sábado, 9 de junho de 2012

Clitização


Um dos grandes entraves que falantes de Língua Portuguesa encaram, é a colocação correcta dos pronomes clíticos, que são também designados de átonos, segundo a diversificação das perspectivas. Como forma de mostrar alternativas para a superação deste não menosprezável dilema, o presente trabalho traz, de forma sucinta e/ ou sintética, as regras básicas da ocorrência e tratamento dos clíticos, sendo pertinente na medida em que vá fazer uma espécie de topicalização das regras de clitização em Português.
Objectivamos genericamente, compreender como funcionam as regras da clitização, sendo que, para a operacionalização deste intento, far-se-á uma descrição conceptual sobre os pronomes átonos e suas diferentes funções; descrição e análise dos pressupostos de ocorrência dos clíticos.
O método bibliográfico constitui a base da efectivação, sendo concretamente, leitura de diversas obras que versam sobre este assunto, com especial destaque para as obras de MATEUS et all (2003); CUNHA & CINTRA (2005) e MAGNUS & REIS (1994).
Obedecendo a uma estrutura simples, introdução, desenvolvimento e conclusão, espera-se que o mesmo satisfaça as expectativas tanto do docente, como dos estudantes.



Os pronomes pessoais destacam três pessoas gramaticais que correspondem à interacção verbal, a quem fala, quem ouve e de quem se fala. Contudo, estas formas variam conforme
Pronomes clíticos correspondem prototipicamente às formas do pronome pessoal que ocorre associadas à posição dos complementos dos verbos, como esclarecem MATEUS et all (2003: 827).
Clitização - processo  que se ocupa ou estuda a colocação dos pronomes clíticos, ou pronomes átonos, sendo me, nos, te, vos, o, a, lhe, os, lhes, as e se, BERGSTRON & REIS (1999: 109).
Apresentamos a seguir um quadro sintético de clíticos não reflexos e reflexos, consoante a pessoa gramatical e a forma casual a que correspondem (ibidem):
Pessoas
gramaticais
Clíticos não reflexos
Reflexos
Acusativo
Dativo
Acusativo/ Dativo
1ª singular
me
me
me
2ª singular
te
te
te
3ª singular
o/ a
o/ a
o/ a
1ª plural
nos
nos
nos
2ª plural
vos
vos
vos
4ª plural
os/ as
lhes
se

Contudo, os pronomes clíticos não se limitam a denotar a pessoa gramatical, como refere CUNHA & CINTRA (2005: 299), mas também passam a exalar propriedades morfo – sintácticas características de alguns sufixos derivacionais, MATEUS et all (2003:287). Ex1: Bondosos para as crianças, eles assim o foram. Ex2: O sumo entornou-se devido ao desequilíbrio do empregado.
Para o 1º exemplo, o clítico denota um predicado. O clítico invariável o é correlato do pronome forte demonstrativo isso, pois, pode ocorrer em posição argumental de OD.
Ex: A Ana disse isso. Vs A Ana Disse-o.
  uma conexão particular entre as formas do artigo definido e os pronomes clíticos. Ex: Ele comprou os livros que se encontravam em promoção; ele comprou os que se encontravam em promoção; ele comprou-os porque se encontravam em promoção.
Essa correlação é notável a nível das 3ª s pessoas do pronome não reflexo, pois tanto o pronome como o clítico prevêm do acusativo do demonstrativo. Entretanto, tal semelhança não abrange as restantes formas pronominais, pois, os clíticos de 1ª e 2ª pessoas, bem como os reflexos de 3ª pessoa, derivam dos pronomes pessoais correspondentes latinos.
Os pronomes clíticos apresentam propriedades formais específica que justificam a designação que lhes foi atribuída de  clíticos especiais, por oposição as restantes classes de palavras àtonas (artigos e preposições), chamados clíticos simples MATEUS et all (2003: 829).
·         Os pronomes clíticos, diferem-se das preposições e artigos porque, mesmo quando designam um complemento do verbo, não ocorrem na posição canónica característica desse complemento, mas adjacente estritamente ao verbo. Ex: Eles enviaram-lhes todas as informações pela internet; vs Eles enviaram todas as informações [aos que as solicitaram] pela internet.
·         Quando vários clíticos co-ocorrem, a ordem por que surgem é igualmente distinta da canónica, aparecendo primeiro o clítico impessoal (sujeito), depois o clítico dativo e por fim o acusativo. Ex: Não se lhos comprou, porque não estavam em promoção. Vs Compra-se lhos logo que seja possível.
·         Os clíticos especiais clitizam numa classe de palavras específica, o verbo, mesmo que estejam associados ao núcleo nominal do objecto directo(1) e ao predicativo do sujeito adjectival, porém, os artigos e preposições dependem acentuadamente da palavra que se lhes segue imediatamente. Ex: Ela conhece-lhes todos os gostos; Nós estamos-lhe muito gratos.
·         Os especiais não têm posição fixa relativamente ao seu hospedeiro, podendo precedê-lo (próclise), ocorrer no seu interior (mesóclise) ou ainda segui-lo (ênclise).
·         Os pronomes em ênclise, diferem dos artigos definidos de que são homónimos porque as formas verbais aos quais clitizam apresentam propriedades fonológicas idiossincráticas consagradas no padrão. Ex: Tu comes; eu como-o; tu come-lo; podes comê-lo; eles comem-no; explicando este processo, o pronome clítico o (s)/ a (s) assume a forma lo(s)/ la(s)  quando a forma verbal termina em /s/ ou /r/, dando-se o desaparecimento destes elementos. Apresenta-se como no(s)/ na(s)  quando a forma verbal termina em nasal. Note-se que estas alterações não se registam na língua padrão quando o verbo é seguido de artigos definidos ou preposições (ibidem).

