Entrevista a Elísio Miambo


”De toda leitura que faço, sugo tudo e mais alguma coisa, trituro os restos, misturo com as minhas vivências e faço daquilo tudo matéria homogénea para que me mantenha vivo como escritor que sou.”

Há muito que tenho convivido com o poeta/escritor Elísio Miambo e os seus textos, tanto nos saraus na casa provincial da cultura da cidade de Xai-Xai, sul de Moçambique, assim como nas redes sociais e em blogues, tanto que, decidi convidá-lo a conceder uma entrevista a Rectas Letras em Acção.
Elísio Miambo, nasceu em 17 de Julho de 1992, na cidade de Xai-Xai __ província de Gaza, sul de Moçambique. Filho de pai ma-chope e de mãe ma-changana, ele considera-se fruto da mistura destas duas etnias, embora tenha nascido numa sociedade patrilinear, e que nessa perspectiva, tenha que ser considerado ma-chope. Seu envolvimento com a escrita começa aquando do seu ingresso no ensino secundário aos 14 anos, porém, tendo como forma de expressão o música (rap), à medida que ia mergulhando em leituras de textos em poesia e prosa (fornecidos pelos manuais de ensino) de autores como Mia Couto, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Rui de Norronha, Anterro de Quental, Cesário Verde e outros, foi percebendo que uma nova arte surgia dentro de si __ a poesia propriamente dita, de modo que durante algum tempo dedicou-se a duas artes em simultâneo, a música e a poesia. Actualmente, além de escritor de poemas, ele colabora como colunista literário no blog Rectasletras.blogspot.com onde é autor e administrador.

