MOÇAMBICANAMENTE SE FALA PORTUGUÊS

Doa a quem doer, ou melhor, doa em quem doer __ neste país fala-se um Português, até certo ponto, distante das normas do padrão europeu teoricamente seguidas.
Não sei se devia, mas farto-me de rir todas as vezes que estou perante gente que…digamos que…tem estudado um pouco mais que maioria dos moçambicanos e que, talvez por isso, sinta-se no “direito” de apelidar “pretoguês” ao português falado por gente que por diversos motivos, lúcidos ou não, não tem desenvolvido relações amistosas com os livros e, muito menos com a regulação linguística, tanto que, sinceramente falando, seu discurso vale mais pelo dito e não pela forma como o dito é dito __ afinal, é exactamente ai que reside a funcionalidade linguística (mas não nos esqueçamos que os fins não justificam os meios). Alguém, então, questionaria…afinal porquê te ris em situações dessas?
A razão é simples, deixem-me só lembrar-vos as palavras de um jornalista e intelectual moçambicano (Albino Magaia) citado por FIRMINO (2000), reflectindo sobre este assunto num dos seus artigos intitulado “ língua: vida de um povo, espelho de sua história”:
Alterada a correlação política que ligava o português às línguas nacionais (ele transformou-se em língua oficial, língua de unidade) foi por isso e inevitavelmente desarmado do seu papel tradicional de instrumento de opressão cultural. Com uma criatividade exuberante as línguas nacionais violentam-no, viram-no e reviram-no, moldam-no por vezes à sua própria estrutura gramatical, como podemos constatar no dia a dia da nossa revolução. Impossível pretender manter a pureza do português, ou o inverso pretender eliminar as influências por ela exercidas e consolidadas nas línguas nacionais [in Revista Tempo n.º 477, p. 33].
Tem se dito que para bom entendedor, meia palavra basta, mas quero crer que não constitua redundância “policiar” o entendimento deste, por isso, quero socorrer-me das palavras de ROSÁRIO (1982), ao afirmar que:
O traumatismo do «Pretoguês» foi desaparecendo e hoje qualquer cidadão faz questão de se exprimir correctamente em Português e quantos deles, sendo responsáveis de sectores, não fazem brilhantes intervenções numa expressão recheada de neologismos de momento, estruturas totalmente novas e alheias à língua, interferências várias... [p. 65].
Pois então, acredito eu que com estes suportes tenha demonstrado com A + B, que tenho motivos de sobra tanto para rir-me, assim como para convidar o caro leitor a ri-se das situações descritas no segundo parágrafo (lembre-se: eu disse que farto-me de rir quando estou perante gente que…digamos que…tem estudado um pouco mais que maioria dos moçambicanos e que, talvez por isso, sinta-se no “direito” de apelidar “pretoguês” ao português falado por gente que por diversos motivos, lúcidos ou não, não tem desenvolvido relações amistosas com os livros e, muito menos com a regulação linguística).
Olha, ria-se e ria-se sempre, veja só: mesmo antes da independência, o Português falado em Moçambique incluía os chamados moçambicanismos, usados até pelos colonos portugueses. Tais moçambicanismos podem ser exemplificados com elementos lexicais, como machimbombo (o equivalente na forma europeia a autocarro, também usada em Moçambique), maningue (equivalente a muito), quinhenta (cinquenta centavos, na forma europeia, também usada em Moçambique).
Depois da independência, o uso do Português alargou-se e os sinais da sua «moçambicanização» expandiram-se. Enquanto o uso do português se alargava, os mecanismos que haviam contribuído para a aprendizagem e reforço do padrão linguístico se alteraram, dando origem à proliferação de novas formas linguísticas. Por exemplo, com a saída massiva de colonos reduziu significativamente a possibilidade de exposição dos aprendentes da língua portuguesa à norma europeia. (FIRMINO: 2000)
Um exemplo elucidativo é a mudança do uso dos termos criado ou moleque para empregado doméstico. As formas criado ou moleque eram frequentemente usadas durante o tempo colonial, tendo, portanto, uma conotação racista e opressiva. São, por isso, raramente, se não nunca  usadas na actualidade em Moçambique, onde passou a predominar uma ideologia que fomenta a antidiscriminação e a antiexploração. A expressão, empregado doméstico, actualmente em uso, é mais neutra, reflectindo uma nova percepção social do trabalho doméstico.
Sabe, gostava de convidá-lo a um exercício: analise as intervenções linguísticas dos falantes do Português em Moçambique (todos eles, com excepção de nenhum), asseguro-lhe que, poderá notar grandes inovações relativas ao léxico, à semântica, à fonética… enfim, é uma gama de atropelos (que de mim só e só recebem aplausos) à “norma do Português europeu” que teoricamente seguimos.
Observemos as transformações lexicais, e, com certeza, notaremos que resultam da aplicação de diferentes processos (as ilustrações que se seguem foram retiradas de FIRMINO: 2000) , em que se incluem os seguintes:
a) Empréstimos das línguas autóctones.
Ex. Khanimambo, ‘obrigado’, do Xironga e Xichangana.
Ex. Dumba-nengue, que literalmente significa ‘confie nas suas pernas’, uma expressão usada em referência a um tipo de mercado informal. A palavra é uma combinação de «ku-dumba», ‘confiar’ e «nengue», ‘pé/perna’. Indica o facto de que os mercados informais são ilegais e, por isso, os vendedores têm que fugir constantemente da Polícia, confiando nas suas pernas.
Ex. Tchova-xitaduma, que literalmente significa ‘vá empurrando, que vai pegar’, usada em referência a um tipo de carroça que é empurrada por um homem. A palavra é uma combinação de «ku-tchova», ‘empurrar’, e «ku-duma», ‘o pegar de um motor’.
Todas estas palavras são largamente conhecidas e/ou empregues por muitos falantes do Português em Maputo, independentemente de saberem ou não as línguas locais.
b) Neologismos morfológicos, que são derivados através de uma sobre-generalização de processos morfológicos existentes na língua.
Ex: confusionar. de confusão.
No exemplo, há uma sobre-generalização de um padrão que pode ser reconhecido na língua, tal como no par «adição/adicionar». Os nomes que terminam em «-ão» podem ser verbalizados através da substituição desta terminação por «-ionar». Tal regra é aplicada em «confusionar».
c) Neologismos semânticos, que são derivados através de mudanças semânticas em elementos lexicais existentes na língua, quer por via da substituição dos valores originais, quer por via da sua expansão.
Ex. barraca, usada em referência a um tipo de quiosque, geralmente construído com material precário, como o caniço.
Ex. mola, usada com o significado de dinheiro, como em «Estou sem mola».
Ex. abrir, também usada com o significado de ‘fugir’, ‘ir-se embora’, ou ‘partir’, como em «Ele abriu para a África do Sul», ou «Ele já abriu para a casa».
Ex. batedor, usada com o sentido de ‘ladrão’, como em «batedor de carros». Deriva do verbo «bater», que no Português informal moçambicano pode também significar ‘roubar’.
No campo da morfo-sintaxe, as inovações não se intimidam, mas, o mais interessante ainda é o campo da retórica muito usual no nosso dia a dia, observemos que há uma incorporação de imagens e metáforas do sistema cultural moçambicano, para se aumentar a expressividade, através do apelo às práticas e símbolos sócio-culturais tipicamente moçambicanos.
Tenhamos como ilustração, o uso da palavra cabrito. A palavra cabrito, invoca o conceito de corrupção, já que, como no adágio popular se assume que «o cabrito come onde está amarrado», isto é, come o capim que se encontra à sua volta, também o corrupto tira partido das oportunidades que se lhe oferecem onde estiver, como, por exemplo, no seu posto de trabalho. Assim a palavra cabrito acaba por ter o significado de corrupto, de onde se poderá formar o verbo cabritar e o substantivo cabritagem.