Os clíticos, apesar de poderem funcionar como complementos do verbo, não ocupam as posições canónicas destes. No português, essas posições ainda podem ser preenchidas por material lexical, dando-se o caso do redobro de clítico.
Ex: Encontrámo-las a elas na feira do livro; Nós conhecemo-nos a nós próprios melhor do que ninguém.
Os pronomes clíticos podem ocorrer em posições: pré-verbal ou proclítica, medial ou mesoclítica e em pós-verbal ou enclítica.
Esta colocação obedece a diferentes regras como se apresentam a seguir:
Sendo o pronome átono objecto directo ou indirecto do verbo, a sua posição lógica ou normal é a ênclise, CUNHA & CINTRA (2005: 310).

i)                    Na frase declarativa positiva:  Ex: Joguei-os fora; Eles entretiveram-se bastante.
ii)                  Na frase interrogativa directa total positiva: Ex: O Manuel entregou-lhe o livro?
iii)                Na frase subordinada infinita positiva: Ex: O Jardineiro tencionava levá-los ao jardim.
iv)                Nas frases com infinitivos soltos, mesmo quando modificados por negação. Ex: Para não decepcioná-lo, deixei a garrota passar.
v)                  Quando o pronome tem a forma de o (sobretudo no feminino) e o infinito regido da preposição a. Ex: Se soubesse, não continuaria  a lê-lo.
vi)                Nas locuções verbais em que o verbo principal esteja no infinitivo ou no gerúndio. Ex: 1 O roupeiro veio interromper-me.  Ex;2 Que poderá dizer-nos aquele estúpido?
Ex:3 Ia desenrolando-se a paisagem.
vii)              Ao verbo auxiliar, quando se verificarem essas condições descritas anteriormente: Ex: Ia-me desfazendo dos problemas; Ex2: Vão-me resgatar, sem meandros nem centavos.
viii)            Quando o verbo principal estiver no particípio passado, o pronome átono não pode vir depois dele, neste caso, ocorre a ênclise ao verbo auxiliar. Ex: Tenho-o feito sempre, mas hoje é que o percebeste.
i)                    Na frase declarativa negativa. Ex: não vos via há muito tempo. Jamais o teria imaginado.
ii)                  Na frase interrogativa directa parcial. Ex: quem te mandou ao mercado? Onde as guardou?
iii)                Nas subordinadas relativas. Ex: O jovem que lhe amachucou o carro é aquele.
iv)                Nas orações subordinadas temporais. Ex: Dou-te o livro quando mo pegares. Ex2: Sempre que se magoava voltava para mim.
v)                  Nas frases introduzidas pelas palavras: também, até, ainda, tudo, alguém, nunca, nada, apenas, só, todos, jamais, tudo, já, ambos, entre outras. Ex: Até o macaco se safou dessa.
vi)                Quando o verbo está no futuro do presente ou no futuro do pretérito, dá-se a próclise ou mesóclise. Ex: Eu me calarei/ eu calar-me-ei.
vii)              Nas orações iniciadas por palavras exclamativas, bem como as que exprimem desejo (optativas). Ex: Que Deus o abençoe!
viii)            Em frases com o gerúndio regido da preposição em: Ex: Em se ela anuviando, em a não vendo….
ix)                Em orações alternativas. Ex: Das duas: ou as faz ela ou as faço eu.
x)                  Há casos em que se insere uma ou mais palavras entre o pronome átono em próclise e o verbo,  sendo o mais comum a intercalação com a negativa não. Ex: Era impossível que lhe não deixasse uma lembrança. Ex: Há tanto tempo que não o via.
xi)                Nas orações subordinadas desenvolvidas, inclusive quando a conjunção está oculta. Ex: O sufrágio que me vai dar está para mim uma congregação. Ex2: A minha mãe ordenou me mandassem buscar ao seminário.  CUNHA & CINTRA (idem).
Note-se que, em frases em que ocorram tempos compostos ou a passiva de ser, os clíticos colocam-se à esquerda ou à direita dos verbos se se derem as condições indicadas anteriormente.
O mesmo acontece quando ocorrem em frases com verbos modais (dever e poder) e perífrases aspectuais (estar a, começar a). Ex: os rapazes não o devem convidar/ os rapazes não devem convidá-lo. Ex2: Quanto aos contos, a Maria os está a escrever/ Quanto aos contos, a Maria está a escrevê-los.
Quando o verbo estiver no futuro do indicativo ou no condicional.
i)                    Ex: O rei tê-lo-á convidado para ministro; Eu apresentar-te-ia ao director, se mo pedisses; Eles dar-lhe-ão uma oportunidade.

