quinta-feira, 23 de março de 2023

Caminhos da interdiscursividade: a influência do rap na produção literária de Ernestino Maute

“se a literatura termina só no deleite, eu acho que alguma coisa está aí a falhar”

Ainda estava a nutrir um luto que transcende espaços e tempos do rap nacional. What? Foi a primeira palavra que redigi quando soube do infortúnio através de uma plataforma virtual: foi a minha forma de traduzir o choque.

Neste canto do hemisfério, quando alguém parte, a vida pára: sem festas, sem ruídos, sem coitos, etc. Para mim, estas conversas são uma festa. Nas festas gera-se ruídos. Os ruídos que desta festa podem advir incitam coitos. Destes, a fecundação das almas, quer gostem ou não de rap. É inevitável. Conduzi as conversas entre Janeiro e Fevereiro últimos, longe de imaginar que o nosso tópico conversacional passaria a ter um novo marco: 9 de Março.

No início achei que estivesse a conversar com amigos/colegas escritores que gostam de rap. Debalde. Estes tipos são pensadores. No caso deste, foi fácil perceber: ali sentado, na sua, no meio de umas tantas pessoas que estavam ávidas em acompanhar as incidências do sexto festival internacional de poesia (em Xai-Xai), aparentemente aéreo mas atento ao que se estava a tratar e quieto. Quem não o conhecia não poderia adivinhar a desenvoltura do papo que desenvolve. É coisa dos poetas e pensadores. Gostam de ler. Não só os livros, mas os ambientes em que se encontram, sobretudo quando lhes são algo novo. “É o Ernestino Maute”? Perguntei. 

Depois da resposta afirmativa, orientei que se juntasse aos outros escritores nos assentos que lhes haviam sido reservados. Daí foram papos atrás de papos, mas nada de rap: eu sabia que tal ficaria para outras datas. Eis-nos aqui sentados tela-a-tela, conversando sobre o rap, literatura, a sua escrita e as estruturas dialogais que se inscrevem nesse triângulo. Tal como disse no início destas linhas, era para ser uma conversa descontraída entre brôs, mas além do poeta descortinou-se um pensador. Daqueles com quem se priva uma conversa e dela ficam cicatrizes na alma para a posteridade. Vem daí, talvez, o ímpeto para intitular o seu livro de poemas: Cicatrizes de uma Alma Reclusa (2018).

PS: e agora: como pôr o guiso no gato? _ temos as mesmas iniciais nos nomes com que assinamos os textos. Como serão as siglas ao longo deste texto?

Q1.

Elísio Miambo: Quando e como começou a escutar rap?

Ernestino Maute: Eu comecei a escutar o rap por volta de 1998, porque a minha mãe, fanática de música, tinha nessa altura um rádio cassete. Dentre várias cassetes de música, a dita romântica, onde perfilavam nomes como Roberto Carlos, Leandro & Leonardo, entre outros, havia também uma cassete do agrupamento Outkast. E, certo dia, na sua ausência, por calha, coloquei aquela cassete enquanto me vestia para ir à escola. Lembro-me que era o meu primeiro ano do secundário, quando a sexta e sétima classes eram leccionadas no ensino secundário. E aquilo virou uma rotina, uma febre…eu escutava aquelas batidas de Outkast fazendo as limpezas, abanando a cabeça e por aí. Enquanto isso, em paralelo, o movimento do rap já se fazia sentir nas ruas de Maputo. Mais tarde, juntamente com os meus amigos, começamos a fazer o vulgo playback das músicas do agrupamento angolano SSP. Depois disso, tornei-me fazedor, tendo, inclusive, gravado alguns números de música.

Q2.

EM: Que rappers tem escutado?

EM: Tenho escutado fielmente Duas Caras, Valete, Flash e o Rage.

Q3.

EM: Faça um top 5 de rappers da sua preferência e justifique as suas escolhas.

