quinta-feira, 6 de abril de 2023

Caminhos da interdiscursividade: a influência do rap na produção literária de Fernando Absalão Chaúque

escutar rap contribui muito para a minha produção literária, porque, tal como já referi, aprendo muito com o trabalho que os rappers têm com a palavra e no sentido de perceber o ângulo em que posso abordar um certo assunto num texto

Batemos maningue papo na sua última estadia em Xai-Xai a propósito do lançamento do seu mais recente livro em co-autoria com Otildo Guido (outro bro cuja conversa irei partilhar em breve) “Barca Oblonga” (2022). Num desses papos que tivemos num desses bares da cidade, partilhei este intento de me aventurar em conversas tais com os meus sobre as suspeitas que tenho sobre a sua relação com o rap. Essa foi sempre a primeira premissa. Esta coisa de o rap influenciar na escrita é ainda uma hipótese que estou disposto a falsear: assim reza a ética na pesquisa. As coisas devem fluir numa certa direcção, mas sem imposições. Foi neste mesmo desiderato que seguiu a conversa. Desta vez não foi no bar. Além da vista embaciada, a língua aos arrastos, declarações efusivas de fraternidade…os bares têm outros efeitos. Por isso fizemos assim, tal como nos lê: tela a tela. Podíamos ter conversado sobre a sua escrita, o seu livro “Âncora no Ventre do Tempo” (2021) ou sobre o seu labor no blog “tenacidade das palavras” como forma de degustar este amor que nutrimos pela blogosfera. Mas fica para breve.

Q1.

Elísio Miambo: Quando e como começou a escutar rap?

Fernando Absalão Chaúque: É difícil precisar o momento ou o ano em que comecei a escutar rap, porque acho que desde a infância estive sempre envolvido em alguns ambientes em que havia amantes do rap. Mas presumo que os anos 2008/2009 sejam determinantes. Escutei-o em casa, em Manhiça, e, principalmente, na escola secundária através do envolvimento com amigos e colegas com quem criava sessões, ao intervalo, de audição do bom rap que cada um tinha no celular.

Q2.

EM: Que rappers tem escutado?

FAC: Escuto mais os rappers do underground. Os rappers que fazer o chamado rap consciente. Que usam o rap como ferramenta para contestar. Falo de rappers como Azagaia, o Flash, entre outros. Refiro-me também a outros rappers norte-americanos como Sean Price, Jay Z, entre tantos que não me vêem em mente agora. Falando, também, do rap tuga, posso mencionar Valete, Sam The Kid e Kid Mc. Há, entretanto, momentos em que me ponho a escutar os do mainstream para perceber as novas tendências do que se está a fazer.

Q3.

EM: Faça um top 5 de rappers da sua preferência e justifique as suas escolhas.

FAC: É muito difícil para mim fazer o top 5 porque há tantos rappers que eu admiro. Por vezes, fazer um top 5 é criar rótulos. O primeiro que eu colocaria, é o rapper americano Nas, digo isso porque foi uma das primeiras pessoas que eu escutei conscientemente, apesar de que nos tempos não percebia nada em termos de linguagem, mas ele serviu-me de fonte de inspiração no rap. É alguém que escutei muito e ainda escuto. Apesar de a indústria musical norte-americana ter sofrido muitas metamorfoses, ele mantem-se firme no que quer fazer. Não faz o que o mundo quer ouvir, mas faz o que ele quer dentro dos seus ideais.

Em segundo lugar, eu colocaria o Fuse (rapper português). É um rapper que eu admiro devido à sua capacidade de labor com a palavra. As músicas dele são intensas, com uma carga poética muito profunda e eu acho que, até certo ponto, as músicas dele já não são exactamente músicas mas são livros em áudio ou uma outra coisa que não consigo dizer agora. Em terceiro lugar, colo Azagaia por tudo que toda gente sabe: a garra que ele tem, a forma como ele olha para a música. Tem-na como um instrumento para servir o povo moçambicano, para servir a todo ser humano no sentido de contestar, dizer o que só se diz nos bastidores, etc.

Em quarto lugar, eu coloco o Flash. A razão desta escolha prende-se com a consistência apesar das transformações que a indústria musical tem sofrido.

Por fim, coloco Duas Caras, porque é um rapper que eu admiro bastante. Ele sempre fez boa música apesar de ter sofrido críticas devido à nova vibe em que ele engrenou, mas eu o admiro muito pela capacidade que tem de ir atrás do que quer. Ele sempre disse que precisava de rentabilizar a música: fez pandza, agora manteve-se no rap, fez o nome e tem procurado fazer o que as pessoas querem ouvir.

Q4.

EM: Já escreveu/gravou algum material neste género?