Em linhas gerais, diria eu que, esta é só a ponta o iceberg[1], naquilo que é a tendência do português nas terras humedecidas pelo Indico. Se “isto”, chama-se ou não “Português moçambicano”…eu não sei, mas duma “coisa” estou certo: o português europeu em Moçambique é uma teoria certa para um fracasso certo na prática. Porque, meus senhores: moçambicanamente fala-se Português!

INFORME-SE MAIS EM:
1. FIRMINO, Gregório (2000). A Situação Linguística de Moçambique: Dados do II Recenseamento Geral da População e Habitação de 1997. Maputo: INE
2. FIRMINO, Gregório (2001). A “Questão Linguística” na África Pós-Colonial: O Caso do Português e das Línguas Autóctones em Moçambique. Maputo: Promédia.
3. ROSÁRIO, Lourenço (1982), Língua Portuguesa e Cultura Moçambicana: De Instrumento de Consciência e Unidade Nacional a Veículo e Expressão de Identidade Cultural, in Cadernos de Literatura, Coimbra, Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, pp. 58-66.



[1] Grande massa de gelo flutuante.

Hermenegildo Mondlane em 28 de maio de 2012 às 00:58

está de parabenen mais uma vez, por nos ter trazido uma reflexão sobre o nosso comportamento linguístico, olha que farei parte desse clube de risos. entretanto, há uma ponóplia de factores que motivam esta atitude perante a língua, tais como a necessidade de falar para resolver certos problemas e as nossas instituições exigirem que o gfaçamos em Português...... mas prestemos atenção ao desmoronamento das nossas línguas por causa a importação da língua MAGNA.....é um terreno fértil por se trabalhar, com a nossa formação, espera-se que tais problemas registem um abrandamento....força!!!!!!!!!!!!!

Elisio Miambo em 29 de maio de 2012 às 22:04

Opah! Perante esses "bayetes", só e só tnho k dizer kanimambo!
Oh, seja bem vindo ao clube dos k se riem dssa ridícula ridicularidade!
Mas olha, apenas pedia k pusesse uma vírgula no k diz respeito ao suposto desmoronamento das lb. Pois, sem querer xtar pro algum misticismo, "há cá nas Áfricas algo além das leis da natureza k ñ permitiria k esse desmoronamento acontecesse." kkkk (brincadeira).
A verdade é k ñ devemos esquecer dos polos (campesino e urbano) k o nosso país adora grifar a sua distinção quando o assunto é inerente a questões linguísticas.
Em relação a primeira, poupo palavras, mas sei k a lp ñ tem muitos adeptos por lá. Agora, cá entre nós, no polo urbano, sabe-se que estas línguas convivem e por isso é natural que possa haver influências para lá e para cá. O k significa k ñ consigo engolir a ideia do desmoronamento...posso sim aceitar o k poderiamos chamar d "miscelânia linguística" devido a essa troca d influências a k já me referí... Kkkk...tenho dito!

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