 Rectas Letras em Acção: Quem é Elísio Miambo, como pessoa?
Elísio Miambo: Me é sempre difícil responder a esta pergunta tanto que acabei chegando à conclusão de que não me conheço. Mas, basicamente diria que Elísio Miambo é uma pessoa que acima de tudo presa a simplicidade, é reservado, um pouco exigente e com uma dose considerada de senso de humor. Está filiado a uma religião, mesmo não sendo praticante assíduo e, não tem nenhuma filiação partidária…enfim, sou uma pessoa que gosta de ser livre __ não vejo bem maior que este, até simpatizo com as regras mas, sinceramente falando: nelas prefiro as excepções.
R.L.A: Que diferenças podem ser percebidas entre o escritor e a pessoa, no que diz respeito a crenças, convicções…?
E.M: Essa pergunta é provocante! (risos) e vai de encontro à lógica de criação artística com a qual não tenho razões plausíveis para discórdia. Porque, é um facto que o EU e o OUTRO são duas entidades diferentes (embora partilhem o mesmo espaço/corpo) mas não necessariamente divergentes do ponto de vista de crenças, convicções, etc. Assim sendo, porque antes de ser escritor, sou pessoa, o escritor tem sempre a tendência de romper ou adaptar as convicções da pessoa. Estas diferenças são sentidas sobretudo por quem conhece as duas entidades, mas, assim esporadicamente diria que enquanto a pessoa tende a ser mais reservada (mas nunca submissa), o escritor aparenta ser mais ousado, destemido e, até certo ponto, inconsequente. Certamente que as diferenças vão um pouco alem disso mas, de forma superficial é isso que posso adiantar…
R.L.A: As suas convicções como pessoa interferem no seu EU escritor?
E.M: Considerando que não há limite objectivamente definido entre a pessoa e o escritor e que a pessoa é o primeiro leitor da obra criada por um escritor que, como já o disse partilha o mesmo espaço, quero crer que seja natural que haja estas interferências tanto de um como de outro. O difícil agora seria rastrear objectivamente o âmbito em que isso terá acontecido.
R.L.A: Qual é a sua trajectória como leitor?
E.M: Feliz ou infelizmente, a minha trajectória como leitor foi sendo construída pelos livros didácticos: os contos, os poemas, os excertos de romances, enfim…diversas tipologias textuais que a priori eram leituras obrigatórias e que a posteriori, cativavam a minha atenção e, acabei ficando fascinado pelos mesmos. Em relação a isso, devo acrescentar o facto de o meu pai ser uma pessoa que gosta de futebol, então, havia sempre num cantinho da casa um jornal desportivo (Domingo, por ex.) ou uma revista (Pamodzi, por ex.), sendo assim, por vezes lançava os olhos nos dizeres que por lá andavam, sobretudo os das revistas porque tinham/tem também uma vertente cultural. Mas, na verdade os livros didácticos tiveram grande importância para mim. Era a única via que eu tinha para observar as diferentes formas de estar na escrita. Porque uma coisa interessante que estes livros têm é que alem de apresentarem os textos apenas, vão arrolando algumas análises do texto, do estilo do autor e da corrente da qual o autor faz/fez parte, pois o fim último destes livros é apresentar, ainda que de forma superficial, formas de estar na escrita que vigoraram ao longo dos tempos.
Só em 2010 é que tive em mãos uma obra literária propriamente dita. Tratava-se de uma novela. E, por mais incrível que pareça, era uma obra em inglês, na qual vi a possibilidade de aperfeiçoar o inglês que estava a aprender na altura. Portanto, era uma forma de juntar o útil ao agradável. Já a partir de 2011, quando ingressei na Universidade: faculdade de ciências de Linguagem, comunicação e artes, passei a trocar com alguns colegas, obras literárias tanto em formato electrónico assim como em papel.
R.L.A: Considerando esse cenário…considerar-se-ia um leitor tardio?
E.M: Creio que não!
Honestamente, presumo que não. Porque este leitor sempre existiu, de alguma forma, embora estivesse naquele impasse: o que ler? Porque na verdade os livros didácticos têm lá os seus objectivos, não estão destinados ao lazer como tal.
R.L.A: Falou de leituras que fazia em livros didácticos, com que autores se deparava por lá?
E.M: Desde a 1ª até a 12ª classe, a lista é vasta, uma parte dela já está armazenada no subconsciente, se é que resistiu ao esquecimento (risos). Mas tenho ainda em mente “crónica de carteira” cujo autor não me ocorre, mas é uma prosa inesquecível, li Mia Couto, Suleiman Cassamo, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Luís bernardo Honwana, Paulina Chiziane, Calane da Silva, Rui de Noronha, Jorge Amado, Eça de Queirós, Almeida Garret, Fernando Pessoa, Carlos Drumond de Andrade, Anterro de Quental, Cesário Verde, etc…etc…etc.
R.L.A: Nenhum escritor faz-se do nada. Toda leitura é uma influência para o escritor. Que vozes/escritores estão presentes na tua escrita?
E.M: (Risos) Olha, este é o tipo de pergunta que não se devia fazer a um escritor ou candidato a escritor…como queira. Isto porque, de toda leitura que faço, sugo tudo e mais alguma coisa, trituro os restos, misturo com as minhas vivências e faço daquilo tudo matéria homogénea para que me mantenha vivo como escritor que sou. No entanto, é difícil fazer este levantamento, assim de forma leviana…o que posso avançar é que tenho dividas a pagar a figuras como: Mia Couto, Noémia de Sousa, José Craveirinha, José Saramago, Anterro de Quental, Cesário Verde, etc.
R.L.A: Bem, de alguma forma teria a respondido esta questão…mas mesmo assim eu deixaria de coloca-la. Consegue perceber algum diálogo intertextual entre a sua escrita e a dos anteriores fazedores da escrita em Moçambique?
