar um "nós" inclusivo, o que releva uma subjectividade aberta à
partilha e à dimensão comunitária da existência. Para este fim, as figuras de estilo
desempenham um papel fundamental na transformação de conceitos abstractos, como
a vida, o tempo, a dor e a insegurança, em imagens concretas capazes de
transmitir uma determinada visão do mundo.
Uma das primeiras
figuras que merece destaque é a comparação, presente nos versos iniciais: "quão
pacato é acreditar no que nos fere como
medonho é pelejar por aquilo que se sente". A aproximação entre “acreditar no que nos fere” e “pelejar por
aquilo que se sente” estabelece uma relação de contraste entre duas
experiências humanas aparentemente contraditórias. A comparação permite revelar
a complexidade da existência: aquilo que causa sofrimento pode, paradoxalmente,
ser aceite com tranquilidade, enquanto lutar por aquilo que se deseja pode
representar uma experiência difícil e assustadora. Deste modo, a figura não
serve apenas para estabelecer uma semelhança entre ideias, mas contribui para
construir uma subjectividade reflexiva, marcada pela consciência das
contradições da vida.
A
metáfora constitui igualmente um dos principais recursos expressivos do poema.
Nos versos
“uma
constante maratona que nos surpreende quando nos soltamos e aceitamos trilhar os
segundos do tempo”, a vida é descrita como uma constante maratona que nos
surpreende quando nos soltamos e aceitamos trilhar os segundos do tempo. O
tempo deixa de ser entendido como uma simples sucessão de momentos e passa a
ser representado como um percurso que precisa de ser enfrentado. A metáfora da
maratona revela, assim, um sujeito poético consciente de que viver implica
superar dificuldades e adaptar-se às mudanças. A experiência humana é
apresentada como um caminho de aprendizagem e descoberta. Outra metáfora
significativa encontra-se nos versos "vivemos cegos até que a vida se revele
uma colecção de momentos…" A cegueira simboliza a dificuldade humana de
compreender plenamente o valor das experiências vividas. Assim, o sujeito
lírico não se apresenta como alguém que vê e compreende tudo, mas como alguém
que, como todos, vive sem perceber plenamente o valor do que vive. As
reticências no final no verso "uma colecção de momentos..." sugerem que
esta revelação é sempre parcial, sempre em curso, nunca completamente atingida.
Esta incompletude é, ela própria, uma expressão da subjectividade do sujeito.
A
antítese também assume uma função importante na construção do sentido do poema.
Nos versos "há vida por se viver, como há tristeza quando se aceita a
clausura num vazio" verifica-se uma oposição entre “vida” e “tristeza”,
“viver” e “clausura”. Esta oposição revela duas possibilidades de existência:
de um lado, uma vida aberta à experiência e ao sentimento; do outro, uma
existência marcada pelo isolamento e pela negação. A antítese permite
compreender que, para o sujeito poético, a tristeza não resulta apenas das
circunstâncias externas, mas também da incapacidade humana de se abrir às
possibilidades da vida.
A
segmento textual "a insegurança tatuada no nosso peito" personifica e
materializa a insegurança. Ela não é um simples estado de espírito passageiro,
mas uma marca física e permanentemente inscrita no corpo. A metáfora das
tatuagens são marcas voluntárias e definitivas, que se carregam para sempre. Ao
descrever a insegurança como uma tatuagem, o sujeito lírico sugere que o medo e
a vulnerabilidade são constitutivos da identidade humana. Ao usar "nosso
peito" e não "meu peito", o sujeito lírico solidariza esta
experiência com a humanidade inteira.
Por
fim, destaca-se a enumeração presente na sequência "sorrir, sonhar e
amar", na qual há três movimentos fundamentais da existência plena na perspectiva
do sujeito lírico: a alegria, o desejo e o amor. Esta enumeração tem um forte
efeito expressivo pela sua concisão e musicalidade, condensando, numa única
linha, a essência do que o sujeito lírico considera valioso na vida.
Em
linhas gerais, a presente análise confirmou que as figuras de estilo não são
meros ornamentos retóricos, nem recursos de embelezamento superficial
(estética) do discurso poético. São, antes, instrumentos constitutivos da
subjectivadade lírica, uma vez que é através delas que o sujeito enunciador dos
poemas revela os seus estados afectivos, a sua visão do mundo e a sua
singularidade expressiva. Assim, compreender um texto poético exige uma leitura
que ultrapasse a simples identificação das figuras de estilo. É necessário
observar os efeitos que esses recursos produzem dentro do poema e compreender
de que maneira contribuem para revelar a voz, a sensibilidade e a visão do
mundo do sujeito lírico.
Escrito por: Amância Carlos Ubisse

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