“ACREDITA-SE QUE A PERIFERIA PODE DAR FUTEBOLISTA, CANTOR, DANÇARINO. MAS NÃO POETA…” Mia Couto


Li há dias, no jornal Notícias de 10 de Novembro de 2012, uma reportagem de citações que achei interessante, sobretudo pelo carácter surpreendente e lúcido das palavras que nela são ditas. Surpreendente, porque pela convivência que tenho construído com as falas Miacoutianas esperava que não me pudesse surpreender mais com as mesmas. E lúcido, porque há “coisas” que são aqui ditas e que, por sinal, antes de serem ditas passaram por uma análise decerto “incisiva”, aliás, este autor já nos acostumou a este tipo de intervenções. Foi exactamente por isso que decidi partilhar esta reportagem/entrevista, transcrevendo-a no RLA. Faço-o não com intenções obscenas, mas, pelo gosto que tenho em partilhar e colocar em acção as rectas letras que vou criando e as que os outros criam (mas sem intenção de plagia-las). Acompanhem: 
O escritor moçambicano Mia Couto disse, em São Paulo, Brasil, que impedir a população mais pobre de pensar por si mesma é uma prática racista.
“Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, dançarino. Mas, poeta? No sentindo que o poeta não produz só uma arte, mas pensamento. Isso acho que é o grande racismo, a grande maneira de excluir o outro. E dizer: o outro pode produzir o que quiser, até o bonito. Mas pensamento próprio, isso não”.
O escritor, que já recebeu diversos prémios, como o da União Latina de Literaturas Românticas, visitou quarta-feira o sarau da Cooperifa. O evento é realizado todas as quartas-feiras no Bar do Zé Batidão, na região do Jardim Ângela, zona sul paulistana. Nessas reuniões, que ocorrem há 11 anos, crianças, adolescentes e adultos se revezam ao microfone para recitar poesia.
“É uma coisa nova que me acontece no Brasil, estar num lugar como este”, disse ao começar o bate-papo com a plateia que lotou a laje do bar para ouvi-lo. Couto já esteve no país em várias ocasiões, mas só na noite de quarta-feira satisfez a vontade de conhecer a periferia de uma grande cidade.
“Faltava-me essa experiência”, ressaltou. “Eu queria visitar a periferia de uma cidade brasileira pela mão de amigos, pela mão de gente da periferia”, acrescentou o autor que também se sente procedente de um lugar periférico. “Sou filho de portugueses que migraram nos anos 1950 para uma pequena cidade. Moçambique já é uma periferia. Eu sou da periferia da periferia, porque é uma cidade pequena”.
A identificação com a periferia da zona sul de São Paulo também está, segundo Couto, na resistência à condição de invisibilidade. Para ele, os moçambicanos têm procurado força para dizer: “queremos permanecer, queremos ser parte do mundo, queremos ser parte de um universo que não é sempre periferia”.
Na visão do autor, o processo é semelhante ao que ocorre com o projecto da Cooperifa que, além de fomentar a criação literária, procura formar público para a cultura produzida na região. “Eu vi aqui um pensamento que está muito vivo e que está a contaminar, fazendo acontecer coisas”, destacou o escritor que admite ser fortemente influenciado pela cultura brasileira.
“Vocês não podem imaginar a importância de pessoas como Jorge Amado, por exemplo, nessa vontade de dizer: afinal, podemos falar dos nossos próprios assuntos. Afinal, o negro e o mulato podem ser personagens. Afinal, as nossas coisas têm valor”, disse, ao comentar como a literatura brasileira ajudou na formação das gerações das décadas de 1950 e 1960 no seu país.
Não só os autores brasileiros ajudaram na formação de Mia Couto, mas músicos como Chico Buarque e Caetano Veloso. “Sempre se pensa que um autor literário é influenciado por outros. E, às vezes, não é só. Eu fui muito tocado pela música brasileira”. Ele lembrou que tem um leque muito amplo de influências musicais, incluindo o sambista paulista Adoniram Barbosa.
Como morava numa antiga casa colonial, contou que na juventude havia pressão para a demolição desse tipo de imóvel e a construção de edifícios mais modernos. “Lá em casa havia esse medo, que não era pronunciado, de que viesse qualquer coisa que nos levasse a isso. E essa canção do Adoniram Barbosa [Saudosa Maloca] era uma espécie de hino.
Porque aquela demolição não era só de um edifício, era a demolição de um passado, de um lugar onde fomos felizes”.
Couto destacou que também encontra a África fortemente enraizada na alma dos brasileiros. “O brasileiro tem uma alma mestiça e conseguiu essa mestiçagem naquilo que era mais difícil, na componente religiosa. As religiões africanas conseguiram se infiltrar nesse meio mais íntimo, naquilo que é mais fundo da nossa alma.” (In Notícias,10 de Novembro de 2012)

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