terça-feira, 29 de setembro de 2026

O papel das figuras de estilo na construção da subjectividade em “olhos amargos” e “simbologia” de Sérgio dos Céus Nelson

A subjectividade no texto poético não é um fenómeno espontâneo. Ela é construída através de escolhas linguísticas e retóricas, entre as quais se destacam as figuras de estilo. “Geralmente, a construção verbal do texto poético está além das convenções usuais do sistema linguístico”. Neste sentido, as figuras de estilo constituem os principais mecanismos retóricos e expressivos através dos quais essa subjectividade se materializa. Esse trabalho de construção pode ocorrer através de diversos mecanismos, a saber: metáfora, comparação, personificação, antítese, anáfora, entre outras. É a partir desta ideia que se desenvolve o presente texto, centrado em dois poemas de Sérgio dos Céus Nelson, “Olhos amargos” e “Simbologia”, ambos retirados da obra “Vértices da Alma”.

O problema que aqui se coloca pode ser formulado de forma simples: como é que as figuras de estilo, longe de serem apenas ornamentos ou enfeites do discurso, ajudam a construir a voz de quem fala no poema, ou seja, a subjectividade do sujeito lírico?

Para responder a esta pergunta, importa destacar que o texto poético e, em particular, a poesia lírica é fundamentalmente a expressão de uma interioridade de estados afectivos, de percepções, de emoções e de visões de mundo que emanam de um sujeito enunciador singular. A subjectividade, entendida deste modo, não é um dado espontâneo do poema, mas antes uma construção. Aguiar e Silva (2007) caracteriza o sujeito lírico como uma entidade textual que não se confunde com o autor empírico, mas que representa no poema uma voz subjectiva, carregada de afectividade e de uma perspectiva particular sobre o mundo. Esta voz manifesta-se através de múltiplos recursos linguísticos, entre os quais as figuras de estilo (p. 362).

Reis e Lopes (2007) reforçam esta ideia ao afirmarem que a subjectividade no texto poético materializa-se na escolha das palavras, na construção sintáctica, no ritmo, na sonoridade e, de forma muito especial, nas figuras de estilo, que funcionam como amplificadores da expressividade e da densidade semântica do poema (p. 393).

No que diz respeito ao conceito de figura de estilo, verifica-se que existem diferentes formas de compreendê-lo. Ceia (2010) considera que as figuras de estilo são formas de ornamento do discurso para obter um efeito especial de significação. Nesta visão, elas não são simples adornos do discurso, mas mecanismos que contribuem para a construção do sentido. Por sua vez, Lamas (1992) entende as figuras de estilo como recursos expressivos que resultam de um uso intencional e criativo da língua, distinto do uso literal ou denotativo, com vista à produção de efeitos estéticos, afectivos ou semânticos específicos. Assim, através delas, o poeta pode produzir efeitos estéticos, emocionais e simbólicos que enriquecem a experiência do leitor.

A perspectiva de Aguiar e Silva (2007) amplia esta compreensão destacando que as figuras de estilo são indissociáveis da função poética da linguagem: a função que orienta a mensagem para si mesma, privilegiando a forma da expressão em detrimento da mera transmissão de informação. As figuras de estilo não são, portanto, ornamentos supérfluos, mas elementos constitutivos do texto literário, sem os quais a sua especificidade estética e semântica seria impossível.

Nos poemas “Olhos amargos” e “Simbologia”, retirados da obra Vértices da Alma de Sérgio dos Céus Nelson, os recursos expressivos não aparecem apenas como formas de embelezamento da linguagem, mas como estratégias através das quais o sujeito lírico revela experiências emocionais, conflitos interiores e diferentes formas de interpretar a existência. Enquanto “Olhos amargos” apresenta uma subjectividade marcada pela experiência do amor impossível ou proibido, “Simbologia” aborda a experiência da vida como percurso colectivo, marcado pela superação, pela vulnerabilidade e pelo valor das relações humanas.

“Olhos amargos” é estruturado em quatro estrofes de extensão irregular. A ausência de uma forma estrófica rígida sugere a liberdade expressiva que caracteriza a voz lírica deste texto. O sujeito poético fala na primeira pessoa de forma directa e íntima, dirigindo-se a um "tu", que é o objecto do seu amor, assim como a fonte da sua angústia. Este diálogo lírico com um interlocutor ausente ou inacessível coloca o leitor no lugar de destinatário e amplifica a intensidade afectiva do poema. Uma das figuras que mais contribui para esta construção é a anáfora, presente na repetição da expressão:

“Encontro em ti muito do que sonho

Em ti encontro o medo e o risco,

encontro as nossas safadezas, loucuras..."

