A modelização da estratificação social em Moçambique por Azagaia (em Cubaliwa) e Gpro (em Forever)

Estupendo! Foi a palavra que me escapou pelos lábios depois de minutos de silêncio gritante escutando “Cubaliwa” de Azagaia (rapper moçambicano) e “Forever” da Gpro (grupo moçambicano de Rap).
Tudo começou quando na faixa intitulada “cães de raça” vejo-me repentinamente a mercê da caracterização mais lúcida da sociedade moçambicana com que me cruzei nos últimos anos, pelo menos no que diz respeito a questões de cor da pele e o possível status que disso advém, e que na verdade é uma cruz que cada grupo social carrega nas costas: é como se o sistema indiano de castas se tivesse inserido o íntimo das nossas vivências e trazendo consigo uma aberrante estratificação social.
É neste contexto que em “forever” da Gpro, na faixa “filhos da lua” deparo-me com o retrato falado dum grupo social (uma suposta casta) de origem suburbana, exposto a uma vida de “constrangimentos” financeiros e vendo a pobreza entrar-lhe pela porta e a fé fugindo pela janela, daí a pergunta: “quem é esse Deus de quem a bíblia nos fala…será um Deus de Sommerschield ou de mafalala!?...
No entanto, “cães de raça” mostra-me que existe uma certa diversidade, em termos tipológicos, de cães de raça em Moçambique:
*      “os que não têm bandeira; descendentes de pai branco, intelectual e mãe preta, lavadeira; na tuga (refere-se a Portugal) o assimilado ou português de segunda, na terra (refere-se a Moçambique) condenado a mecânico ou prostituta; e que se arranja job dizem que deu a fruta” - são os mulatos;
*      “os donos da terra sem nunca terem mandado nela; com os amigos querem paz, com os irmãos fazem guerra por isso são explorados na sua própria terra; são os únicos ricos que vivem na miséria; expulsaram o colono mas nunca o colonialismo” – são os negros;
*      “os que vivem nas casas da zona chick; na garagem estacionam gips; há séculos que são VIP nas terras de Moçambique; são donos da língua, donos da obra, donos das acções no banco, donos da arrogância; tem os pretos e mulatos como primos subordinados ou irmãos injustiçados” – são os brancos;
*      “os que cuja vida é fazer negócio; brancos, pretos e mulatos são seus clientes de coração; seus filhos estão acostumados a ver o preto como empregado, a carregar sacos na loja e no armazém; são donos das lojas; são comerciantes; fazem dinheiro circular, são bons negociantes” – são os indianos.
Como podemos perceber, é um cenário que tão nítida e claramente quanto o preto no branco, determina a fronteira que separa uns dos outros, sendo que as “castas” desfavorecidas sentem que a “fronteira” está mal delimitada. E, porque “o estômago vazio é mau conselheiro, transforma simples ovelhas naqueles lobos sedentos de sangue” (gpro in “filhos da lua”) com o agravante de o estado moçambicano não ser muito paternalista como o nosso vizinho que criou o black empowerment (embora o sete milhões tenha tentado entrar na mesma linha) observa-se que cada um faz o que melhor sabe para impor algum tipo de justiça na “fronteira”… claro: “quando nada mais te resta, tu entregas-te de corpo e alma e o diabo é que faz a festa” (gpro in “filhos da lua”) porque a lei da selva já prevê: “gente mata para não morrer, e qualquer arma serve quando não tens nada a perder”(gpro in “filhos da lua”) e, aliado aos tiques típicos duma sociedade consumista que, aliás, já somos, surge a violência, que é só de alguns, e, duma forma generalizada, surge o calculismo que gera a hipocrisia donde surge o que a Gpro designa de “Gucci republic” que é habitada pelos “miss e mister Moçambique” como preferiu chamar Azagaia.
O cenário na “Gucci republic” é animalesco e isso é extensivo à toda sociedade: “aqui só se fala a língua do dinheiro, poucas sogras querem ter um rapper como genro, elas preferem a filha casada com um engenheiro,” tudo sob o lema: “garante o teu futuro que o amor virá com o tempo”. É uma sociedade em que “tens que ter um benz, tens que ser o gajo mais falado dos men, ou gigolô, se não tens guita (refere-se a dinheiro) no chick (refere-se a mulher) vai te dar valor”.
É neste contexto que a violência (no sentido lato do termo ou no figurado que levar-nos-ia à corrupção, por exemplo) que já foi muito bem abordada em “filhos da lua”, ganha azo para a sua ocorrência, como forma de enriquecimento rápido para melhor competir na “Gucci republic” e a hipocrisia gera os “miss e mister Moçambique” que normalmente são de “castas” inferiores mas, na rua, representam de tal forma que parecem, realmente, gente endinheirada:
“Ela, está sempre a procura de algo que a deixe mais bela, é a negra que não é branca mas adora parece-lo, seu cheiro natural agora é perfume Chanel, com o andar da Beyoncê e cabelos da cinderella, acredita que é só com maquilhagem que ela brilha, gaba-se do cabelo que deixa mulheres carecas na Índia…”
“Ele, passa no seu carro, está de vidros fumados, o sapato que ele usa tem o cheiro que ele tem, se tem dinheiro pensa que daí vem beleza, a triste realidade é que é dinheiro da mesada, namora com uma kota (refere-se a uma mulher muito mais velha) diz que adora mulher velha mas ele só quer a mola (refere-se a dinheiro)
Portanto, trata-se de uma outra forma de reestabelecer as “fronteiras” impostas na sociedade, tal como retrata “cães de raça”, e garantir a competitividade na “Gucci republic” duma forma diferente mas nada melhor que a que observamos em “filhos da lua”, pois neste caso, pela sede de se afirmar como proveniente da “casta” superior, todos assumem identidades postiças que se desfazem em pouco tempo tal como os chifres que o coelho havia colado na cabeça para poder participar na festa que era unicamente reservada aos animais de cornos que não é exactamente o caso do senhor coelho.
Consequência: a violência gera criminosos e “a sobrelotação já é um problema comum porque cadeia é como o chapa, cabe sempre mais um” (gpro in filhos da lua) a hipocrisia gera enganos e desilusões, que por sua vez, geram traumas e daí a desconfiança que não está ao nível de um cepticismo que caracteriza o sentimento pós-moderno, trata-se sim de perda do “encantamento do mundo”, de que as crianças são as maiores vítimas, e da propalação de um imediatismo carnavalesco que assola, sobretudo, os jovens. Se não acreditam, visitem as escolas ou as ruas e conversem com crianças e jovens sobre assuntos do mundo das ideias!
Ora, há aqui uma série de aspectos a considerar que são aparentemente desconexos e desorientados, o que resulta em perplexidade, para quem tenha vivido tempos supostamente melhores, e indefinição para a grande maioria e, obviamente, os média fazem disto espetáculo e alimentam o seu joguinho de sensacionalismo que, sinceramente, é o que nos atrai.
E aí, entram em cena os optimistas, “temos que mudar” “a mudança começa contigo” “tu não podes mudar o mundo, mas se cada um fizer um bocado podemos melhorá-lo” “o mundo muda a cada gesto teu”…e quando finalmente é feita a pergunta “como mudar?” ou “por onde começar?” todos tomam noção do caos que se instalou na nossa sociedade. Que se entenda que a noção de caos aqui trazida é diferente da pura confusão, provavelmente o conceito “complexidade” seja mais aceitável para estabelecer sinonímia com o de “caos”. Segundo esta teoria - que tem atraído muitas mentes curiosas em diversas áreas, tendo começado por atrair o matemático Eduard Lorenz - diríamos que um facto, aparentemente insignificante, causa um, outro, mais um, mais um…enfim uma infinidade de acontecimentos cada vez mais complexos e aparentemente desconexos que se sucedem a partir de um acontecimento “mesquinho” que se vai agigantando como uma bola de neve.
Só para ilustrar, apetece-me citar a célebre colocação de George Herbert: “Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura. Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavaleiro. Por falta de um cavaleiro, perdeu-se a batalha. E assim, um reino foi perdido. Tudo por falta de um prego.”
De forma similar, temos cá entre nós: a estratificação social que origina uma aberrante desigualdade a nível de distribuição de renda (quando falo em desigualdade procuro de todas as formas estar alheio a qualquer tipo de confusão com a noção de nivelamento que não condiz com o mérito que advém do esforço de cada um), e, associado ao facto de estarmos numa sociedade consumista e competitiva em que quanto mais dinheiro se tem mais portas se abrem, inclusive as do mundo subjectivo, surgem diversas falcatruas de pertencer a esse grupo muito restrito de “senhores manda-chuva”, seja pela via do crime (que dele surge a superlotação das cadeias), do calculismo (daí a descrença no amor, amizade, honestidade, bondade, etc), da hipocrisia (daí a desconfiança para com tudo e todos), da prostituição, etc, etc…notavelmente, é uma sequência quase desconexa de acontecimentos que se sucedem num sentido de causa-efeito, qualquer coisinha relacionada com o efeito dominó, que nos leva aceitar que, socialmente, estamos diante de um caos e que, sim, esse tal caos compreende em si uma ordem por ser decifrada.

É mais ou menos este o milindre que se vive sobretudo nas cidades e vilas do meu país, e aproveito, mesmo assim, para dizer: sejam bem-vindos à nação que tem “cães de raça”, regidos pelo sistema “Gucci republic” que é o principal responsável pela existência de “filhos da lua” e “miss e mister Moçambique”.

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