FAC: Já gravei muita coisa. Comecei a gravar em 2011, mas comecei a escrever letras de rap em 2009. Já tive um grupo de hiphop com amigos em Manhiça. Foi um grupo de que se falou muito nos tempos, fazíamos rap underground. Tenho, inclusive, algumas faixas nossas gravadas. Actualmente tenho gravado uma e outra coisa, mas estou mais virado para a literatura.

Q5.

EM: Quando e como começou a escrever textos literários?

FAC: Eu comecei a escrever textos literários em 2013, num momento em que já não tinha tempo para ir ao estúdio para gravar com os meus amigos. Assim, decidi que ao invés de ficar a escrever letras, tinha de fazer outra coisa que me deixasse conectado com a palavra. Comecei pela poesia e, na verdade, só começo a escrever poesia porque passei pela escola do rap. A caminhada toda que tive desde 2008/2009 a escutar, depois começar a escrever foi muito importante porque foi através do rap que eu aprendi. Eu tive um senhor que quando comecei a escrever letras, disse-me que se quisesse ser um bom rapper underground, a primeira coisa que devia conhecer é a palavra. E, sendo assim, ofereceu-me um dicionário e disse “aqui podes encontrar as palavras que tu queres para fazeres as tuas letras, é só ires aqui e vasculhar…vais encontrar as palavras certas para as tuas letras”. Outra coisa que me disse foi que eu tinha de ler muita poesia, textos narrativos…deu exemplo das músicas de Valete em que se narra uma história…enfim, deu-me uma visão do que é isso de ser rapper, storyteller, do lirismo ou do liricismo como se diz. Segui essas dicas e comecei a escrever poesia usando a bagagem que eu já tinha. Daí fui ambicionando outros géneros.  

Q6.

EM: A escrita é, por excelência, um exercício de memória. Muitas vezes o escritor dialoga com as suas vivências. Tal pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente. Já sentiu que, em algum momento, estivesse a dialogar com o universo rap na sua produção literária?

FAC: Várias vezes tive essa sensação de estar a escrever um texto e parecer que estou a dialogar com uma música através de uma frase ou um verso. Há casos, também, de pontos conscientes em que eu tenho uma ideia de um texto em mente e lembro-me que há uma música que dialoga com essa ideia. Acabo por pensar num verso desse tal rapper e adequá-lo como se fosse uma paráfrase. Há muita interferência do rap no que escrevo, principalmente nas músicas que me marcaram nesta trajectória toda. Por exemplo, há dias publiquei um texto intitulado “melhor governo do mundo” que comecei a escreve-lo por causa desta coisa da TSU, etc. Quando terminei, li várias vezes e ocorreu-me que o que escrevi no texto é o que Kid Mc diz na música “o que querem que eu cante”. Mesmo assim, publiquei o texto porque achei conveniente que o publicasse mesmo sabendo que há essa coisa. Quando o fiz, o meu amigo Albert Dalela, também escritor, disse “esse teu texto lembrou-me - o que querem que eu cante - de Kid Mc.”

Com isso quero dizer que por vezes esta interferência do rap ocorre de forma consciente ou inconsciente.

Q7.

EM: Acha que o facto de escutar rap contribua para a sua produção literária? Se sim, de que forma?

FAC: Escutar rap contribui muito para a minha produção literária, porque, tal como já referi, aprendo muito com o trabalho que os rappers têm com a palavra e no sentido de perceber o ângulo em que posso abordar um certo assunto num texto. Os rappers têm essa capacidade de ter um problema social em destaque num texto, mas sem desmanchar tudo no primeiro verso. A ideia de condensação da matéria. O rapper pode fazer uma música de 5 minutos a falar de uma determinada coisa, mas vai deixando ficar a sua mensagem nas entrelinhas. Muitas vezes é o que romancistas fazem ao escrever um livro de 300 páginas por exemplo, mas deixando ficar a ideia que se pretende abordar no livro a conta-gotas.

Q8.

EM: Que paralelos pode traçar acerca do rap e da literatura produzida actualmente em Moçambique?

FAC: Esta última questão é um pouco dilemática, porque o rap que se tem feito ultimamente tem muito pouco de literário. São poucos rappers que conseguem trazer uma música consciente. Há mais rappers virados para o mainstream. Entretanto, há os que se mantêm nesta linha de trazer o literário nas suas músicas. Por exemplo, quando olhamos para algumas músicas de Azagaia, algumas músicas de Flash e de outros rappers como Sick Brain, encontramos algumas referências que eles fazem a nomes como Mia Couto, Craveirinha, Paulina Chiziane, etc. e isso é muito bom.

Ainda sobre este paralelismo entre o rap e a literatura, temos a Iveth com “surge et ambula, mulher: tu és mais que isso”, também faz uma referência ao texto de Rui de Noronha que também tem uma intertextualidade com o “Surge et ambula” de Antero de Quental.

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