Este processo consiste na selecção de um  verbo do qual o pronome clítico não é dependente para hospedeiro verbal, MATEUS et all (2003: 856). Ex: O João tinha-o já convidado várias vezes; O convite foi-lhe finalmente enviado.




Depois de uma descrição e análise feita sobre o processo de clitização, conclui-se que se trata de um processo não fácil, pois reveste-se de tantas e tantas regras não fáceis de dominá-las pelo facto de não possuírem (os clíticos) uma posição canónica no interior da frase.
Sublinha-se também o facto de os clíticos se diferenciarem de outros pronomes átonos (artigos e preposições) por seleccionarem a categoria sobre a qual ocorrem, o verbo.
Chama-se atenção ao facto de, na posição medial, ocorrendo em alguns casos com verbos no infinitivo e por vezes com auxiliares. Portanto, é uma área de conhecimento que exige do falante muita cautela, sensibilidade e proeza no tratamento da língua.


BERGSTRON, M. & REIS N.. Prontuário Ortográfico. Guia de Português. 8ª Edição, Porto, 1999.
CUNHA, C. & CINTRA L.. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 18ª Edição, Lisboa, 2005.
MATEUS et all. Gramática de Língua Portuguesa. Lisboa, 2003

























Índice



















Hermenegildo Guilherme Mondlane
Ivone João Uamusse







CLITIZAÇÃO






Licenciatura em Ensino de Português



Faculdade de Ciências de Linguagem, Comunicação e Artes






Universidade Pedagógica
Gaza
Maio, 2012
Hermenegildo Guilherme Mondlane
Ivone João Uamusse







CLITIZAÇÃO
Trabalho de carácter científico realizado no âmbito da avaliação na cadeira de LDPI, sob orientação do Dr. Sansão Dumangane






Licenciatura em Ensino de Português






Universidade Pedagógica
Gaza
Maio, 2012

2 comentários:

  1. a svi feni Muzaya!
    Ta mesmo de parabéns por este artigo, será uma mais valia para resolver certos constrangimentos/desvios, que, alem de "excitar" aplausos, por serem ate certo ponto sinais de um português mocambicanamente falado são atropelamentos nada bem vindos ao que um dia poder-se-a chamar PORTUGUÊS MOÇAMBICANO.
    E, meu caro, esta e uma luta a qual todos temos que aderir a partir de já e já (acho eu)... Desta forma, gostava de convida-lo a fazer um estudo, pode ate ser especulativo, sobre a nossa convivência diária com os pronomes clíticos...que achas disso?

    ResponderEliminar
  2. fico-lhe muito agradecido pelo encorajamento, e prometo galgar este calvário que se chama investigação correlação à clitização. khanomambu

    ResponderEliminar