A repetição consecutiva da forma do verbo "encontrar" cria um ritmo de acumulação que traduz intensidade e a multiplicidade do que o sujeito lírico encontra no outro. Não somente as coisas belas, mas também o "medo e o risco". Assim, a anáfora não funciona apenas como repetição sonora, mas como representação da intensidade emocional de uma relação marcada pela dualidade. Esta anáfora é, portanto, uma marca da complexidade e da ambivalência da experiência afectiva do sujeito lírico, o "tu" é o lugar de realização dos seus sonhos, assim como o lugar do perigo.

Outro recurso fundamental é a antítese que mais directamente constrói a subjectividade do mesmo, visível no verso:

"Há vida e gotas de morte em teus olhos"

O contraste entre "vida” e “morte", condensa numa única imagem, o conflito central do poema. O ser amado é apresentado como uma presença simultaneamente capaz de proporcionar felicidade e sofrimento, ou seja, o mesmo ser que dá vida contém também a morte. Trata-se de uma antítese  que não se resume somente à estética do texto, mas que expressa uma experiência emocional genuinamente contraditória: a de amar alguém cuja presença é, ao mesmo tempo, fonte de plenitude e sofrimento. A mesma oposição surge no verso:

"há o querer do não querer te ter"

A oposição entre "querer"/ "não querer" revela uma luta interior: o sujeito deseja possuir o outro, mas reconhece a impossibilidade desse desejo. A figura de estilo torna visível um conflito psicológico que dificilmente poderia ser expresso por uma linguagem directa. A metáfora constitui, igualmente, um elemento central do poema.

O verso "fazem de nós dois seres presos naquele fogo" metaforiza a relação amorosa como um aprisionamento por um fogo. Esta metáfora condensa simultaneamente a paixão ardente e a privação da liberdade. O sujeito lírico não é apenas amante, mas prisioneiro do seu próprio amor, incapaz de se libertar de uma relação que o consome. Na última estrofe, o amor é redefinido como “a maior arte do prolongamento da dor”.

Nesta construção, a dor deixa de ser apenas uma consequência negativa e transforma-se numa experiência assumida pelo sujeito. A linguagem metafórica revela, assim, uma subjectividade consciente do próprio sofrimento. O verso "e uma eterna vida aprisionada na desconfiança" retoma a metáfora da prisão, desta vez associada ao sentimento de desconfiança que a partilha do outro com uma terceira pessoa inevitavelmente gera.

Adicionalmente, a personificação contribui para a expressão da interioridade do sujeito. No verso "nas noites que a solidão suava mais que a minha alma", a solidão é personificada ao receber uma característica humana e sensorial: a capacidade de "soar" até produzir um "som". Esta personificação não é meramente decorativa. Ela expressa a intensidade com que o sujeito lírico sente a solidão, que se torna tão pesada e ruidosa a ponto de superar a própria alma. Ao transformar a solidão numa presença sonora e sufocante, o sujeito lírico revela a profundidade da sua vulnerabilidade emocional e a sua incapacidade de se bastar a si mesmo sem o "tu" que deseja.

A presença da sinestesia no mesmo verso "nas noites que a solidão suava mais que a minha alma" reforça essa dimensão sensorial, pois associa a ideia sonora de “soar” a uma realidade interior representada pela “alma”. O sofrimento deixa de ser apenas uma experiência psicológica e passa a adquirir uma dimensão quase física. É o mesmo que ocorre com a elipse patente nos versos "de jamais te ter e cantarmos a simbiose de dois seres contra do mundo" cria uma sensação de incompletude e de contenção que é, ela própria, expressão do estado do sujeito lírico. O poema termina sem resolução, o sonho da "simbiose de dois seres" permanece no domínio do impossível e do desejado. Esta incompletude sintáctica traduz a incompletude existencial do sujeito, preso num amor sem futuro, incapaz de avançar ou de recusar.

No texto “simbologia”, o sujeito lírico abandona o "eu" solitário para adoptar um "nós" inclusivo, o que releva uma subjectividade aberta à partilha e à dimensão comunitária da existência. Para este fim, as figuras de estilo desempenham um papel fundamental na transformação de conceitos abstractos, como a vida, o tempo, a dor e a insegurança, em imagens concretas capazes de transmitir uma determinada visão do mundo.

