Esta obra estabelece uma metamorfose do corpo e da cidade retratada em temas como a dor, a saudade, a memória, a guerra, os traumas e a identidade patriótica. Neste exercício, Quive ilustra a situação penosa das cidades destruídas e dos seres que as habitam. Entre a descrição do absurdo e do drama humano, inscreve-se uma reflexão sobre a identidade individual e colectiva, a circunstância de tempo e de lugar em que essa identidade é construída.
O autor desperta, no leitor, a metamorfose das cidades e do homem, retratando como essa perda ocorre lentamente, diante da indiferença dos vivos. Esta é reflectida entre as cidades e o corpo, através da ausência de amor e empatia nas relações interpessoais.
Será possível comparar o homem com uma cidade?
Depois de ler esta obra, acredito que sim, porque o nosso desenvolvimento surge das relações que estabelecemos na sociedade. A falta de amor e de empatia torna a pessoa numa nuvem escura que vai reflectir a sociedade. Esta também estará com uma nuvem escura, não pela pessoa, mas pela falta de vida nela.
A ruina dessas cidades é associada ao egoísmo do homem, à indiferença e à busca por ganhos próprios. Quando ganhamos pela corrupção é ao outro irmão que destruímos e é à nossa cidade que destruímos. Neste sentido, o poeta fala-nos de gente de corpos, vivos e ausentes, apátridas, levados para lugar nenhum com sentimentos ambíguos, ora a procura de um lugar seguro, ora à procura de melhores condições de vida. Buscar os vivos nessa cidade é compreender o seu silêncio, a sua amnésia perante a decadência e a ruína da cidade como forma de sobrevivência ou progresso próprio, e os poemas remetem a ideia do homem ausente como exemplo do trecho:
“Enquanto o silêncio das almas anima o barulho das armas, um luar ameaça incendiar a cidade com as velas descaídas de gentes com milhares de anos na insônia”
Há bem pouco tempo, o país registou manifestações violentas. No decurso desta experiência triste, não havia liberdade de expressão e as memórias de várias guerras que grassaram Moçambique foram reavivadas. Perdemos casas, parentes, memórias, emoções e vozes. Ganhamos o silêncio, os traumas, a mudança e o civismo do povo. Em meio a essa demanda, entre a destruição das cidades e do corpo, vem a pergunta: para onde foram os vivos?
Os vivos estavam em silêncio do corpo sem amor. O mesmo silêncio que percorre a guerra no norte do país, onde os irmãos, a quem chamamos de deslocados, deixam para trás suas vidas, suas casas, suas memórias, a infância e os mortos que podem salvar a sua vida. Olho para as cidades e percebo que nos resta a desgraça dividida em classes sociais. Como fica o povo, diante das atrocidades dos terroristas? Como fica o imaginário do povo? Que futuro lhes sobra?
Creio que seja mais fácil perguntar sobre os mortos. Esses, sim, saberemos que estão por de baixo da terra, ou à direita do Pai. Ora, aos vivos devemos procurar. O vazio dos vivos sugere que, embora biologicamente existentes, os corpos estão socialmente ausentes, pois a vida perdeu o sentido. Essa ausência não é só da vida, mas de consciência crítica, de participação na sociedade e, sobretudo, no amor e na esperança.
Escrito por: Begnen Zaqueu Gungunhana

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