EM: Em primeiro lugar está o Duas Caras. Ele consegue conciliar um pouco de tudo. Consegue me dar um punchline mas sem cair no panfletário. Fazer-te reflectir mas com um pouco de graça lá dentro e com muita inteligência. Depois segue o Valete, o Rage, o Flash e o Azagaia. Esses são os meus prediletos porque para além dos skills, do flow…eles conseguem aliar essa forma que faz da arte uma coisa bela com conteúdo. São rappers, acima de tudo, muito informados e de muita leitura. E, muitas vezes, as suas músicas são um pouco adiantadas em relação ao seu tempo e, por vezes, nos fazem voltar ao passado, colocando-nos numa situação de reflectirmos sobre a vida no pretérito, presente e futuro.

Q3.

EM: Quando e como começou a escrever textos literários?

EM: Aqui vou ter de delimitar uma certa fronteira, não sei se é ténue ou uma fronteira ríspida mesmo, não sei. Eu começo a escrever, na verdade, para o rap. Não sei se essas letras podem ser enquadradas naquilo que é o fazer literário. Se houver tal possibilidade, eu diria que começo a escrever em 1999. Ora, o fazer literário consciente de que isto é literatura, eu começo em 2003 por via do isolamento, uma vez que andei ali a estudar para Inhambane, no Centro de Formação de Professores Primários de Chicuque, à beira-mar naquela linda paisagem…

Eu não tinha condições de voltar a Maputo quando nos dessem folgas. Então, quando não fosse a uns dos distritos passar o fim-de-semana com um amigo ou um colega, eu pegava em mim e ficava no internato: aquilo era praia, uma adega a beber uma sura…o isolamento em si, a escuta da rádio…tudo isto me instigou a escrever os primeiros textos. Lembro-me, inclusive, que eu escrevo exactamente para participar de um concurso relativo às comemorações de 25 de Setembro. Então, o internato já tinha lançado esse concurso e disse para mim: já que ando a escrever algumas coisas, por que não escrevo um texto? Queriam um texto prosaico sobre o 25 de Setembro. Meti-me nessa. Escrevi um texto e veja que o internato era constituído por 300 estudantes, mas só participaram por aí quarenta e tal. Eu consegui ser um dos 3 seleccionados. Aquilo instigou-me também: ganhei uns cadernos, umas esferográficas, um chapéu…enfim, fui escrevendo no internato.

Então, para mim, o início é esse: no ano de 2004. Sem muito fulgor, sem muita consciência daquilo que eu queria, mas aquilo já era constituía um fazer literário. Depois disso abrando. É preciso dizer: abrandei muito. Faço aquele curso em 2005. Volto para Maputo. Entro aí nos distritos a trabalhar e volto a cair para o rap. Continuo a escrever, mas para o rap. Só muito mais tarde é que volto para o fazer literário. Isto acontece quando eu entro na Universidade Eduardo Mondlane em 2011. Aí eu tive belíssimos professores: Gilberto Matusse, Lucílio Manjate, Nataniel Ngomani, Teresa Manjate…e cada um deles era um motor de instigar o fazer, a reflexão…e daí eu notei que tudo aquilo que eu estava a aprender no curso de Literatura Moçambicana, que é o que estava a fazer, tinha a ver com a análise de textos literários: e era exactamente o que eu fazia. Ao me aperceber disso, interessei-me em voltar a escrever com mais fulgor. Mas confesso que perdi muito tempo. De 2004 para 2011 é uma vida. Aí já começo a seguir os professores, a pedir emprestado os livros para melhor aperfeiçoar a minha escrita.

Q4.

EM: A escrita é, por excelência, um exercício de memória. Muitas vezes o escritor dialoga com as suas vivências. Tal pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente. Já sentiu que, em algum momento, estivesse a dialogar com o universo RAP na sua produção literária?