Uma das primeiras figuras que merece destaque é a comparação, presente nos versos iniciais: "quão pacato é acreditar no que nos fere como medonho é pelejar por aquilo que se sente". A aproximação entre “acreditar no que nos fere” e “pelejar por aquilo que se sente” estabelece uma relação de contraste entre duas experiências humanas aparentemente contraditórias. A comparação permite revelar a complexidade da existência: aquilo que causa sofrimento pode, paradoxalmente, ser aceite com tranquilidade, enquanto lutar por aquilo que se deseja pode representar uma experiência difícil e assustadora. Deste modo, a figura não serve apenas para estabelecer uma semelhança entre ideias, mas contribui para construir uma subjectividade reflexiva, marcada pela consciência das contradições da vida.

A metáfora constitui igualmente um dos principais recursos expressivos do poema. Nos versos

“uma constante maratona que nos surpreende quando nos soltamos e aceitamos trilhar os segundos do tempo”, a vida é descrita como uma constante maratona que nos surpreende quando nos soltamos e aceitamos trilhar os segundos do tempo. O tempo deixa de ser entendido como uma simples sucessão de momentos e passa a ser representado como um percurso que precisa de ser enfrentado. A metáfora da maratona revela, assim, um sujeito poético consciente de que viver implica superar dificuldades e adaptar-se às mudanças. A experiência humana é apresentada como um caminho de aprendizagem e descoberta. Outra metáfora significativa encontra-se nos versos "vivemos cegos até que a vida se revele uma colecção de momentos…" A cegueira simboliza a dificuldade humana de compreender plenamente o valor das experiências vividas. Assim, o sujeito lírico não se apresenta como alguém que vê e compreende tudo, mas como alguém que, como todos, vive sem perceber plenamente o valor do que vive. As reticências no final no verso "uma colecção de momentos..." sugerem que esta revelação é sempre parcial, sempre em curso, nunca completamente atingida. Esta incompletude é, ela própria, uma expressão da subjectividade do sujeito.

A antítese também assume uma função importante na construção do sentido do poema. Nos versos "há vida por se viver, como há tristeza quando se aceita a clausura num vazio" verifica-se uma oposição entre “vida” e “tristeza”, “viver” e “clausura”. Esta oposição revela duas possibilidades de existência: de um lado, uma vida aberta à experiência e ao sentimento; do outro, uma existência marcada pelo isolamento e pela negação. A antítese permite compreender que, para o sujeito poético, a tristeza não resulta apenas das circunstâncias externas, mas também da incapacidade humana de se abrir às possibilidades da vida.

A segmento textual "a insegurança tatuada no nosso peito" personifica e materializa a insegurança. Ela não é um simples estado de espírito passageiro, mas uma marca física e permanentemente inscrita no corpo. A metáfora das tatuagens são marcas voluntárias e definitivas, que se carregam para sempre. Ao descrever a insegurança como uma tatuagem, o sujeito lírico sugere que o medo e a vulnerabilidade são constitutivos da identidade humana. Ao usar "nosso peito" e não "meu peito", o sujeito lírico solidariza esta experiência com a humanidade inteira.

Por fim, destaca-se a enumeração presente na sequência "sorrir, sonhar e amar", na qual há três movimentos fundamentais da existência plena na perspectiva do sujeito lírico: a alegria, o desejo e o amor. Esta enumeração tem um forte efeito expressivo pela sua concisão e musicalidade, condensando, numa única linha, a essência do que o sujeito lírico considera valioso na vida.

Em linhas gerais, a presente análise confirmou que as figuras de estilo não são meros ornamentos retóricos, nem recursos de embelezamento superficial (estética) do discurso poético. São, antes, instrumentos constitutivos da subjectivadade lírica, uma vez que é através delas que o sujeito enunciador dos poemas revela os seus estados afectivos, a sua visão do mundo e a sua singularidade expressiva. Assim, compreender um texto poético exige uma leitura que ultrapasse a simples identificação das figuras de estilo. É necessário observar os efeitos que esses recursos produzem dentro do poema e compreender de que maneira contribuem para revelar a voz, a sensibilidade e a visão do mundo do sujeito lírico.

 

Escrito por: Amância Carlos Ubisse


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