domingo, 21 de julho de 2013

Os Solavancos a que a literatura nos remete: sobre a ficcionalidade na literatura!


Estas coisas de envolvermo-nos com a escrita literária e seus campos adjacentes tornam-nos tão hipócritas que nem nos damos conta disso. Consideremos, portanto, que a noção de hipocrisia aqui trazida é deveras literal para que se submeta sem reservas a qualquer estereótipo preconcebido pelas e entre as pessoas.
Ora vejamos, ao envolvermo-nos com a escrita, criamos uma personagem a nosso gosto, ponderação e exigência para que fale por nós de forma bela, acima de tudo, em sessões de autoterapia a que chamamos de exercício artístico. E, sem nos apercebermos, esse Outro (artístico) torna-se muitas vezes diferente do Eu (sujeito biopsicosociocultural). Daí a velha e célebre frase Pessoana: “o poeta é um fingidor”.
Tudo isto aparece-me à mente como uma pontiaguda zagaia no bojo da presa dum caçador, logo a seguir a um flashback onírico duma tarde inesperadamente emocionante:
Era domingo. Estava em casa. Acompanhado. Consta-me que tive vontade de partilhar os textos em poesia que compilei e armazenei em jeito de caderneta e que, também, gravei-os em áudio numa tentativa de abraçar o jazz-poetry. A partilha era mesmo intencional…claro! Vezes há em que até os que se dizem reservados e discretos ligam aos holofotes!
Fiquei quieto para dar tempo e sossego à moça que me acompanhava – cujo nome não me ocorre – que, por sua vez, percorria os poemas escritos com os olhos enquanto simultaneamente escutava, pelo reprodutor, as gravações das declamações dos mesmos textos…feita por mim. Ela, sempre com uma expressão facial ambígua, ficava toda atenta. Eu, estava quieto para não atrapalha-la com a minha ansiedade em saber o que achava do meu trabalho, embora não precisasse dos seus aplausos para continuar a escrever.
- Com ou sem eles (os aplausos) continuarei desenhando palavras – disse para os meus botões.
O silêncio tomou conta da sala de estar em que estávamos sentados lado a lado. Ela, continuava atenta. Eu observava-a sorrateiramente, num olhar de quem diz: eu quero olhar mas, não quero. No entanto, algo chamou-me atenção na atenção atenta dela. Era algo que, no momento, comparei à atenção que um crente devoto e convicto da sua condição de crente dedica ao momento da missa clerical: os olhos na bíblia e os ouvidos na voz do padre.
- Puxa! Agora ultrapassei os limites do absurdo na comparação – pensei. Equiparar o meu manuscrito à Bíblia; e a minha declamação à leitura do padre, é algo que posso, no mínimo, considerar inconcebível, tomando como base a natureza sugestiva e libertadora de um versus a natureza dogmática e oprimente do outro; e, ainda, o carácter melódico, harmonioso, demasiadamente expressivo de um versus o carácter monótono, do ponto de vista de entoação, do outro.
Antes que eu pensasse mais alguma coisa que me pudesse irritar ainda, ela aborda-me com uma voz de gato: fina e plangente, e diz: olha Elísio…
Permaneci quieto para disfarçar a ansiedade que me consumia.
- epss! Os textos são maravilhosos tanto quanto as declamações, mas…. – Mostrou-se hesitante. Eu sabia que aquele “mas” pretendia introduzir uma adversativa.
O meu peito parecia frágil para suportar as batidelas dum coração que decidira bater mais forte, tirei um lenço do bolso para limpar o suor que subitamente aparecera na ponta do nariz, os meus olhos estavam cravados nos seus: estava ansiosíssimo. Queria ouvir o resto.
- mas -  disse eu, num tom grave, para que ela terminasse a frase.
- ah! Não, se não te vais zangar comigo.
- Não, nada disso. Podes dizer querida. Não sou assim tão mau. – Tentava tranquiliza-la.
- É que…os textos e a declamação…são maravilhosos MAS….parece que não foi você que produziu. Pronto falei…Parece que os textos e a declamação foram feitos por uma outra pessoa que nem é daqui.
- Aé!... – Sorri, de um jeito irónico – as pessoas têm mania de medir os outros aos palmos – acrescentei.
Ela reparou-me e sorriu – tens razão – disse ela.
E, antes que eu dissesse mais alguma coisa – que pudesse esclarecer que esta coisa de ser uma pessoa (o EU) e estar na literatura como se fosse outra pessoa (o OUTRO), é tudo uma questão de FICCIONALIDADE…é fingimento – chega-me aos ouvidos uma melodia linda que Morreira Chonguissa intitulou de “360 degrees (what goes around comes around)”. Era o som do meu alarme. Interrompido o sonho, despertei. O relógio marcava 6:00 da manhã.
- Está na hora de ir à faculdade. – Pensei.