EM: Nunca tinha pensado nisso, mas agora que me colocas a questão, sinto que há sempre há aquele bichinho de querer bobinar para perceber se, de forma intencional, já me aconteceu. Mas, olha, não me lembro. Pode até acontecer, mas de forma inconsciente, uma vez que temos uma espécie de aquecimento antes de escrever: alguns ficam isolados, no silêncio e depois partem para a escrita; ou alguém parte depois de uma música…enfim, talvez nessa senda, de forma inconsciente. Mas procurar uma intertextualidade propositada, o que é bom e é bonito, não me lembro.

Q5.

EM: Acha que o facto de escutar RAP contribua para a sua produção literária? Se sim, de que forma?

EM: Sim. Contribui em grande medida. Contribui uma vez que a literatura tem este pendor reivindicativo, de contestação, de dar voz aos espezinhados e o rap anda na mesma senda. Desde a sua origem, o rap sempre deu primazia a essa responsabilidade de dar voz aos outros. Existem outros que cantam por deleite, mas se a arte ou a literatura termina só no deleite, eu acho que alguma coisa está aí a falhar. O rap também tem essa parte do deleite, mas sempre foi um género musical que pautou pela contundência no que diz respeito à crítica social. É por aí que acredito que o rap contribui, de certa maneira, para que ao entrar para a literatura eu escrevesse tendo esse punho crítico. Foi o rap. Eu aprendi essa questão da crítica no rap: por perceber que dentro de uma arte pode se trazer o belo, mas pode se revindicar, reclamar, criticar ou protestar.

Q6.

EM: Que paralelos pode traçar acerca do RAP e da literatura produzida actualmente em Moçambique?

EM: É uma questão muito interessante e profunda, acima de tudo. Se tivermos de olhar para o rap feito desde 1997 até por aí 2005 ou 2010, comparativamente à literatura que foi feita um pouco antes de 1997 a 2005, o que noto é um denominador comum: o labor da palavra. Tu olhas para as obras desse tempo sejam elas de literatura ou rap, percebes que havia muita entrega naquilo que é o trabalho oficinal. A questão estética e a ideológica estavam lá profundamente enraizadas. Provavelmente devido àquela máxima que diz: a época influencia na temática das artes. Se formos a prestar atenção, depois de se ter tido a independência, surge uma azáfama do multipartidarismo, da Democracia…e o labor temático tanto no rap assim como na literatura andava por aí. Se formos a olhar, por exemplo, “o país da marrabenta vai de mal ao pior” da GPro, nesta crítica social percebe-se claramente que estava lá a música bela, mas havia este objectivo de chamar a atenção sobre alguma coisa.

Portanto, nesta altura fazia-se uma literatura e um rap ricos do ponto de vista estético e havia um comprometimento, sob ponto de vista ideológico.

Quando reparo para a literatura e o rap 2005-2010, tirando um e outro, declinaram, sob ponto de vista deste comprometimento com a questão ideológica. Há muita pressa na publicação dos livros. Há, também, muita pressa na publicação das músicas rap. Se olhar para estas músicas, notarás que são palha que arde com um palito ou com um sol de 40 graus. Arde tudo e ali no álbum não encontras nada. Se olhares também para os livros produzidos por nós que entramos um pouco depois de 2000, tirando um e outro, vais encontrar livros muito fracos também. Mas, em grande medida, influenciados pelo tempo em que vivemos. 

Outro aspecto a que posso fazer referência é o facto de o rap que se faz hoje em todo mundo é resultado do nível de leitura dos povos fazedores desse mesmo rap. No nosso caso, somos uma nação jovem. Nunca se leu tanto, mas mesmo esse pouco reduziu. Mas há nações já há muito estabelecidas e que tinham uma tradição de leitura, mas se olharmos para os dias de hoje, pelo advento das tecnologias, notamos que o interesse pela leitura abrandou e não se escreve rap sem leitura. Se escreves, és um mau rapper. Não apenas ler no sentido de repetir as palavras, mas a leitura é também a capacidade analítica que ler a sociedade. E, estamos numa época de muita correria, de querer aparecer, de ostentar…e vamos cortando as etapas. O processo não está sendo respeitado.

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