E.M: É um facto incontornável! No meio literário os diálogos intertextuais são incontornáveis, pois, textos primeiros inexistem tanto quanto as puras cópias. Em relação a minha escrita e a dos anteriores fazedores da escrita, eu quero crer que os diálogos intertextuais sejam marcados por paráfrases, epígrafes, citações, alusões (uma mais subtis que as outras) e não me arisco muito a falar paródias, por exemplo.
R.L.A: Que desafios acha que se colocam para os novos fazedores da poesia em Moçambique?
E.M: O que entendo dessa pergunta é que ela procura buscar de mim os desafios que se colocam na minha própria actividade, porque sou também um novo fazedor da poesia em Moçambique. Para respondê-la (embora sem autoridade desejada para tal) diria que o cenário que se vive hoje, não é diferente do que fora vivido pelos homens da poesia de combate. Há crises, há dificuldades, há problemas, há males gravíssimos por ultrapassar, e, numa opinião algo pessoal, assumo que a poesia possa ter um papel importante para o efeito. Olhando para a realidade sócio-política de Moçambique, esta atitude constitui uma inconveniência, de facto, mas tal como afirma José Luís Tavares numa entrevista concedida a Maria João Cantinho, “Um poeta que não é uma inconveniência social, é apenas um reprodutor da ordem vigente mesmo se comprazendo em sofisticados jogos de máscaras.” E digo mais, há sim necessidade de tocar nos males, na dor que instiga a sociedade moçambicana e o mundo em geral. Querendo com isso concordar com Noémia de Sousa em “Se este Poema Fosse” quando afirma que “Se este poema fosse a imagem crua da verdade, / eu nada mais pediria à vida/e passaria a cantar a beleza garrida/das aves e das flores/ e esqueceria os homens e as suas dores…”E, ainda em relação a isto, deve-se acautelar ao facto de quando se fala numa poesia neste sentido pensar-se numa escrita panfletária e despreocupada com o valor estético do acto, tanto que, por vezes, este tipo de poesia acaba valendo mais pelo dito, mas não pela forma como o dito é dito.
R.L.A: Sabe-se que é membro do grupo cultural Xitende. Fale-nos dele.
E.M: Surge o grupo Xitende na década noventa, sendo um grupo literário da cidade de Xai-Xai, criado por jovens escritores. Ao longo dos anos devido a necessidade de continuar com os estudos, grande maioria dos autores desta iniciativa afastou-se da mesma. Em 2011, havendo necessidade de se ter um programa do género, “ressuscitou-se” o grupo já com novos membros. O grupo cultural Xitende assume como desafios, viver e fazer viver a cultura. Para tal, o Grupo cultural Xitende tem organizado as noites de poesia que tem decorrido na última sexta-feira de todos os meses, tendo seguintes actividades: declamação de poesia ao som da Timbila, dissertações sobre a vida e obra de diversos artistas, assuntos sociais e música ao vivo com bandas locais. Desta forma, o grupo acredita que será possível o encaminhamento dos valores da juventude da província de Gaza e de Xai-Xai, em particular, a bom porto e precaver o “abismo cultural” que todos testemunhamos.
R.L.A: Ao falar das noites de poesia, acabei lembrando-me do artigo “Jazz Poetry” que o Elísio Miambo publicou neste blogue. Tem alguma preferência por este “estilo” de poesia?
E.M: Na verdade, sim. Eu gosto de jazz, gosto de poesia (tanto de escrever assim como de dizer), então quando li sobre o jazz poetry, simpatizei com a ideia e decidi incorporar este estilo na minha escrita, se sou feliz ou não nesse processo, que o digam as pessoas que me ouvem dizendo um poema jazz ou lendo/decifrando um deles (deixo em anexo um texto meu com essa tendência__ vide texto 1).
R.L.A: Fala-se muito da inspiração no processo de criação…qual é o seu ponto de vista em relação a esse aspecto?
E.M: Esse assunto é discutível! Eu pessoalmente, assumo a inspiração como sendo a origem da trama, a motivação, o estímulo que me leva a escrever um determinado escrito. É verdade que há daqueles momentos em que o escritor torna-se, de certa forma, objecto da sua vontade de escrever, e muitos costumam conceber isto como sendo inspiração. Esta é uma concepção que não me convence, e não êxito em discordar dela. Para mim, esta necessidade, este desejo, esta vontade quase incontrolável pode ser tida como êxtase ou mesmo vício, mas não como inspiração.
R.L.A: Só par terminar…dos mais rudimentares materiais de escrita, surgiu o papel e hoje temos telemóveis, computadores e outros materiais que com o advento das novas tecnologias vão surgindo por aí. Qual é a tua preferência quando a vontade de escrever te bate a porta?
E.M: Teria dito no início que aprecio muito a liberdade e, o sentido de liberdade, para mim, na arte de escrever passa por escrever onde (refiro-me ao lugar e não o material), quando, como e o que quiser. Assim, o material que preenche estes requisitos para o caso da poesia é o telemóvel. Isto porque este é um género que implica por vezes uma “respiração muito controlada”, e, por vezes é desgastante procurar a frase perfeita numa cabeça suja de verdades. No caso da prosa, acabo preferindo o computador porque aí já posso “respirar à vontade”, e é incrível que quando se está numa tela de um computador as ideias fluem de um jeito aterrorizante. Em relação ao papel…bem, raramente uso. Até tenho uma caligrafia aceitável mas são quase inexistentes as vezes em que pego no papel para brincar com o abecedário.
TEXTO 1:
OS SUBVERSIVOS…NA INSUBVERSÃO
Faz se silêncio ingeral neste Reino! Pois é!...lá no fundo oiço vozes.
São as falas dos enseivadores[1] da nação__ os reaccionários!
Aqueles que não querem esperar a viragem da luz do semáforo,
Toda rubra, paralisando uma nação inteira que só e só a tocha[2] une!
Claro! Há urgências nepotistas por cumprir.

Lá no bar, está tudo bom por eles estão juntos,
Gritando e cantando… o verão chegou… e eles não ficam de fora!
Porquê não cantam “freedom song” ou “winds of change” de um Jimmy Dludlu…
Que além de um simples piyo…piyoo...piiyoo…piyoo…whee…le-le-le, Mayo!
É uma aprendizagem de liberdade!
É preciso dar doses de liberdade à esta gente sonâmbula,
Que se diz divertida pela insubversão
Quando a diversão subvertida é o lugar dela.

Eh! Já não é novidade!
Mais que uns milhões deles, concluíram inconclusivamente o ensino médio.
Quiseram? Sei lá, mas puseram suas metas em stand by,
Porque também estão em stand by,
Aguardando o feedback, dos excelentíssimos Cabritos[3]
Dos poderes confiados e confinados!

Se as rezas realmente resultam em África,
Reza Maria, pelos subversivos insubvertidos
E rogue a Nyakwanvani[4], que lhes arranque do sonambulismo que os devora!
Reza Maria, se for preciso, ajoelhe-se exorcismando!
Reza Maria, mas não se esqueça de vestes, comes e bebes __ nossos Tinguluves[5] gostam!
Reza Maria, mas não catolicamente…São Tomas não atende as preces dos pretos!

 TEXTO 2:
BEM PERDIDO
Ao redor até o ínfimo está ensolarado,
Mas só ninguém merece um sincero voto.
Todos escurecemos! Até o clero! Coitado!
Nem a batina camufla o falso santo!

Por onde andas, ó brancura dos meus!?
Não te vejo na clareza dos olhos, nos olhos da clareza…
Sem ti vagueiam almas, obscurecendo sentires seus.
Como se de irracionais se tratassem nessa tal impureza!

Se pela ingenuidade fores concedida a independência,
Volte! Ainda braços de homens, tem sede de ti.
Volte! Mas sem desilusões. Ó mãe da decência!
Lamento, hoje estou mais atento às nocividades de ti.

Brancura, te calas mas sei que me ouves algures.
Eu, alma despida da virtude que és, suplico: peço que retornes!


Obrigado por terem acompanhado o decurso desta insanidade!
Entrevista feita por Elísio Miambo (blogueiro) a Elísio Miambo (escritor).
São ambos a mesma pessoa!



[1] Vocábulo criado a partir da percepção de Samora Machel, segundo a qual os jovens são a seiva da nação.
[2]Grande vela de cera, que em Moçambique simboliza a suposta unidade nacional, pois nas celebrações desta, o presidente da república e outras entidades faz uma digressão de norte a sul do país com este objecto.
[3] A palavra cabritos, tal como foi usada, invoca o conceito de corrupção, já que, como no adágio popular se assume que «o cabrito come onde está amarrado»
[4] Figura em torno da qual gira um certo misticismo, na cultura moçambicana, especificamente do sul de Moçambique.
[5] Em Moçambique, as pessoas veneram os antepassados mortos, que se acredita que dão protecção aos seus descendentes. No sul de Moçambique, estes antepassados são geralmente designados por «nguluve (singular) /tinguluve (plural)».

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